Com 50 anos completos e o gosto amargo de uma recente internação com princípio de pneumonia, Zeca é o cara que tem a lábia de formular “Descobri que te amo demais, descobri em você minha paz”. Ele fala manso, no tom do xaveco de quem já gravou 16 discos. No papo interrompido por decisões domésticas cruciais, como adotar ou não um cachorro, ele dramatiza, sofre, bebe – faz aquela cara de cão sem dono – e revela que “ficar sozinho é muito triste”, “que ficou estressado na Disney” e que sente saudades de um “meio-fio”.
Zeca, aos 28 anos, em 1987, com o segundo álbum em mãos, Patota do Cosme
Zeca, a Suzana Vieira está perguntando se você quer um cachorrinho.” Mônica, esposa do cantor e compositor há 22 anos, sobe as escadas do dúplex onde a família mora na Barra da Tijuca e passa o telefone para Zeca.“O quê? Um cachorro? Não posso ter um cachorro em casa! Mas a minha filha disse que queria? Ai, meu Deus. Então traz.” A aquisição de um novo cachorro vira o assunto do dia na casa de bamba. “Um cachorro, e agora?”, Zeca leva a mão ao rosto, dramático. “Agora você vai ver o bicho pegar”, avisa para a reportagem da Tpm, sem se dar conta do trocadilho.
E o que era adoravelmente caótico fica um pouco mais. Já do elevador ouço sons de gargalhadas antes de chegar ao hall do apartamento. Em volta da mesa, uma equipe de filmagem ria e tomava cerveja com Zeca. Era meio-dia. Enquanto isso, dois dos quatro filhos do casal, Eduardo, 22, e Louiz, 20, andavam pelo apartamento ao mesmo tempo que carregadores passavam levando móveis para a varanda. Com a notícia da adoção do animal, tudo fica mais confuso. “Zeca, um cachorro no apartamento?”, pergunta Mônica, rindo. “Mas a Suzana disse que a Elisa adorou o bicho”, justifica. A filha de 17 anos chega e recebe a notícia do pai. Para surpresa geral, ela diz que não quer cachorro nenhum. “E agora? Tô com um problema. Descobri que na verdade eu é que quero”, confessa o cantor.
Zeca Pagodinho tem coração mole. E deve ser por isso que faz tanto sucesso com as mulheres. Ao contar para amigas que entrevistaria o sambista, ouvi suspiros de amor. O que é que Zeca, boêmio e longe de ser galã, tem que tanto agrada as moças? Provavelmente, o fato de ser um boêmio de família. Prova é que, durante a entrevista, pergunta a cada meia hora: “Onde está a Dudinha, tô com saudades do meu bebê. Que horas ela chega?”. A bebê é a caçula, Duda, de 4 anos. “Ela só sai da escola às três da tarde, não aguento de saudade. É muito tempo para uma criança ficar fora de casa. Isso é maldade”, lamenta.
O cantor, que acaba de completar 50 anos após um susto (ele foi internado em janeiro com princípio de pneumonia), gosta da casa cheia. “Ficar sozinho é muito triste.” Ele nunca ficou sem companhia no apartamento onde mora. Nunca. “Num quarto pode ser, mas numa casa tão grande não dá.” Ele tem medo. Ouve barulhos.
SAUDOSA XERÉM
Zeca acha um saco cumprir compromissos como dar esta entrevista. Uma hora diz: “Sabe do que sinto saudades? Do meio-fio. Não tem nada melhor do que sentar com os compadres no meio-fio, tomando uma cerveja, passa um, conversa, dá um palpite no bicho”. Zeca, que já foi apontador de jogo de bicho, é consagrado pelos 18 discos gravados. Mas sente é saudades de Xerém, distrito do município de Duque de Caxias, na periferia do Rio de Janeiro, onde tem sítio. Durante mais de duas horas, ele bebeu cerveja, contou causos, atendeu telefonemas de compadres (ele anda com três celulares) e conversou com os filhos, que não passam por ele sem dizer, naturalmente: “Bênção, pai”, ao que Zeca responde: “Deus te abençoe, meu filho”. Dúvidas, tipo a idade dos rebentos, eram resolvidas com um grito: “Mooonica, quantos anos tem o Eduardo?”.
Na hora de ir, Zeca quase não me deixa. “Você vai embora sem comer? Come só um pouquinho.” A seguir, o autor de músicas como “Vou Botar Seu Nome na Macumba” e “Verdade”, aquela que diz: “Descobri que te amo demais, descobri em você minha paz”.























