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De volta ao pó

O Brasil está cheirando mais cocaína, e o número de usuárias dobrou. Apuramos por que o pó voltou à moda
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15.04.2009 | Texto por Luara Calvi Anic Fotos Nino Andres

 


Seja numa megabalada, numa festinha privê ou num casamento descolado, as filas nos banheiros têm ficado longas. Isso porque um certo pó anda dando sinais de retorno nas grandes cidades. O Brasil está cheirando mais cocaína – e o número de usuárias dobrou. Tpm
assopra esse fenômeno e descobre por que o pó voltou à moda, mais impuro do que nunca.

 

Sexta-feira é dia de rock’n’roll. Mãe e filha afastam os móveis. Espantam os cinco gatos. Preparam o baralho. É dia de botar a conversa em dia, espanar o pó da relação, arregalar os olhos e falar de tudo. Dia de chamar o entregador de pizza, mas não exatamente para pedir uma marguerita. De tão prazerosas, as festinhas em família viraram semanais. Nem sempre, porém, foi assim: “Era cada uma no seu quarto”, diz Maria Clara**, 17, estudante do terceiro ano do ensino médio. Hoje as duas chegam a engatar 12 horas de papo. Sem parar. Viraram amigas. Sentam juntas à mesa – e não perdem a chance de desfiar a madrugada ao som de gargalhadas. Agora, mãe e filha vivem juntas graças à cocaína esticada no mármore do balcão que separa a sala da cozinha.

E, se a droga acaba, a mãe, Heloísa, liga para o entregador de pizza e desembolsa mais R$ 150 – não exatamente para pedir outra marguerita. As duas vão dormir cedo, às seis da manhã do outro dia, depois de muitas partidas de tranca. A avó mora no mesmo prédio e não desconfia de nada. Fica chateada que nunca a oferecem um pedaço da massa. No fim da tarde, quando Maria Clara acorda, muitas vezes a mãe já está esticando a festa de sábado. Às segundas-feiras, ela costuma faltar na aula. A mensalidade, de um tradicional colégio paulistano, custa R$ 1.800. Mas Maria Clara está cansada do fim de semana passado em branco. Há um ano, Heloísa teve um infarto por causa da droga. Ela continua usando. Ainda mais depois de descobrir que a filha é adepta do hábito mantido por ela há 25 anos. “É nariguda que nem a mãe”, orgulha-se a progenitora.

Em quatro anos, de 2001 a 2005, o número de mulheres entre 18 a 24 anos que usaram cocaína uma vez na vida dobrou de 1,4% para 2,8%. E que utilizaram no último mês, de 0,2% para 0,4%, segundo o mais recente levantamento realizado pelo Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas). Isso quer dizer que pelo menos 327.333 mulheres nessa faixa etária já cheiraram – e 46.761 mandaram pó pra dentro no último mês. Além disso, de cinco anos pra cá, o consumo de cocaína entre homens e mulheres no Brasil aumentou 30%, de acordo com o UNODC, escritório da ONU para drogas e crimes. A quantidade de droga apreendida pela Polícia Federal, só no Sudeste, foi de 1,03 tonelada, em 2000, para gritantes 5,79 toneladas, em 2008.

NOITE ILUSTRADA
Fato é que, seja num restaurante, seja num casamento, seja numa balada, sempre tem muita gente cheirando. Será um revival do filme que já esteve em cartaz nos anos 80? Vinte e tantos anos atrás, os yuppies – jovens executivos americanos normalmente ligados ao mercado financeiro – gastavam parte dos seus dólares em longas carreiras de pó branco. Cocaína na mesa era sinônimo de dinheiro no bolso. Na época, 5,7 milhões de americanos respiravam fundo a droga. Hoje, o número de usuários nos Estados Unidos está caindo – apesar de ainda ser o maior do mundo (3% da população usa a droga). No Brasil, está em crescimento (0,7%), e na Europa também (3%, só na Espanha).

