Revista TPM

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Clarice Falcão

A artista fala, entre outras coisas, sobre o sucesso de suas músicas na internet
13.01.2012 | Texto: Marcela Paes

"Se eu disser foi por amor que eu invadi o seu computador
Você pega um avião?
Se eu contar de uma só vez como eu achei sua senha do cartão
Você foge pro Japão, esse verão?
Eu queria tanto que você não fugisse de mim
Mas se fosse eu, eu fugia"

Bem que Clarice Falcão tentou espantar todo mundo na letra de "Macaé", a canção mais stalker dos últimos tempos, mas a voz doce e o talento da recifense criada no Rio tem recebido cada vez mais atenção.

Filha do cineasta e roteirista João Falcão e da também roteirista e escritora Adriana Falcão, Clarice é uma artista multimídia. Além das canções bem humoradas que viraram hit na internet, a precoce atriz de apenas 22 anos acumula feitos notáveis. Após vencer um concurso internacional de curtas no YouTube, Clarice ganhou um papel no disputadíssimo horário nobre da Rede Globo, em 2008. "Não sou muito orgulhosa do meu trabalho na novela. Ao mesmo tempo foi muito bom, trabalhei com muita gente boa, aprendi muita coisa. foi mais um aprendizado de vida, do que exatamente divertido.", conta.

Como se não bastasse, a jovem atuou no humorístico Vendemos Cadeiras, juntamente com seu namorado, o ator Gregório Duvivier (do elogiado Apenas O Fim [2009]) e escreveu - repetindo a dobradinha com o amado - a peça sobre correspondências virtuais Inbox, em cartaz atualmente no Rio de Janeiro.

Conversamos com Clarice sobre a influência dos pais em sua escolha profissional, sobre música, teatro, humor e também sobre os diversos outros assuntos que interessam a curiosa e apaixonada artista.

Tpm: Seu pai  é roteirista e cineasta e sua mãe roteirista. Não deu pra escapar do mesmo destino?
Clarice: O mundo artístico é muito sedutor. Foi muito difícil pra mim não ficar encantada com a criação, com a possibilidade de fazer coisas só minhas. O processo teatral é muito divertido. Eu ficava encantada quando assistia aos ensaios das peças em que meu pai trabalhava, achava tudo aquilo lindo. Gostaria de ter terminado a faculdade de cinema, adoraria ser formada  e até de ter feito algo mais certo, aquela coisa de fazer algo para nunca passar fome. Mas é muito difícil, porque eu começava a estudar uma coisa e só pensava em fazer uma música, em fazer um filme. Sou muito deslumbrada com esse mundo. O fato de  ter convivido com isso desde pequena com certeza ajuda muito.

Existiu algum momento em que você realmente escolheu ser atriz ou o processo aconteceu naturalmente?
Desde pequena eu dizia que queria ser atriz. Depois fui vendo outros lados como escrever, cantar...Até percebi que talvez eu gostasse mais de escrever que de atuar. Mesmo antes de entrar na faculdade de
cinema eu já pensava que talvez devesse ser atriz, mas que talvez pudesse ser outra coisa... Sou meio esquizofrênica nesse sentido. Não sei direito pra que lado vou (risos).

Mas você já atuava desde pequena? Quando você fez sua primeira peça?
Foi um infantil no teatro do shopping da Gávea chamado Ver Estrelas. Fiz com meu pai e com meu primo. Foi bem família. Acho que eu tinha uns 12 anos.

Você atuou no curta Laços, roteirizado pela sua mãe. Poucas pessoas têm a oportunidade de trabalhar com os pais e muito menos de ganhar um prêmio com eles [o curta em que Clarice atuou ganhou o prêmio de melhor curta no concurso internacional Project Direct, do YouTube]. Como foi isso?
Eu sou muito babona com os meus pais. Gosto muito de trabalhar com eles. Em geral  não consigo imaginar nenhuma outra pessoa que eu ache melhor, independente de serem meus pais. Gosto de trabalhar com amigos. A peça que vai reestrear agora eu escrevi com o Gregório, meu namorado. É legal trabalhar com gente próxima, que me entende. A coisa de escrever, por exemplo, é tão caseiro, que eu acho que inclusive rende mais. Quando escrevo com o Gregório, nós almoçamos, depois escrevemos, paramos para ver um filme, voltamos a escrever. Aí no meio de uma conversa qualquer, eu viro e falo pra ele 'Sabe aquele personagem? Por falar nisso, ele podia...Acho muito divertido trabalhar com gente muito próxima. No Laços eu e o meu melhor amigo queríamos nos inscrever no concurso e não sabíamos quem poderia escrever o roteiro... Eu sugeri minha mãe e foi ótimo. Fizemos um brainstorm, resolvemos qual era a ideia e minha mãe começou a escrever. Às vezes é quase incompreensível para as pessoas. Eu viro e falo pra minha mãe: 'Mas se vc pegasse o... e fizesse o... e depois... 'Ninguém entende, mas como a gente trabalha  e vive junto há tanto tempo nos entendemos.

