Você, eu, pregos e martelos

por Milly Lacombe
Tpm #144

Ou sobre como nosso amor resiste à minha inadequação para todas as coisas práticas da vida

Você telefona e diz que vai atrasar porque antes de chegar em casa vai passar na loja de material de construção. Tento não deixar que minha voz registre o nervosismo que me invade. Não estamos fazendo nenhuma obra, a casa me parece bastante arrumadinha, mas sei que você não consegue ficar muito tempo sem pendurar coisas novas, ou introduzir um móvel que eu jamais entendi que estava faltando na sala e que vai chegar dentro de uma caixa, o que significa que ainda teremos que montar – ou, mais exatamente, terei que ser sua ajudante durante o processo de montagem –, um que envolve peças que sempre faltam e manuais que nunca conseguem ser claros, e, dependendo da hora em que descobrir tudo isso, a culpa passa a ser minha. No fundo eu sabia que esse dia chegaria, porque ele chega com impressionante regularidade há anos, mas não queria acreditar que ele havia chegado naquela noite.

Sem demonstrar que estou hiperventilando pergunto o que você vai comprar na loja, e você responde “pregos e martelo”. Quero perguntar para quê, mas sei que se fizer isso eu talvez faça com que você espane e inicie um monólogo sobre como sempre podemos melhorar a funcionalidade dos objetos na casa, sobre como eu não presto atenção nas coisas que faltam, sobre como não tomo a iniciativa de sair para comprar essas coisas, ou uma delas que seja, então resisto e não digo nada. Desligo o telefone e penso que minha noite, tão docemente planejada entre assistir a um episódio de Cosmos na TV e tomar uma taça de vinho, corre o risco de ser demolida.

Você entra cheia de sacolinhas, e sinto algumas gotas de suor na testa. “Chegaram os panos”, você diz enquanto joga as sacolas no chão e me beija e me abraça. Faz dez anos que você chega em casa e me agarra, e faz dez anos que esse é um dos momentos mais felizes do meu dia. Me encaixo no seu abraço, querendo que a noite seja apenas isso e nada mais, mas me lembro dos panos e fico tentada a perguntar “que panos são esses que chegaram?”, mas lembro que a chance de você já ter me falado deles, e eu ter esquecido a respeito, é bastante grande, então fico quieta e apenas aperto seu corpo contra o meu sentindo uma pequena vontade de chorar porque fui invadida por uma mistura de sensações que envolvem, entre outras coisas, amor e medo.

“Posso ver os panos?”, pergunto calculando o risco. “Estão na sacola maior”, você diz enquanto anda para o quarto tirando a roupa pelo corredor, o segundo momento predileto do meu dia. Quero apenas sentar e ficar olhando, mas me parece claro que preciso demonstrar interesse pelos panos, então vou até a sacola e imediatamente me sinto hiperventilando: são dois panos enormes, do tamanho de uma parede. Não consigo entender o que faremos com eles, mas vê-los ao lado de pregos e martelo me deixa a ponto de desmaiar. “Que lindos”, digo tentando me colocar numa zona de segurança. “Não são? Esse mais escuro é o seu presente”, você grita do quarto com a voz doce. “O que você quer fazer com eles?”, consigo perguntar, movida por uma coragem adquirida pela doçura na sua voz. “Como assim?”, e agora sua voz já não carrega mais aquela doçura. “Eu já te falei dez vezes: vamos colocá-los na parede.”

As aulas de ioga me ajudam a permanecer alerta e respirando. Não vejo como você conseguiria fazer isso sozinha, então nessa hora tenho a certeza de que terei que ajudá-la. Você volta do quarto de calcinha e camiseta, e outra vez eu quero apenas sentar e olhar, mas vejo uma fita métrica na sua mão, e embora eu não saiba exatamente o que isso significa sei perfeitamente que adicionar ferramentas ao processo não pode ser boa notícia. “Pega a furadeira para mim”, você diz, momento em que minha tensão atinge o grau máximo. Compramos a furadeira antes de nos mudarmos para este apartamento porque você me explicou que “precisava de uma para montar os móveis que compramos na Ikea”, um processo que demoraria três dias e durante o qual eu levaria muitas broncas “porque, meu Deus, como pode? Você não tem a mínima noção”.

