Revista TPM

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O cotidiano de um guerreiro intergaláctico

Torço para que Francisco nunca perca de vista a maneira especial com que enxerga a vida
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16.03.2009 | Texto por Milly Lacombe Fotos Ilustração Juliana Russo

Do conforto de seu planeta, Francisco fica de olho no nosso mundo, onde somos heróis e vilões de nós mesmos. Torço para que ele nunca perca de vista a maneira especial com que enxerga a vida – e continue a proteger os indefesos

 

 

 

Francisco vai fazer 6 anos. De presente, pediu à mãe uma roupa do exército de Jedi, “mas tem que ser a verdadeira, com as partes duras e tudo mais”, exigiu. Missão tão árdua quanto liquidar Darth Vader. A mãe, minha irmã, que não é boba nem nada, sabendo da dificuldade do desafio, aguardou o momento ideal para disparar sua munição. E o momento ideal ocorreu quando estávamos, sábado à noite, jantando em uma movimentada lanchonete da cidade de São Paulo. “Francisco, diz para a Dinda o que você quer de aniversário”, soltou ela, displicentemente, entre uma batata frita e outra. O garoto, subitamente anima­do com a perspectiva de me ver presenteá-lo com ta­manho mimo, levantou da mesa, já em posição de sol­dado de Jedi, e começou a descrever, em minúcias, os detalhes da roupa da tropa que eu deveria comprar. Estava psicologicamente dopado pela chance de falar sobre seu assunto predileto ultimamente: Guerra nas Estrelas. Durante a performance de guerreiro interga­láctico, por pouco não atingiu um gar­çom, no que te­ria sido um golpe baixo e quase fatal. “Francisco, senta!”, disse minha irmã, ainda calma, mas sabendo que tinha iniciado a verdadeira batalha da noite. O guerreiro obedeceu. Por 10 segundos. No 11˚, voltou a leva­n­tar e iniciar sua rotina de movi­men­tos bélicos. Fran­cisco está determinado a salvar o mun­do – e eu continuo torcendo.

– Eu gosto do Darth Vader – provoquei, vendo imediatamente os olhos de minha irmã e de meu cu­nhado se arregalarem.
– Mas ele é mau – rebateu o garoto, assustado e in­­ter­rompendo bruscamente sua rotina de movimentos.
– Um dia ele já foi bom – argumentei, na espe­rança de tirá-lo daquele estado maniqueísta.
– Senta, Francisco! – disse a mãe.
– Cadê a canetinha azul? – perguntou Marcelo, o irmão caçula, concentrado em pintar um abençoado li­v­ro de colorir que o pai, que não é bobo nem nada, ha­via com­prado a caminho da lanchonete.
– Pinta de verde – sugeriu Estela, a primogênita.
– Não gosto de verde!
– Eu torço para o São Paulo – emendou o soldado de Jedi, atraído pela palavra-chave “verde”.
– O que isso tem a ver com Star Wars? – perguntei.
– Senta, Francisco! – disse a mãe.
– Tem que ter aquela máscara branca, sabe? – con­­­­­ti­nuou o garoto, agora sobre a roupa do exército de Jedi.
– Sei – respondi, já pensando onde poderia encontrar uma farda de Jedi.
– Você gosta do Darth Vader? – perguntou Fran­cisco à minha mulher, que estava sentada a seu lado na me­sa redonda.
– Não... – titubeou ela, ainda sem saber se estava dando a resposta correta.
– Cadê a canetinha azul? Cadê a canetinha azul? – re­clamou o caçula.
– Pinta de preto! – insistiu a primogênita.
– Eu torço para o São Paulo – disse Francisco, atraí­­do pela palavra-chave “preto”.
– Luke Skywalker é corintiano – provoquei.
– Não é! – disse ele categoricamente antes de me dar as costas e começar a explicar à minha mulher tudo sobre os motivos que deveriam levá-la a não gostar de Darth Vader.
– Senta, Francisco!

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