O que sentiu quando recebeu a notícia de que havia ganhado o prêmio?

Não tínhamos a menor ideia. Fizemos mais como um incentivo pra produzir coisas, não pensávamos mesmo em ganhar. Ficamos super felizes por sermos o único projeto brasileiro a estar entre os finalistas . Tinha uns filmes lindos. O que ganhou segundo ou terceiro lugar se chamava My Name is Lisa e era muito bonito, super delicado. Eles ofereceram uma viagem pra Sundance, para ver a exibição do filme. Minha mãe foi e não fui porque não consegui visto. Muita falta de sorte!

Como foi estrear na TV diretamente no horário nobre, na novela A Favorita?

Sendo muito honesta, foi muito difícil. Admiro muito quem faz novela. Era muito complicado, muito rápido. Sabe quando você está brigando com alguém vai pra casa e fica pensando em tudo que  deveria ter dito? Eu me sentia assim todo dia. Fica assim: 'Ai, meu deus. Deveria ter feito tal cena de um jeito, e essa de outro.' Depois  assitia tudo e ficava pensando nas coisas que deveria mudar. Tive dificuldade de gostar do que eu fazia. Foi muito difícil.

Ainda mais porque não tinha aquela coisa de estar trabalhar com os amigos, que te deixa confortável...
Exatamente! E com tempo também. Sou muito perfeccionista, fico muito agoniada se faço uma cena mais ou menos. Sempre sentia que não conseguia dar o meu melhor, não sei porque direito... Não sou muito orgulhosa do meu trabalho na novela. Ao mesmo tempo foi muito bom, trabalhei com muita gente boa, aprendi muita coisa. Foi mais um aprendizado de vida do que exatamente algo divertido.

Você escreve, atua e canta. Tem alguma preferência por um dos três?
Tenho uma relação muita específica com cada um. Escrever é o mais fácil. Eu me sinto mais confortável, é o que eu domino mais. Cantar e compor músicas são coisas sobre as quais  eu me orgulho mais. Faço uma música nova e fico toda animada, quero logo mostrar para todo mundo. Atuar é o mais difícil e misterioso pra mim e por isso eu me interesso muito. Quero aprender e melhorar. Não sei o que eu gosto mais! Tenho me dedicado mais à música. Mas cada hora eu gosto de uma coisa. É terrível! (risos)

Então pretende seguir com as três coisas?
Por enquanto sim! Se por acaso eu decidir que só é uma coisa, foi! Mas por enquanto eu faço esse malabarismo.

Suas letras são bem engraçadas e você já atuou em um programa humorístico. Humor é algo que vem fácil pra você?
Não sei se vem fácil, mas é algo que eu gosto que permeie todas as coisas que eu faço. Gosto de escrever pra humor, atuar em humor. Na composição das músicas, uso muito o que eu aprendi escrevendo pra coisas de humor. É o jeito que eu consigo me comunicar. As coisas saem mais fáceis quando eu tenho o objetivo de passar uma ideia doida e engraçada, que surpreenda as pessoas. Humor tem muito isso da surpresa. Arte sempre tem que surpreender em algum nível. Pelo menos pra mim, mesmo quando não é uma obra de comédia especificamente, eu ainda acho que é necessário algo doido, uma ironia ou alguma surpresa. A música vem muito disso. Até porque eu faço muita musica de amor, que já é um tema exaurido. Ao mesmo tempo é um tema que eu amo. Então penso em como fazer uma música de amor de uma forma que não tenha sido feita antes. Quem faz isso melhor que ninguém é o Chico. Ele tem centenas de músicas de amor e cada uma tem um universo distinto. Não são exatamente cômicas, mas são doidas.

