Revista TPM

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De volta ao pó

O Brasil está cheirando mais cocaína, e o número de usuárias dobrou. Apuramos por que o pó voltou à moda
15.04.2009 | Texto: Luara Calvi Anic | Fotos: Nino Andres

“A cocaína tinha caído em certa desgraça, era vista como uma droga pesada. Mas voltou à cena. Não chega a ser uma epidemia, mas ela perdeu um pouco do estigma e pode estar na moda novamente”

A estudante Mariana, 28, sempre cuidou do corpo. Até que começou a usar cocaína e a emagrecer. Não gostou do resultado. Sentia sua pele flácida e sem tônus, uma magreza nada saudável. “Antes de usar cocaína minha bunda era durinha, agora caiu”, conta. A relação entre dependência de drogas e transtorno alimentar é comum, tanto que 48,2% das pacientes do Promud apresentam algum tipo de distúrbio.
A geógrafa Daniela, 30, dia desses comprou um pó que parecia mais brilhante do que o habitual. No dia seguinte, vomitou sangue. Para o delegado Luiz Carlos Magno, do Denarc (Departamento de Investigações sobre Narcóticos), a cocaína que circula nas ruas é tão misturada que quase não chega a 30% de pureza. “Calcário, aspirina, lâmpada fluorescente triturada, as pessoas não sabem o que estão botando pra dentro”, diz. “O papelote de cocaína, com 1 grama, custa R$ 10 há muito tempo. Não aumentou o valor, mas é quase como o pacote de bolacha que diminui o tamanho e continua o mesmo preço”, conclui Maurício Fiori, o sociólogo do Neip.

“SÓ” A REBORDOSA
A cocaína “batizada” não só faz cheirar mais, como aumenta o risco de overdose. “O organismo de um usuário acostumado com a droga impura não está preparado para uma dosagem maior, podendo chegar à overdose caso utilize uma cocaína mais forte. E, com certeza, vai usar mais para ter um efeito equivalente”, explica Marcelo Cruz, psiquiatra e coordenador do Projad (Programa de Estudos e Assistência ao Uso Indevido de Drogas), da UFRJ. 

Quase 40% das pacientes do Promud estão lá por causa da dependência de cocaína. A maioria tem em média 30 anos, nível superior ou ensino médio completo. O tratamento, que inclui terapia e visitas à nutricionista, dura longos três anos. As pacientes procuram ajuda, no geral, depois de uma década de uso – que é quando os problemas de saúde começam a aparecer.

O uso dessa cocaína tão impura pode ser o principal motivo da sensação de que “nada acontece” com a saúde de quem cheira, de que ninguém morre de overdose e de que a pedra no sapato do cheirador é apenas a rebordosa do dia seguinte – sensações declaradas por todos os entrevistados desta reportagem. “A droga misturada traz tanto os malefícios causados por outras substâncias quanto pela cocaína”, garante Marcelo Cruz.

A empresária Bia, 37, que “dá uns tecos” há oito anos, não vê problema em usar a droga duas vezes por semana: “Cheirar não me incomoda, me divirto, tudo bem. Já posso ter ido trabalhar mal, mas isso não atrapalha minha vida”. Bia defende o uso da cocaína “porcaria”. Ou seja, com o papelote de R$ 10 comprado na rua Augusta, em São Paulo, ela consegue dormir na volta da balada. “Se você dá esses tecos mais fortes [de R$ 50 a R$ 150 o papelote, pouco mais que 1 grama] com certeza tomou uísque em vez de cerveja, ficou cheirando até o meio-dia e não até às cinco da manhã e vai ficar uns dois dias sem dormir.”

Cocaína faz o homem brochar e a mulher se atirar no sexo. Verdade ou mentira? Geralmente, o uso a curto prazo traz uma sensação de libertação, uma euforia sexual, tanto para o homem quanto para a mulher. Com o uso frequente, há o aumento da produção de um hormônio chamado prolactina, que manda a libido pro espaço. “Essa substância age mais rapidamente nos homens do que nas mulheres”, explica o psiquiatra da UFRJ, Marcelo Cruz. Além de a cocaína ser totalmente associada ao uso do álcool – nas primeiras doses deixa o bebedor soltinho para, goles mais tarde, não dar conta do sexo. “Embora a bebida possa inicialmente levar a uma desinibição, o álcool é uma droga depressora, que inibe o sexo”, completa Marcelo.

Num mundo onde prevalece o álcool, a cocaína se torna funcional. “Ela diminui, de alguma forma, o efeito excessivo da bebida. Te leva à euforia, enquanto o álcool entra para dar uma relaxada”, explica o antropólogo Anthony Henman. Ao mesmo tempo, a mistura produz uma substância no corpo chamada cocaetileno, altamente tóxica e que potencializa os efeitos nocivos da droga, além de aumentar os riscos de convulsão, ataque cardíaco e morte. “Tem usuários que não percebem que, se não pararem de beber, vão continuar cheirando. São dois os vícios a serem tratados”, explica a psiquiatra Patrícia Hochgraf, do Promud.

“Quando uso me sinto bonita, magra, comunicativa, posso tudo. O pó dá um plus na noite. Não conheço ninguém que prove e não goste. No dia seguinte fico pra baixo.Me sinto culpada, tenho vontade de ficar na cama”

 UM COPO, UM TECO
“Quando uso me sinto bonita, magra, comunicativa, posso tudo. O pó dá um plus na noite. Não conheço ninguém que prove e não goste. No dia seguinte fico pra baixo. Me sinto culpada, tenho vontade de ficar na cama”, conta a publicitária Adriana, 28. Para a psicanalista Maria Elisa Labaki, do Instituto Sedes Sapientiae, vivemos numa época em que o interessante é se projetar no mundo do espetáculo e da estetização: “O mais importante é o que se mostra, o que se vê, o que está por fora. Depois do alto pico que o sujeito chega com a droga, a realidade se torna uma coisa horrível, por isso a depressão no dia seguinte”. Para a psiquiatra, tudo é uma questão de intensidade e grau. “Quando a gente fala de drogas, precisa diferenciar o uso ocasional do toxicômano. O que define a dependência não é o objeto utilizado e sim a relação de dependência com o objeto.” Para largar o vício, as usuárias precisam reconstituir o círculo de amizades, deixar a birita de lado, praticar alguma atividade física que dê prazer a elas – e bater cartão, durante uns três anos, em um consultório especializado que as ajude a sair do vício. Rotina nada simples para quem, inicialmente, só queria dar um brilho na noite e botar a conversa em dia.

* Colaborou Paula Rothman

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