por Milly Lacombe
Tpm #148

Ou sobre como fica a vida depois de saber que alguém que você ama foi diagnosticado

Eu abri o olho com o barulho de que uma nova mensagem tinha chegado ao celular. Faz meses que penso em tirar o celular da mesinha, mas essa não era a noite ideal para fazer isso porque eu sabia que você me chamaria cedo, até por causa do fuso horário que nos separa, assim que saísse da tomografia. As palavras estavam ali, exatamente como eu temia: “É câncer”, você escreveu. 

Fiquei olhando a tela e tentando respirar. Consegui erguer o corpo e encostar as costas na cabeceira da cama, ainda encarando a mensagem. E então comecei a digitar todas as coisas otimistas e alegres que achava que devia dizer nessa hora. Depois, já de pé, me senti como meu sobrinho Francisco, que teve que ser internado com menos de 2 anos porque estava desidratado e, como a enfermeira não conseguia pegar a pequenina veia dele para colocar o soro, Francisco se esgoelava enquanto minha irmã, com uma voz nervosa, dizia: “Calma, Francisco, calma, meu filho”. Escutando a mãe dizer “calma” naquele tom tenso ele, que na época não falava quase nada além de “papai” e “mamãe”, começou a uivar para a enfermeira: “Calmaaaaaaa”, “Calmaaaaaaa”. Era com esse estado de espírito que eu escrevia para você naquela manhã chuvosa de outubro: pedindo calma histericamente. 

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E então, quando você telefonou, saí de meu transe. Escutando sua voz, e percebendo toda a tranquilidade que havia nela, aquietei também. Ok, então estávamos com câncer, pensei. Por que não aconteceria com a gente se acontece com tantas mulheres? Quando as palavras saíram da minha boca elas soaram corretas como pouca coisa que sai de minha boca soa: “Estamos com câncer”, eu disse a você. Nessa hora entendi que quando alguém que você ama visceralmente é diagnosticado, você também está com câncer. Afinal, uma parte de mim – você – está com câncer.

Quando nos casamos, naquela festa que minha irmã e meu cunhado deram para a gente, eu achava que nada poderia nos separar – e eu estava certa. Nem mesmo quando eu saí de casa, nem mesmo quando me apaixonei por outra pessoa, nem mesmo quando fui uma idiota com você, você me deixou. Aliás, você deve ter sido a única ex-mulher que telefonou para a namorada, aquela que até ontem era sua companheira de vida e, em vez de insultar, disse: “Estou ligando para falar que não tenho raiva e para pedir para você cuidar bem dela”. Quem no mundo tem tanta elegância? Quem no mundo encara a dor desse jeito sublime?

Depois de uma década de vida junto, de uma aventura de seis anos em Los Angeles, depois de você me fazer ver que eu devia largar a publicidade e começar a escrever ainda que escrever não me desse nenhum dinheiro, mas apenas porque parecia ser o que eu mais gostava de fazer na vida, e atividade para a qual você dizia que eu tinha algum talento – depois de tudo isso, como poderíamos nos separar mesmo que o casamento acabasse? Acho que ninguém do universo heterossexual, ou do universo gay masculino, entende essa cultura lésbica de empilhar ex-namoradas e conviver em harmonia todo mundo junto. Mas é o que fazemos de fato, e disso eu me orgulho – não apenas por mim e por você, mas por todas as lésbicas do mundo que entendem que um grande amor não termina quando a vida sob o mesmo teto acaba.

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Não demorou para que começássemos a sair as três, nem para que você se apaixonasse, entrasse em outra relação e se transformasse numa empresária de sucesso, a ponto de me dizer um dia: “Faz um blog para escrever sobre o que quiser que eu banco, mas vê se dessa vez não se mete em encrenca porque não quero processo para o meu lado”.

Então, naquela manhã fria de outubro, quando finalmente parei para respirar fui invadida por uma calma enorme. Sim, era câncer. Mas se tem no mundo alguém que saberá passar por isso com elegância essa pessoa é você. Movida pela certeza de que ficaríamos bem, fiz o que melhor sei fazer: saí e comprei dez livros sobre câncer. Passei o fim de semana enfurnada em casa lendo e em dois dias sabia coisas que nunca imaginei saber.

E porque o câncer de mama é seu e também é meu pensei que nada seria mais justo do que eu raspar a cabeça quando seu cabelo começar a cair. Assim que tive a ideia liguei para contar achando que você diria: “Que bobagem raspar a cabeça também, você e suas doideiras”, e escutei: “É o mínimo”. 

Depois disso, veio o dia de contar para sua mãe, talvez a parte mais dura dessa primeira fase. Você estava mais nervosa do que nunca, cheia de dor antecipando a dor dela, achando que ela, pilhada do jeito que é, e te amando daquela forma quase doentia que a gente sabe como é, ia ter um troço, e nessa hora eu também caí. Quando ela chegou à sua casa você me mandou uma mensagem: “Ela chegou, reza”. E eu, que não sei rezar, fechei os olhos e comecei a pedir. Depois de uma hora, aflita, eu quis notícias e mandei uma mensagem: “O que ela disse, pelo amor de Deus?”. A resposta demorou, mas veio: “Ela disse: ‘Minha filha, que susto. Achei que você ia me dizer que estava com ebola. Câncer a gente cura’”. Mães… 

E é assim que estamos hoje: entrando juntas em mais uma aventura, essa doideira desse câncer. Vai ser difícil, vai ser dolorido, mas vai ser rico e vai ser lindo. E quando tudo passar, e nossos cabelos estiverem longos outra vez, saberemos olhar para trás e entender por que tínhamos que viver essa experiência. Quem sabe o que a vida reserva? Quem sabe quanto ainda viveremos, cada uma de nós? E então, maiores e mais fortes, vamos nos sentar em uma mesa, com uma taça de vinho nas mãos, e celebrar a vida, essa maluquice cheia de dor, de surpresas e de coisas espetaculares. 

Eu te amo, e vai ficar tudo bem.

A carioca Milly Lacombe, 46 anos, já exercitou a paixão pelo futebol no SporTV e na Record, como comentarista esportiva. Também já colaborou com diversas revistas e com o portal Terra, mas gosta mesmo é de escrever livros em seu cubículo em Nova York, onde foi passar uma temporada com duas cadelas e uma gata. Seu e-mail: millylacombe@gmail.com

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