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Disseca Pagodinho

Aos 50 anos, Zeca Pagodinho dramatiza, sofre, bebe e revela que sente saudades do meio-fio
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15.04.2009 | Texto por Nina Lemos Fotos Arquivo pessoal e Reprodução

Com 50 anos completos e o gosto amargo de uma recente internação com princípio de pneumonia, Zeca é o cara que tem a lábia de formular “Descobri que te amo demais, descobri em você minha paz”. Ele fala manso, no tom do xaveco de quem já gravou 16 discos. No papo interrompido por decisões domésticas cruciais, como adotar ou não um cachorro, ele dramatiza, sofre, bebe – faz aquela cara de cão sem dono – e revela que “ficar sozinho é muito triste”, “que ficou estressado na Disney” e que sente saudades de um “meio-fio”.

 

Zeca, aos 28 anos, em 1987, com o segundo álbum em mãos, Patota do Cosme

Zeca, aos 28 anos, em 1987, com o segundo álbum em mãos, Patota do Cosme

Zeca, a Suzana Vieira está perguntando se você quer um cachorrinho.” Mônica, esposa do cantor e compositor há 22 anos, sobe as escadas do dúplex onde a família mora na Barra da Tijuca e passa o te­le­fone para Zeca.“O quê? Um cachorro? Não posso ter um cachorro em casa! Mas a minha filha disse que queria? Ai, meu Deus. Então traz.” A aquisição de um novo ca­chorro vira o assunto do dia na casa de bam­ba. “Um ca­chorro, e agora?”, Zeca leva a mão ao rosto, dramático. “Agora você vai ver o bicho pegar”, avi­sa pa­ra a reportagem da Tpm, sem se dar conta do tro­ca­di­­lho.

E o que era adoravelmente caótico fica um pou­co mais. Já do elevador ouço sons de gargalhadas an­­tes de chegar ao hall do apartamento. Em volta da me­­sa, uma equipe de filmagem ria e tomava cerveja com Zeca. Era meio-dia. Enquanto isso, dois dos quatro filhos do ca­sal, Eduardo, 22, e Louiz, 20, andavam pelo apartamento ao mesmo tempo que carregadores pas­­savam le­van­do móveis para a varanda. Com a notícia da adoção do animal, tudo fica mais con­­fuso. “Zeca, um cachorro no apartamento?”, pergunta Môni­ca, rindo. “Mas a Suzana disse que a Elisa ado­rou o bicho”, justifica. A fi­lha de 17 anos chega e recebe a notícia do pai. Para sur­pre­sa ge­ral, ela diz que não quer ca­chor­ro nenhum. “E agora? Tô com um pro­blema. Des­­­cobri que na verda­de eu é que quero”, confessa o cantor.

Zeca Pagodinho tem coração mole. E deve ser por is­so que faz tanto sucesso com as mulheres. Ao contar pa­ra amigas que entrevistaria o sambista, ouvi suspiros de amor. O que é que Zeca, boêmio e longe de ser galã, tem que tanto agrada as moças? Provavelmente, o fato de ser um boê­mio de família. Prova é que, durante a entrevista, pergunta a cada meia hora: “Onde está a Dudinha, tô com saudades do meu bebê. Que horas ela chega?”. A bebê é a caçula, Duda, de 4 anos. “Ela só sai da escola às três da tarde, não aguento de saudade. É mui­to tempo para uma criança ficar fora de casa. Isso é maldade”, la­men­­ta.

O cantor, que acaba de completar 50 anos após um susto (ele foi internado em janeiro com princípio de pneumonia), gosta da ca­sa cheia. “Ficar sozinho é muito triste.” Ele nunca ficou sem compa­nhia no apar­­tamento onde mora. Nunca. “Num quarto po­de ser, mas numa casa tão grande não dá.” Ele tem medo. Ouve ba­ru­lhos.

 

SAUDOSA XERÉM
Zeca acha um saco cumprir compromissos como dar es­ta entrevista. Uma hora diz: “Sabe do que sinto sau­da­des? Do meio-fio. Não tem nada melhor do que sentar com os compadres no meio-fio, tomando uma cerveja, passa um, con­versa, dá um palpite no bicho”. Zeca, que já foi apontador de jo­­go de bicho, é consagrado pelos 18 discos gravados. Mas sen­te é saudades de Xerém, distrito do município de Duque de Caxias, na periferia do Rio de Janeiro, on­­de tem sítio. Durante mais de duas horas, ele bebeu cerveja, con­tou causos, atendeu telefonemas de compadres (ele anda com três ce­lulares) e conversou com os filhos, que não passam por ele sem di­zer, naturalmente: “Bênção, pai”, ao que Zeca responde: “Deus te abençoe, meu filho”. Dúvidas, tipo a idade dos rebentos, eram resolvidas com um grito: “Mooonica, quantos anos tem o Eduar­do?”.

Na hora de ir, Zeca quase não me deixa. “Você vai em­bo­­ra sem comer? Come só um pouquinho.” A seguir, o autor de mú­si­­cas como “Vou Botar Seu Nome na Macumba” e “Ver­da­de”, aquela que diz: “Descobri que te amo demais, descobri em vo­cê minha paz”.

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