Mas não temos tantas comediantes mulheres no Brasil. A que você atribui isso?
A mulher, e principalmente a brasileira, é muito vaidosa. E a única coisa que você não pode ter para fazer humor é vaidade. As pessoas vão te achar ridícula e isso pesa um pouco na sua feminilidade. Tem um montão de comentários nas minhas músicas dizendo 'Olha essa maluca, quero distância.' Eu adoro, acho muito bom que as pessoas acreditem tanto. Mas acho que isso está mudando. O Brasil tem uma humorista que eu considero uma das melhores que é a Tatá Werneck. Acho a Tatá genial não como humorista mulher, mas sim como humorista. Mesmo as mais antigas, como a Heloísa Perisse, são muito boas. Temos ótimas humoristas, mas quando não dá certo acho que é muito pelo medo do ridículo.

 

"A mulher, e principalmente a brasileira, é muito vaidosa. E a única coisa que você não pode ter para fazer humor é vaidade. As pessoas vão te achar ridícula e isso pesa um pouco na sua feminilidade"


Qual é a sua inspiração pra escrever as músicas?
Eu, mas muito em como eu seria se pudesse escrever as músicas. São canções sobre exageros, maluquices. Coisas com as quais eu me identifico muito, que saem de pensamentos meus. Não sou assim porque uso as músicas e o textos pra liberar isso de mim. Imagina só? Se eu não tirasse isso de mim acho que  já estaria muito doida num hospício (risos).

O que você tem escutado ultimamente?
Eu estava em Nova York e vi o show de uma garota chamada Ingrid Michaelson, que eu adoro. Também vi o da Laura Marling. E foi muito legal, inspirador. Minha banda favorita se chama Magnetic Fields e eles também têm muito essa coisa de falar de amor de forma bem humorada. Na semana passada vi o show do Chico e acho ele a coisa mais incrível do mundo! Sério, quando cheguei perto dele eu não sabia o que fazer. Pensei em me abaixar, como se ele fosse um faraó.(risos). Mas só fiquei gaguejando.

Mas você chegou a conhecê-lo?
Depois do show eu fui ao camarim porque minha mãe o conhece. Tentei falar alguma coisa, mas não sei se saiu na língua portuguesa. Foi desesperador. Fiquei muito nervosa! (risos)

Você esperava tanta repercussão para os vídeos das músicas que você postou?
Eu já fazia essas musicas há um tempo, ficava tocando dentro do quarto mesmo...Mas não mostrava pra muita gente. Um dia minha amiga Patrícia falou que conhecia os caras do Parafernalha e que eles podiam gravar porque tinham todo o equipamento. Ela não tinha ouvido nenhuma música e nem eles. O esquema foi: 'Se eles gostarem postam no site, senão você tem isso gravado pra você.' Aconteceu assim, mas deu medo tirar isso do quarto. Eu tinha um monte de músicas que só mostrava pra minha mãe. Ela não aguentava mais (risos).

Você está gostando da recepção das músicas?
As pessoas estão muito fofas. Tenho visto muitos covers e acho lindo, super emocionante ver alguém tocando minhas músicas.

Você e seu namorado [Gregório Duvivier] trabalham bastante juntos, inclusive aturam juntos no programa Vendemos Cadeiras (2010). Como você divide isso? Já aconteceu de alguma briga interferir na gravação?
Na gravação é tudo muito tranquilo. Às vezes escrevendo rolam umas brigas, mas a gente sabe que é só ali mesmo. Mas é muito do ato de escrever, de debater ideias. Acho que o confronto faz parte. Quando eu escrevo sozinha sinto falta disso, de ter alguém que confronte a minha ideia. A briga anda muito com o processo, mas tem uma hora em que a gente para e decide o que vai ser. Acho que é normal, faz parte.

Quais são seus próximos projetos?
Estou escrevendo também com o Gregório uma série chamada Louco por Elas, pra Globo. Acho que estreia em meados de abril... Também estou sempre buscando coisas e como agora minha prioridade é a música, quero talvez fazer shows e gravar um CD. Não necessariamente nessa ordem, mas prefiro que seja nessa ordem (risos).

Abaixo você assiste ao curta Laços e aos vídeos com algumas músicas da Clarice:

 

 

 

 

Vai lá: Inbox
Quando:Terças e quintas às 21h00. Em cartaz até 15 de fevereiro
Onde: Teatro Leblon - Rua Conde Bernadotte, 26 - Leblon - Rio de Janeiro/RJ
Quanto: R$ 50,00
Site: Teatro do Leblon

Twitter da Clarice: @comedienne

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