Alema, Anisah e Bushra, as novas ciclistas da capital inglesa
Em alguns países, o islamismo impede que mulheres andem de bicicleta. Por isso, Alema, Anisah e Bushra, londrinas filhas de muçulmanos, cresceram sem saber pedalar. Hoje, mesmo sob os olhares reprovadores, circulam orgulhosas em suas magrelas. Alema Akthar é uma das centenas de filhos de bengaleses nascidos na capital inglesa. Muçulmana praticante, ela tem 19 anos e, em meio às modernidades com as quais convive em Londres, toca um curso no mínimo curioso – para não dizer revolucionário. Depois de anos com uma inquietação no peito e nas pernas, resolveu não só aprender a andar de bicicleta, tarefa proibida para quem segue os preceitos islâmicos, mas também ensinar outras garotas como ela a pedalar.
Fez questão de me encontrar para falar sobre suas aulas antes que eu entrevistasse qualquer de suas alunas. Começou dizendo que seu curso existe há quatro anos em Londres e já ajudou mais de 300 muçulmanas entre 18 e 65 anos – a maioria imigrante de Bangladesh, Índia, Irã e Paquistão – a pilotar uma bicicleta. Por causa das crenças patriarcais da cultura daqueles países, muitas mulheres asiáticas (e mesmo as inglesas que nascem em famílias de imigrantes) estão imersas numa realidade de repressões e imposições.
Na Índia, por exemplo, meninas são forçadas a casar ainda crianças, são alijadas da escola, do convívio social e, porque não podem trabalhar, dependem financeiramente do marido e dos filhos homens. No Irã, mulheres que protestam em público por seus direitos, mesmo que pacificamente, não raro são agredidas pela polícia, presas e julgadas pelos crimes de violação à segurança nacional e à propaganda contra o governo. Em Bangladesh, uma mulher que recusa o flerte de um pretendente corre o risco de ter o rosto desfigurado pelo ácido que o próprio lhe atira como vingança; em outras ocasiões, pode ser vítima, mesmo na Inglaterra, do chamado “assassinato de honra”: ao negar um casamento arranjado ou se apaixonar por um homem que não tenha sido aprovado pela família, é morta pelo próprio pai ou outro parente do sexo masculino.
EMANCIPAÇÃO
Uma faceta, digamos, mais “prosaica” da cultura patriarcal de alguns países asiáticos está relacionada ao exercício físico. As mulheres são “desaconselhadas” a andar de bicicleta e praticar outros esportes quando atingem a adolescência, e isso é regra até o fim da vida. Porque esporte não é coisa para mulheres. Simples assim. A própria Alema só aprendeu a pedalar aos 16 anos. Nunca foi proibida pelos pais, mas jamais viu as mulheres de sua família pilotando uma bicicleta. Há apenas três anos ela ousou pôr as rodas nas ruas e conseguiu ir até mais longe que suas iguais: submeteu-se a treinos específicos de ciclismo e tornou-se uma instrutora qualificada. “Se eu posso fazer isso, imagino que outras meninas possam também”, diz, fiando-se no bom senso de pais como os dela, que, após absorverem a cultura inglesa, não se opuseram à “emancipação” da filha.
Jagonari, que significa “mulheres, despertem”, é o nome do centro cultural onde Alema trabalha e que oferece, além do curso de ciclismo, capacitação e alfabetização para mulheres da comunidade asiática concentrada em Whitechapel, bairro londrino povoado por imigrantes praticantes do islamismo. “Elas
precisam ficar em casa cuidando dos filhos enquanto os maridos trabalham e quase não têm vida social. O Jagonari é um lugar bilíngue, onde elas aprendem inglês, exercitam-se e interagem com outras mulheres”, explica Alema. Financiados com verbas do governo inglês, esses cursos são gratuitos para as alunas da comunidade. O de ciclismo ainda oferece empréstimo de bicicleta, mesmo após o fim do curso.























