“Se me vir abraçado com mulher feia, aparta que é briga.” Ah, a sabedoria popular.
Esse clássico dos para-choques de caminhão podia servir de epígrafe à reportagem “Você é feia?”. Isso, claro, se além de ler a frase você desse um confere no caminhoneiro em si. É, presta atenção no cara que teve a manha de pagar alguém para pintar essas palavras lá atrás. Acelera e emparelha com a cabine. Agora dá uma buzinadinha, assim o motorista desse troço com seis eixos olha pro seu lado. Pronto, se manda daí.
Reparou na triste figura? Olha, mesmo sem uma pesquisa estatística com amostragem representativa, arrisco dizer que ele está mais para Shrek ou Jabba the Hutt do que para um José Mayer – aquele que exala masculinidade, que pegou a Eva antes do Adão, que não deixa nem azeite ser virgem, que, enfim, deu origem ao zemayerfacts.com.br.
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Todo Serge Gainsbourg quer sua Brigitte Bardot.
Já as mulheres, não. Parecem ser mais tolerantes, mais generosas com as imperfeições alheias. “My Funny Valentine” é o melhor exemplo. A canção é sobre uma mulher apaixonada por um homem feio – e não o contrário, como muita gente pensa, na certa por conta de seus muitos intérpretes masculinos, de Chet Baker a Frank Sinatra. Numa tradução tipo programa de rádio de madrugada (por favor, emposte sua voz interior): “Meu doce e engraçado Valentim/ Sua aparência me faz rir/ Nada fotogênico/ Ainda assim, você é minha obra de arte favorita”. Mesmo que ele esteja mais para uma figura cubista do que para um apolo neoclássico, ela gosta do que vê.
Esse desprendimento feminino só tem um problema: não funciona no espelho. As próprias imperfeições são intoleráveis para muitas mulheres. Talvez até pela pressão do “Fator Caminhoneiro” – como resume a psicanalista Joana Novaes, “para a mulher, ser feia é o que há de pior. É estar totalmente fora do páreo”.
E tome dicas de beleza, bem-estar, maquiagem, relaxamento, cabelos e alimentação. Banho de creme e de loja. Tem que correr, tem que suar, tem que malhar. Se for preciso, vale até tomar medidas extremas: extreme makeover. Quando vê, está como aqueles anúncios de emprego sem-vergonha: “Exige-se boa aparência”. Atenção, exige-se! Não faz por menos. Imagina, ser dispensada pelo caminhoneiro?
Aí, não adianta nem o Chico Buarque vir cantando “amo tanto, e de tanto amar, acho que ela é bonita”. Bom, talvez com o Chico cantando adiante. Talvez.
Fernando Luna, diretor editorial
