Numa conhecida casa noturna paulistana, no bairro da Barra Funda, o segurança esmurra a porta do banheiro pedindo para a menina sair logo. “Tem gente que até dorme aí dentro e eu tenho que acordar!”, reclama. “A mulherada está usando mais do que os homens. Elas saem do banheiro e deixam vários vestígios de que cheiraram”, completa o funcionário impaciente. As cinco portas estão ocupadas, o mictório ao lado está vazio, e a fila de homens e mulheres não para de crescer. “Por que você não vai ao mictório em vez de pegar essa fila?”, pergunta a repórter a um bailante de sorriso alargado. “Porque eu vou dar um teco no banheiro!”, responde, de bate-pronto. No jargão da noite paulistana, cocaína vira teco, padê, brilho, glamour, sniff, glória, buzuzi, Faustão. A favela Água Espraiada, na zona sul, vira Drogas Espalhadas, e a ponta de uma chave qualquer lembra o Dipilique, aquela balinha que as crianças molhavam no açúcar, na década de 80.

A 20 minutos de táxi do clube na Barra Funda, um bar em Pinheiros, onde só se entra com nome na lista e a consumação mínima é de R$ 70, também está com banheiro lotado. Entram uma, duas... cinco pessoas num espaço de 2 x 1 metros. Depois de alguns minutos, saem dando uma espiadinha no espelho, sempre com nariz lá no alto. “Não pode sobrar giz na lousa, né, gata?”, solta um passante.

“Ao contrário do ecstasy, que é associado a alegria, festa e balada, a cocaína tinha caído em certa desgraça, era vista como uma droga pesada. Mas voltou à cena. Não chega a ser uma epidemia, mas ela perdeu um pouco do estigma e pode estar na moda novamente”, opina o sociólogo Maurício Fiori, do Neip (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos), da USP. É como se houvesse uma alternância de gerações que abusam de determinada droga. Se na década de 80 houve um aumento significativo no consumo de cocaína, que levou pessoas conhecidas pelo grande público a cheirarem violeta pela raiz – ou seja, à morte –, isso pode ter causado uma espécie de má impressão na geração seguinte. Nos anos 90, ela foi deixada de lado (em 1995, nos Estados Unidos, a porcentagem de usuários caiu 2,3%), quando entrou fortemente em cena o ecstasy, que hoje tem dado sinais de estabilização mundial.

Nos anos 2000, diante de famosas que dobram o pescoço para inspirar uma carreira de pó, a cocaína ganha mais uma vez o antigo glamour. Exemplo disso é a britânica Kate Moss, que em 2006 foi eleita modelo do ano e assinou contratos com marcas milionárias, como Stella McCartney e Yves Saint-Laurent, e ainda lançou uma linha de roupas na inglesa Topshop – justamente depois de ter sido clicada, por um tabloide inglês, com o nariz em ação. “Quando há excessos e usuários morrem de overdose, as pessoas ficam com um pé atrás e param de usar. Esses picos no consumo são cíclicos, acompanham o envelhecimento do grupo social. Eu diria que a cocaína quase sempre está na moda para pessoas de 20 a 25 anos”, comenta o antropólogo e consultor da OMS (Organização Mundial de Saúde) para assuntos ligados à drogas, Anthony Henman.

Ser magra e linda também está na moda, e a cocaína é glamorizada por inibir a fome e elevar a autoestima a um pico irreal. Um segundo após “dar um teco”, a usuária se sente a top model da noite. Mesmo que, na verdade, seu corpo esteja pedindo socorro. A lista de males pelo uso contínuo – seja uma carreirinha de 15 em 15 dias, seja todos os dias – inclui perda de dentes, aumento de cáries, deformação do nariz e da face (por causa de uma corrosão da cartilagem), envelhecimento precoce, depressão, síndrome do pânico, taquicardia, derrame e morte.

“Costumo dizer que mulher aceita ser deprimida, bêbada e cheirada, mas não aceita ser gorda”, diz a psicóloga Silvia Brasiliano, do Promud (Programa de Atenção à Mulher Dependente Química), do Hospital das Clínicas. “No começo dos anos 80 já havia relatos nos Estados Unidos de meninas que usavam a cocaína porque perdiam a fome. Logo que o Promud começou, notamos que as brasileiras fazem esta mesma associação: se pararem de usar, engordam”, completa.

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