De Costanza Pascolato a Dudu Bertholini, passando por Alexandre Herchcovitch, os fashionistas se curvam a Christine Yufon. Modelo famosa na década de 50, ela mostrou com quantos passos se faz uma postura ereta pra muita mulher da classe alta paulistana. Chinesa de coração brasileiro, ela ensina etiqueta e postura pessoal até hoje, baseada nos princípios do taoísmo
Christine Yufon está apoiada sobre os seus dois pés. É claro, pensa o leitor. Acontece que nem todo mundo sustenta o próprio corpo tal qual Christine. Conhecida modelo na década de 50, essa chinesa que não revela a idade – mas já passou dos 80 – se fazia de escultura na passarela. Não que ficasse imóvel. Por causa dos graciosos movimentos, era como se esculpisse o próprio corpo ao desfilar. “Era uma modelo muito elegante, com uma linguagem corporal ultrassofisticada”, comenta a empresária e consultora de moda Costanza Pascolato. “Faço escultura, então posso ser uma escultura na passarela. Qualquer um pode ser uma escultura quando anda”, explica.
Apesar do trabalho como artista – com exposições no Masp e na China –, seu currículo na moda é tão longínquo quanto a postura que sustenta seu 1,68 metro. Nascida em Pequim, casou com um engenheiro francês, mudou para Paris e, com filho e marido, migrou para o Brasil – onde nasceram duas filhas. Hoje tem seis netos. Desde que partiu da China (em 1948, em meio à chegada do comunismo), só voltou três vezes ao país.
Modelo de vida
Autodidata, nunca teve uma educação formal além da escola. Por aqui modelou para a CasaVogue (famosa maison da década de 50) e para a estilista Maria Augusta Teixeira, a convite de seu assistente, Denner (mestre da alta-costura nas décadas de 60 e 70). Na França, escolheu Jacques Heim em vez de Givenchy – que também a cobiçou – para fechar um contrato.
Christine recebeu a Tpm vestida de preto e com a característica maquiagem que é retocada a cada manhã – há anos. Os olhos são unidos à sobrancelha por uma sombra preta. A pele é lisa, branca, e a boca bem marcada por um resto de batom vinho. O colo, magro e aparente, dá certa sensualidade a essa mulher que, depois da morte do marido, há 30 anos, nunca mais pensou em casar “porque, quando você casa, você dá tudo”.
Não só no casamento, mas na vida, Christine sempre deu tudo de si. Na juventude, depois de dez anos trabalhando como modelo, virou referência de mulher elegante da São Paulo sessentista. Foi professora de etiqueta e postura pessoal para debutantes, misses e alunos do Clube Paulistano. Ensinou a alta classe da cidade (incluem-se aí três gerações da família Safra), políticos, primeiras-damas e apresentadores de TV, como Xuxa. Clodovil era seu amigo. “Ele chegou a São Paulo e veio me procurar. Era meu fã”, lembra. Há 40 anos, dá aulas frequentemente. Suas peças são habituées dos ensaios de moda das revistas. Seu livro, Toda Mulher Pode Ser Bonita, best-seller nos anos 90, continua na lista dos bem vendidos das livrarias. E ela acaba de ser convidada pela Swarovski para criar uma peça para a joalheria.
É uma espécie de avó inspiradora para os fashionistas. No início deste ano, foi homenageada no SPFW – modelos desfilavam com suas bijuterias, ou “esculturas para vestir”. Amiga de Dudu Bertholini, estilista da Neon, suas criações podem ser vistas nos desfiles da marca ou complementando roupas de Alexandre Herchcovitch.
Seu português sem artigos, que a cada frase se mistura ao inglês, é marcado pelo sotaque chinês. “Nunca fui boa com línguas. Meu corpo fala muito mais”, diz. Seus dois pés, nada bambos sobre o chão, são o reflexo desse equilíbrio que ela tenta passar aos alunos. “Nunca desprezo a personalidade de um aluno. Só ajudo a encontrar o equilíbrio, o yin e o yang.” Com vocês, a manequim mais fina do Brasil.
Tpm. A senhora é uma espécie de ídolo para os fashionistas brasileiros. A Costanza Pascolato me disse que sua postura sempre chamou muita atenção nas passarelas. Por quê?
Christine Yufon. Faço escultura, então posso ser uma escultura na passarela. Olhava pra frente, puxava o corpo pra cima. Qualquer um pode ser uma escultura quando anda. A cada desfile dava tudo de mim, fazia mais do que podia. Acumulava toda a minha energia na passarela. Quando voltava, tremia, ofegante. As pessoas perguntavam o que tinha acontecido. É que eu me entregava, não só ia e voltava. Vivia a roupa, dava alma para o figurino.
Se lembra de algum desfile em que tenha feito uma performance diferente? Cada vez que participo, invento algo especial. Gosto de criar alguma coisa que dê um pouquinho de emoção, surpresa. Que encante. Teve uma vez que desfilei usando um guarda-chuva. Quis mostrar como usá-lo de bengala. No meio da passarela joguei o guarda-chuva fechado para a plateia. Tento dar um toque de magia, provocar emoções, sentimentos. Senão, fica tudo muito monótono. Sem emoção as coisas ficam sem cor, sem graça.
E como era vista pelo meio da moda? Minha roupa sempre foi muito simples. Tinha que ajudar a sustentar minha família, meus três filhos. No começo era vista como uma coitada que não tinha dinheiro nem para fazer a unha. Trabalhava [como modelo e dando aula de postura para debutantes e misses], voltava pra casa, pegava o avental e ia para a cozinha. Quando não estava na passarela ninguém olhava para mim. Mas quando entrava... enchia o lugar, não deixava ninguém passar sem olhar.
Como vê a moda hoje? Hoje você pode usar tênis com black tie e isso pode até ser interpretado como algo kitsch. Mas tem que ser kitsch com certa sensibilidade. Não é qualquer um que consegue misturar coisas e ficar bom. Misturar tudo é um grande talento, mais difícil do que usar uma combinação clássica e correta.
E como fazer uma mistura dar certo? Antes de mais nada, é preciso estar de acordo com a personalidade e com a proporção do seu corpo. Porque se a proporção estiver errada é difícil. As pessoas, quando ficam tristes, gastam muito dinheiro com roupa. Aí qualquer coisa que colocam não tem individualidade. Ficam todas bonitinhas, chiquezinhas e só isso. O chique é bonito, lógico, mas não é suficiente. É preciso ter personalidade e saber carregar aquela roupa. Aí, pode usar qualquer coisa, até trapo.

































