Hector Babenco descobre que vai ter peixe para o jantar enquanto abre um pote de azeitonas na cozinha da casa para onde Bárbara Paz se mudou há uns meses. Ele resmunga, cumprimenta a repórter e sai de cena. “Queria tortilla”, revela à patroa, em tom de fofoca, a empregada, que se recusa a trocar o cardápio. Bárbara concorda. A pizza do domingo excedera as calorias da semana. O casal está de regime. Ela, prestes a encarnar uma menina de 20 e poucos anos que sofre distúrbios alimentares na próxima novela das oito, Viver a Vida, de Manoel Carlos. Ele, pelos cuidados que um senhor de mais de 60 anos deve ter com a saúde. Vinte e oito anos distanciam o nascimento de Bárbara e Babenco. Mas bastaram minutos para que ela quisesse se jogar na “imensidão” que diz ser o cineasta. Por mais explícito que seja o hiato de gerações, o raio X dos 34 anos de Bárbara diagnostica 68.
Caçula de quatro irmãs, só deu tempo de guardar duas lembranças do pai: a barriga e os mimos que recebeu até os 6 anos, idade que ela tinha quando o viu morrer de cirrose, após dobrar as doses diárias de cachaça. Mas isso desde que Bárbara nasceu. No único parto que dona Iray dispensou a parteira e chamou a ambulância, ganhou a filha mas perdeu um rim. Ali, deu-se início a uma vida de hemodiálise. Por 17 anos, Bárbara foi o suporte da mãe contra a doença, até vê-la falecer. Órfã de pai, mãe e das irmãs já casadas, mandou-se para São Paulo atrás do sonho de ser modelo. Ela só não esperava que tão rápido ele seria derrubado. Seis meses depois, numa manhã de Natal, sofreu o acidente de carro que estampou as duas cicatrizes que marcaram para sempre seu rosto – e sua vida.
Como uma avalanche, Bárbara viu suas tragédias em rede nacional na primeira edição da Casa dos Artistas, em 2001, quando reality show era inédito no país. Ao lado de Supla e Alexandre Frota, ganhou notoriedade, sagrou-se campeã e se tornou protagonista de Marisol, a primeira novela do SBT a disputar ponto a ponto a audiência global. Em 2002, a gaúcha de Campo Bom era a celebridade mais popular da televisão. Nada planejado, tampouco desejado. Só vivido. A ela não sobrava tempo para questionar os convites que despencavam sobre seus 27 anos e nenhuma experiência na TV.
Sem amarras
Nesse mesmo ano, porém, ela iniciava a temporada das peças que a consagraram uma atriz talentosa no teatro. Ao lado do então namorado Dalton Vigh, estrelou A Importância de Ser Fiel, de Oscar Wilde, e a rodriguiana Os Sete Gatinhos, sucessos de público. Bárbara, ali, acalmou o brio dos críticos que a taxavam má profissional, fato repetido em Cristal (2006) e Maria Esperança (2007), folhetins do SBT. O forte da moça era, sem dúvida, o teatro. Dirigida por Antunes Filho, Zé Celso, Paulo Autran e Bibi Ferreira, no tablado seu talento crescia. “O teatro me liberta das minhas cicatrizes porque não tem uma câmera fechada”, admite a atriz, que se diz pronta para integrar o time da Globo e comandar, em agosto, o Curta São Paulo, programa de sua autoria no Canal Brasil. Afinal, tudo tem seu tempo. E, agora, Bárbara vive tempos de paz.
Tpm. As pessoas sempre tiveram uma imagem meio trash de você. Por quê? Bárbara Paz. Sempre existiram dois mundos. Tenho uma Bárbara underground que fazia todos os trabalhos que pintassem, se era trash ou não, queria experimentar. Se era ruim ou não só ia saber depois. Não tive muito critério nas minhas escolhas, mas acho que faz parte de um aprendizado. Aquela Bárbara trash, de reality show, não deixa de ser eu, só que era alguém tentando se achar, alguém em busca da identidade. Nunca me preocupei em saber que estava passando uma imagem errada do que realmente sou. Porque nunca me preocupei com os outros, estava querendo viver.
Nunca te incomodou as pessoas te julgarem esquisita? Sei que sou esquisita e acho bom, porque a perfeição é monótona. Não sou muito normal e também não gosto de pessoas muito normais do meu lado. Pra mim, tem que ser tudo um pouco esquisito, um pouco anormal.
Você usa sua esquisitice como um escudo? Sempre vendi essa imagem da doida, da louquinha, mas no fundo não era. Então, estou aprendendo a usar cada vez mais essa imagem que passava nos meus personagens, onde posso criar, não em mim mesma. Estou tentando deixar a Bárbara crua e construir em cima dela, não sair com ela, com as personas que criava. Estou direcionando as coisas. Senão, fica uma confusão de quem realmente sou.
Quem é a Bárbara Paz? Não sei. Sei que ela está sempre em processo, criando. Mudei tanto nos últimos anos. Hoje vejo umas fotos e falo: “Essa sou eu, essa não sou eu”. O que mais me incomodava era meu cabelo, não tinha noção que meu cabelo era tão loiro. Hoje entendo mais o preconceito das pessoas, porque penso: “Como é que vesti isso, meu Deus. como é que fiz essa maquiagem?” A psicanálise tem me ajudado a descobrir o que sou eu e o que são personas que inventei. As cascas foram caindo e já consigo me ver. Para sobreviver neste mundo a gente acaba colocando escudos que afastam a gente da gente mesmo. Então o caminho mais fácil era ser loira, trabalhar com meu corpo, assim teria mais trabalho. E, no fundo, não era isso que eu queria.
O que você queria na época? Sempre tive muita personalidade, mas tem um lado meu ingênuo até, do interior, que se deixou levar pelo que estava acontecendo no momento. Meus pais faleceram cedo, sempre fui a minha conduta perante a vida. Nunca tive ninguém que me dissesse o que era certo e errado no jeito de me vestir. Sempre fui uma pessoa muito sozinha em busca de alguma coisa que me salvasse e de conquistar o que realmente acreditava. Então fui com o movimento, com as coisas que foram me oferecendo. Hoje o importante é saber que posso criar e não ser só um corpo. O caminho mais fácil é ir para uma televisão popular, virar apresentadora de um programa e ganhar milhões.


































