Revista TPM

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Tesão...

A fotógrafa americana Autumn Sonnichsen vem redefinindo o conceito de fotografia erótica
15.04.2009 | Texto: Ronaldo Bressane | Fotos: Autumn Sonnichsen

Autorretrato de Autumn (sentada)com Erica (em pé), “a minha preferida”, na casa da fotógrafa

Autorretrato de Autumn (sentada) com Erica (em pé), “a minha preferida”, na casa da fotógrafa

Autumn é o oposto do próprio nome. Nada a ver com a bu­có­lica estação em que as árvores cobrem as ruas com fo­lhas amareladas e as pessoas começam a se esconder sob mui­tas roupas. Por seus ensaios ultracalientes, a loura de 24 anos mais lembra aqueles incêndios de verão que volta e meia lambem mansões cinematográficas em sua terra natal, a Califórnia: tem gente que só de ouvir “Autumn Sonnichsen” já arma um sorriso sacana.

Mas também nada a ver com a pura e simples imagem de uma câmera tarada: um conceito não se fixa exato em um retrato. Essa é das poucas verdades que a moça, celebrada por seus perturba­do­res cliques, faz questão de demonstrar. São 15 horas e ela aca­bou de fazer compras para o almoço. “Ah, odeio dar entrevistas”, diz em seu português quase perfeito, embora pontuado por trocas de gê­ne­ro e um r caipira. “Bebe uma vodca?”, oferece, pegando gelo e uma Ketel One do freezer na ampla cozinha de sua casa, um be­lo apar­ta­mento nos Jardins. Depois do tintim, ela tenta enume­rar a quan­tidade de lares por que passou. “Uns 20, 30”, chuta a ga­ro­ta de pernas bronzeadas, bermuda curtíssima e cílios muito longos.

Suas lentes já viajaram por Cairo, Berlim, Nova York, Paris, Washington, Cidade do Cabo; foi aos 16 anos que ela saiu da casa da mãe, uma professora que “fazia questão de dizer aos filhos como a gente era foda! Os meus irmãos são uns lucky bastards... Adoramos aprender coisas. Sempre tive a impressão de que faria algo muito bom, desde pequena. Achava que escreveria: era fã da­que­la turma de americanos em Paris nos anos 20. Ainda bem que pa­rei, porque tudo o que escrevia era ruim!”, ri na cozinha, en­quanto lava vegetais antes de colocá-los na geladeira. É fluente em espanhol, francês, alemão e arranha um árabe. “Apren­der ou­tra língua é como ser outra pessoa. Existem muitas Autumns den­tro de mim”, afirma. Ela sempre sonhou em morar no Rio de Janeiro, mas, em 2005, aca­bou encontrando, pela internet, um apartamento para dividir em São Paulo, onde o mercado de trabalho fa­vo­recia. Hoje, mesmo su­pe­rinteirada no Brasil – colabora com revistas como Tpm, Trip, Play­boy, EleEla e Quem –, planeja deixar a estabili­dade e largar a foto­gra­fia, como ve­r­e­mos.


"Apren­der ou­tra língua é como ser outra pessoa. Existem muitas Autumns den­tro de mim"


Enquanto isso não rola, Autumn causa. “Eu pesquisava a sensualidade na fotografia, erotismo, porque trabalhava numa revis­ta masculina”, conta Elizabeth Slamek, ex-diretora de arte da Trip. “Um dia apareceu uma gringa querendo me ver, uma ga­rota mui­to nova e extremamente doce com sotaque... Quando vi as fotos fi­­quei extasiada: era tudo o que vinha procurando. As fotos ti­nham paixão e eram quentes pra valer. Sim... as fotos de­la dão te­são!”, jus­tifica. E ela é obstinada: atrás do clique perfeito, não me­de limi­te. “A gente estava clicando uma garota nua amarrada, na Pau­lista, depois foi pro viaduto do Chá, quando apareceu um policial”, con­ta seu braço direito, Jozzu. “A Autumn convidou o PM pra partici­par da foto, e ele acabou ajudando. De­pois, a gringa cismou de fotografar a mina na frente da catedral da Sé. Apareceu o mesmo PM mais cinco, dando esporro: ‘Que pu­ta­ria é essa na fren­te da igre­ja?’. Fiquei fazendo cara de paisagem enquanto a Autumn veio com essa: ‘Mas senhorrr! Non sabia que non podia! Eu serrr arrr­tista”, gargalha Jozzu, abrindo a porteira do r.

WOOOOW
A arquiteta e jornalista Joana Johnsen, Trip Girl da Trip #164 e protagonista de um futuro livro de Autumn, sugere uns truques da gringa atrás da imagem (im)perfeita. “A gente viajava juntas pelo Nordeste e Norte, começamos a nos fotografar de brincadeira... Depois ela ofereceu uns retratos meus para a Trip. Sur­giu por acaso”, diz. Como é seu estilo de fotografar? “Ela sen­te o li­mite da pessoa, vai fazendo com que ela queira ficar nua. É impaciente, mas sa­be até onde ir, e ao mesmo tempo é persuasiva, deixa a pessoa re­fletir se quer isso mesmo. E sabe como tor­nar o transgressivo algo natural, simples, sensível. O que mais gos­to nela é o fato de ser uma mulher que admira muito a beleza feminina”, define Joana.