“Precisa ser hoje?”

De fato, nesse território eu entendo apenas as palavras “macho” e “fêmea”, e ainda assim em sentido bíblico e não no sentido de parafusos e brocas. E, toda a vez que escuto você me dizer para pelo menos ir “ler o manual e assim conseguir ajudar você a finalizar essa merda”, tenho vontade de usar a furadeira em mim. Também entendo as palavras “manual” e “ler”, mas não as entendo combinadas. Então nessas ocasiões eu abro o manual e, olhando para aquelas letras minúsculas e para os desenhos enigmáticos, faço uma pequena oração para que você descubra como acabar de montar antes que eu precise entender qualquer coisa nele.

Armada da furadeira, de um lápis, de uma fita métrica, de muitos pregos e de um martelo você sobe numa cadeira e começa a medir e fazer marcações na parede. Saio de fininho na esperança de que você, afinal, não precise de mim, mas não se passam 5 minutos antes de você me chamar. Lá vou eu, sabendo que estou prestes a levar broncas por não conseguir dar a você a ferramenta certa na hora exata. No começo, minha função é apenas a de segurar o pano a uma certa altura para que você possa nivelá-lo, e é incrível perceber que eu não consigo fazer isso direito. “Segura reto, por favor”, você diz sem nenhum vestígio daquela doçura na voz. Meu braço começa a formigar porque o pano é realmente enorme e eu estou em cima da cadeira e na ponta dos pés para que o pano não caia, mas resisto ao formigamento e começo a meditar. Você está quase acabando e deixar o pano cair agora seria a pior coisa que eu poderia fazer nos últimos meses. Você termina, eu dou uma chacoalhada no braço e me mostro pronta para que façamos isso na outra ponta e acabemos logo com o esforço físico fora de hora, e eu, quem sabe, consiga ver Cosmos.

Depois de algum tempo, e de muitos outros formigamentos, parece que chegamos ao fim. O pano está na parede, lindo, imponente, e a sala de fato adquiriu, como você diz, cor e alma. Ganho um beijo e um abraço, o que já justifica qualquer dor ou bronca, e, cantarolando, me dirijo à cozinha para abrir a garrafa de vinho antes de ligar a TV quando escuto as palavras “vamos colocar o outro no quarto, vem”. Tremendo e sem pensar respondo “precisa ser hoje?”, o que joga você num discurso sobre como eu deixo tudo para depois, como não consigo fazer nada na mesma hora, sobre como sobra tudo para você porque eu tenho esse jeito de agir etc. etc. etc., e eu de fato nasci com esse colossal talento para a procrastinação que, de tão enorme, deveria ser motivo de orgulho porque qualquer um que seja “o melhor do mundo” em alguma coisa merece louros, mas no meu caso nada disso acontece e eu largo a garrafa de vinho e me arrasto para o quarto já chacoalhando meus braços porque a experiência adquirida minutos antes agora me invade como conhecimento.

Perto das 10 da noite finalmente acabamos de pregar os panos. Com dores nos braços e exausta, vou então até a cozinha abrir o vinho. Volto para a sala com duas taças, você está sentada no sofá olhando a parede. “Não ficou lindo?”, você pergunta enquanto pega da minha mão a taça que estendo a você. Ficou de fato lindo, e digo exatamente isso, mas a verdade é que tudo o que me importa ter dentro de casa está agora sentado no sofá, de calcinha e camiseta, com uma taça de vinho na mão dizendo que me ama.

*A carioca Milly Lacombe, 46 anos, já exercitou a paixão pelo futebol no SporTV e na Record, como comentarista esportiva. Também já colaborou com diversas revistas e com o portal Terra, mas gosta mesmo é de escrever livros em seu cubículo em Nova York, onde foi passar uma temporada com duas cadelas e uma gata. Seu e-mail: millylacombe@gmail.com
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