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Nádia Lapa

Decidi relatar minhas transas num blog e pensava chegar a cem caras em um ano. Encontrei leitores, detratores e muito machismo
06.09.2012 | Texto: Nádia Lapa | Fotos: Marcos Villas Boas

Marcos Villas Boas

Nádia Lapa

Nádia Lapa, do blog Cem Homens

“Nunca entendi por que algumas pessoas fazem juízo de valor sobre a vida sexual alheia. Eu nem sequer havia beijado na boca, mas me indignava com colegas de colégio que comentavam sobre garotas “saidinhas”. Mal sabia que esse mesmo tipo de julgamento me atingiria quase 20 anos depois. Comecei a escrever o Cem Homens em fevereiro de 2011. Para mim não era nenhuma novidade – sou viciada em blogar há dez anos. Como jornalista, achei melhor escolher um pseudônimo, Letícia Fernández, para separar a blogueira da repórter.

Era muito divertido: eu transava e escrevia – duas das coisas que mais gosto de fazer no mundo. Infelizmente, à medida que o blog ficava mais conhecido, os xingamentos aumentavam. Em 25 de julho de 2011 a coisa explodiu: tuiteiros conhecidos indicaram o link do Cem Homens e, já naquela segunda-feira, li muitos absurdos. Disseram que eu era homem (lógico! Para alguns, mulher não pode gostar de sexo), que espalhava DSTs por aí (como se elas fossem exclusividade de quem tem muitos parceiros)...

Pronto. Meu blog agora era conhecido e minha vida, um inferno. Até na imprensa fui alvo de piada. Um grande portal me chamou de “nova Bruna Surfistinha” e uma emissora de rádio entrevistou uma falsa Letícia. Nos dias em que o blog era notícia, recebia tantos acessos que saía do ar. “Se mata, garota”, “Volta para o Norte, p*** nordestina”, “Lixo humano” são exemplos das mensagens que eu recebia. Milhares delas.

Às vezes, os comentários eram tão cruéis que eu pensava em parar. E, por um tempo, parei mesmo. Só que recebia também e-mails de mulheres que haviam sido julgadas por transarem ou por terem feito sexo oral no primeiro encontro. Com eles, vi que os xingamentos não eram direcionados a mim. É assim que a nossa sociedade trata uma mulher livre. Qualquer uma.

Vi que não era a Nádia ou a Letícia em jogo. Era a Mariana, a Amanda, a Larissa... Éramos todas nós. Sofri muito. Mas hoje, um ano e meio depois do início do blog, não me arrependo. Tanto que continuei escrevendo sobre minhas transas e vou lançar um livro em outubro [pela Editora Matrix]. O Cem Homens abriu minha cabeça e agora enxergo o machismo nu e cru, do jeito que ele é. Algumas leitoras passaram também a ver com mais clareza. E a ser mais felizes, mais donas dos seus corpos, mais Letícia.”

Vai lá: www.cemhomens.com /  www.cemmaisum.com.br

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