Para Autumn, ver uma mulher maravilhosa é “como presenciar um milagre”, conta a jornalista Erica Gonsales, musa de ensaios e amiga de fé (leia box). Mas ela principalmente aprecia be­le­­­zas nada óbvias e gosta de surpreender o belo em um enquadramento inusitado, em uma luz suja, um cenário estranho. Basta ver seu recente ensaio com Nana Gouvêa para Playboy, em que colocou a modelo nua no Copan no meio de 300 pessoas. Uma das ca­rac­­­terísticas marcantes de seu estilo é a capacidade de tornar na­tu­­­ral qualquer coisa estranha – e de trazer estranheza para algo apa­­­rentemente normal. Suas imagens têm senso de narrativa e uma estética quente que aproxima a técnica de seu berço: o ins­tan­tâ­neo. O espectador não parece ver uma foto produzida, e sim as­sis­tir ao momento da ação. Próprio de quem curte uma espiada na fe­chadura: californiana que não nega as raízes, Au­tumn adora fil­me pornô. Não é o aspecto sexual que a im­pres­siona, e sim o lado gar­gantuesco da coisa. “Me fascina o uni­ver­so das pessoas que ven­­dem seu corpo, que o modificam, que abu­sam de seus limites. Me apaixonam as coisas que são woooow, lar­ger than life, en­ten­­de? Vejo mulheres lindas e fico de cara, tipo ‘olha essa gosto­sa!’.”

Assunto que a tira do sério é a distinção entre erotismo e por­no­­grafia. “O que é foto erótica? Se a pessoa está meio pelada é eró­ti­­ca? Totalmente pelada é pornográfica? Não tenho vontade desse debate. Quero fazer fotos divertidas, que as pes­­­soas entendam, que as deixem felizes, não discuto limi­tes. Se quer saber o que é por­no­­­grafia e o que é erotis­mo, su­­giro es­se li­vro” – e estende um dicionário ao re­pór­ter. Mas qual se­ria sua de­fi­­­nição de porno­gra­fia? “Qualquer ima­gem vendida pa­­ra ou­tra pessoa bater punheta.”

E, daqui a dez anos, que pretende estar fazendo? “Não tenho vontade de seguir na fotografia profissional: esse mundo de revistas tem capacidade de ser extremamente chato”, detona. “Vou tentar terminar a faculdade de história da arte e ser professora. An­tes, gostaria de fazer um filme. Num mundo perfeito faria um livro por ano e não publicaria mais nada em outros lugares. Pre­ciso apren­der árabe direito, a dirigir um carro com marcha, aprender a cozinhar na Tailândia. Quero ter cavalos. E, faz pouco tempo, fi­quei pilhada em largar tudo, voltar para a Califórnia e ser par­teira. Aliás, foto­gra­far um parto deve ser incrível. Tenho que fa­zer isso”, desafia. To­cando no assunto intimidade... toda vez que o re­pór­ter se in­tro­mete em algum tema mais íntimo, a resposta é uma só: “It’s not of your business! Mais vodca?”. Cheers, Autumn: fo­tó­gra­­fo bom tem que saber mesmo onde colocar o foco.

 

Erikitty, a musa

Erica posando para Autumn pela primeira vez

Erica posando para Autumn pela primeira vez

Por Erica Gonsales

“Conheci a Autumn quando editava um si­te erótico e já fazia autorretratos sensuais. Nos­sa amizade me fez as­su­mir o gosto pelo erotismo. Arrumei uma cúm­plice. Todo mun­­do gosta de sexo. Mas mesmo quem se diz moderno tem pudor de assumir isso. Ela tem um jeito de fazer tudo parecer le­ve e natural.

Tive resistência em deixar ser foto­gra­fa­da. Também achava que ela era tarada. Mas in­­sistiu tanto que conseguiu. O que me dei­xou à vontade foi o jeito como ela conduz: diz que você é fantástica, maravilho­sa – e você acredita . Mas não é artifício pra te deixar segura, a Autumn fica realmente feliz ao ver uma mu­lher nua. Um fotógrafo pode ter receio de te pedir pra ficar de quatro. Ela não. É des­te­mida. Já vi es­sa mulher em situa­ções peri­go­sas para ter a fo­to que quer: cami­nhan­do num te­lhado quen­te com telhas se des­­pedaçando, subindo em muros altíssimos, sentada em janelas no 15º andar...

Na verdade, ela pode ser tarada. Mas não 24 horas. Como toda mulher, é sen­­sí­vel, chora em fil­mes de amor e ama dar pre­sen­tes. É das pessoas mais generosas que co­nhe­ço. Ela me deu algo precioso, que tento re­tri­­buir quando faço alguma doideira que ela me pede (como deitar no escadão da ave­ni­da Sumaré às três da tarde e mos­trar a bunda pra ela fotografar). Me acho mais bonita por cau­sa dela.”

 

Conhaça o blog da Autumn no site da Trip
http://revistatrip.uol.com.br/blogs/autumn/