por Fernando Luna
Tpm #90

Essa edição da Tpm é baseada em apenas uma pergunta; seja sincera e responda: você mente?

 

( ) Sim ( ) Não

 

Se respondeu “não”, por que mentiu? Pensando bem, é melhor nem tentar se justificar. Seria difícil acreditar em qualquer coisa depois dessa primeira resposta falsa. Mas, ei, não fica assim. Todo mundo mente. Quem disser que não, bem, está mentindo. Viu?

Um estudo da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, revelou que as pessoas mentem o tempo todo. Numa conversinha à toa, coisa de 10 minutos, um detector de mentiras bem calibrado apitaria três vezes – ou melhor, 2,92 vezes, para dizer a verdade.

A mentira é uma língua franca, um esperanto universal. Aqui, lá, em todo lugar, é usada para lubrificar a engrenagem das relações humanas. Um antídoto contra o “sincericídio”, essa combinação de sinceridade e suicídio social. Ou você acha que alguém quer realmente saber se está “tudo bem?” durante um papo no cafezinho?

Em média, mulheres e homens misturam ficção e fato com a mesma frequência. Mas as razões que motivam umas e outros são muito diferentes. A reportagem “Tá na máscara”, na página 59, mostra que, enquanto as mentiras masculinas costumam estar mais ligadas a contar vantagem (“O meu é maior que o seu”), as femininas chegam a carregar uma dose de generosidade.

É aquela história do “me engana que eu gosto”. Ora, se o outro gosta de ser enganado, ela mui desavergonhadamente o engana. Para ficar na mais clássica e arfante mentira de mulher: “Foi inacreditável, nunca senti isso antes!”. Assim, ele fica feliz e ela fica feliz porque ele está feliz.

Toda essa felicidade, porém, esconde uma estratégia de sobrevivência. A antropóloga Mirian Goldenberg resume a relação entre mulher e mentira. “A mentira é um sinal de submissão”, diz. “Precisamos dela por ainda vivermos numa sociedade machista.”

Mais ou menos como aquela em que se passa a história de Dom Casmurro, talvez o melhor romance já escrito sobre a mentira – e sobre muitas outras coisas, também. Machado de Assis descreve Capitu como aquela de “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Nem podia ser diferente. Imagina se, lá pelas tantas, ela confessa que o filho era mesmo de Escobar, e não daquele papa-moscas do Bentinho? Arruinava de uma só vez a própria reputação e o livro.

Bom, o espaço deste texto chegou ao fim. Foi bom para você? Tudo bem, não precisa responder.

Fernando Luna, diretor editorial

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