Revista TPM

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Amora Mautner

Ela dirige Avenida Brasil, cuida da filha e entra no automático quando precisa
13.07.2012 | Texto: Renato Lemos | Fotos: Christian Gaul / Estilo: Helena Luko

Christian Gaul

Amora Mautner

Amora Mautner

Como Amora Mautner, no alto dos seus 37 anos, chegou ao alto escalão da Globo, dirige Avenida Brasil, novela de maior sucesso do país, passa dez horas no set e ainda cuida da filha, Julia. “Não dá para recuar. Eu não sou covarde na vida”

Onegócio funciona mais ou menos assim: Amora Mautner dá uma rápida olhada no roteiro do dia, entra no estúdio, cumprimenta as pessoas, respira fundo e começa a andar como uma barata tonta pelo lugar onde são gravadas as cenas de Avenida Brasil. É só o começo. Dali em diante, serão dez horas quase ininterruptas de catarse, tempo em que Amora incorpora o que chama de “gira da diretora”. É uma espécie de entidade que toma conta do seu corpo e a joga num transe criativo de energia, paixão, grito, palavrão, choro, tremelique nas pernas, café, talento, colinho, beijo, “uhu”, abraço, êxtase, cafuné, fúria, cansaço, zona, profissionalismo e um amor vibrante que se espalha por todo o set. “O amor é que torna tudo possível”, explica a diretora. Amora – uma frutinha vermelha tão doce quanto ácida – é o feminino de amor.

Há cerca de seis meses Amora Mautner repete essa rotina cinco vezes por semana, nas tais dez horas diárias de transe. Está dando muito certo. Avenida Brasil – a novela escrita por João Emanuel Carneiro que ela dirige em parceria com José Luiz Villamarim, sob a supervisão estreita de Ricardo Waddington – é um sucesso absoluto. Parte do êxito é atribuída a Amora, uma diretora que já demonstrara uma pegada diferente, de cinema, em Cordel encantado, sua novela anterior. Ela é a responsável pelo núcleo suburbano da trama. No comando de diálogos gritados, bagunça e um time de atores experientes em cena, ela se entrega, arrisca e vai fundo nas coisas que quer. Amora Mautner – com seus cabelos descoloridos, suas unhas coloridas, sua erudição cinematográfica, seu estilo abusado e sua coragem latente – é uma sem-vergonha.

Técnica
“Ser sem-vergonha não tem a ver com ser vulgar, mas com ter coragem”, explica a diretora, reinterpretando o significado “Suelen” da expressão. “Todo ator tem que ser sem-vergonha e afetado, no sentido de ser cheio de afeto. Quando vejo um ator técnico demais, que não leva seu coração para o personagem, eu começo a bocejar. Tem um monte de gente assim. Aquilo é uma merda, não serve para mim”, completa. Entre os que servem, ela cita, de primeira, Tony Ramos e Murilo Benício. Depois, abre um sorriso e pronuncia o nome de Cauã Reymond. “Ele não é apenas estudioso, é profundo. E carrega tudo junto com ele quando está em cena. O Cauã é foda.”

 

“Um ator técnico demais, que não leva seu coração para o personagem, não serve para mim”

 

“Sabe o Guardiola, ex-técnico do Barcelona? Pois é, a Amora é como ele. Não basta ter os melhores jogadores, tem que saber tirar o melhor de cada um deles, fazer com que joguem como um time”, devolve Cauã, que já trabalhara com a diretora em Cordel. “A Amora consegue ser mulherzinha, do tipo que se preocupa com as unhas quebradas de uma atriz, e macho alfa ao mesmo tempo. Ela é de vanguarda, vê na frente. Sabe juntar arquitetura, fotografia, moda e tudo o mais nas suas ideias. É uma artista completa.” Essa visão ampla e misturada da arte – uma espécie de estética do caos –, que transpassa o trabalho da diretora, começou a ser forjada em casa.

Amora é filha da historiadora Ruth Mendes com o compositor-filósofo-artista Jorge Mautner. “Com minha mãe peguei o gosto por contar histórias. Ela é capaz de contar a história da China a partir de uma xícara de chá. Já do meu pai, levo a coragem e a identidade de ser quem eu sou, sem disfarces”, diz Amora. Ela gosta de lembrar da imagem do pai escandalizando as amigas patricinhas quando ia buscá-la na escola vestindo apenas sunga. Ou das palavras que ele usou para despertar seu gosto pelos livros. “Meu pai diz que o mundo está dividido entre os idiotas que leem e os idiotas que não leem. Então, é melhor ficar com a primeira turma.”

Graça divina
Para levar a filha para o mundo da leitura, Jorge Mautner estabeleceu prêmios para cada livro lido. Um Machado de Assis, por exemplo, equivalia a um vestido bacana de uma loja em Ipanema. Um Dostoiévski dos pesados, tipo Crime e castigo, era mais caro e saía pelo preço de uma viagem com os amigos a Búzios. “Eu percebi que ele dava mais valor para a poesia. Um e. e. cummings tinha o mesmo valor de um Tolstói. Aí eu caía dentro daqueles livros de poesia bem fininhos, né?”, ri Amora. “Mais que tudo, meu pai me ensinou a ser livre para criar.”

Christian Gaul

 

“O centro nervoso e criativo de minha filha vem de sua capacidade de absorção de várias linguagens, que ela elabora em associações intensas que se multiplicam ao infinito e que ela transforma em arte constante”, diz Mautner, um dos autores de “Maracatu atômico”, ao lado de Nelson Jacobina, que faleceu recentemente. “Amora nunca perde o eixo e sua arte é como vastas florestas cheias de galhos, folhas, flores, pássaros, borboletas, luzes, troncos de árvores fincadas num solo de fertilidade amazônica! Com céu azul, chuvas e relâmpagos! Amora é como a graça divina, que Deus me concebeu.”

A graça divina de Jorge Mautner tem 37 anos, oito tatuagens espalhadas pelo corpo, pernas de modelo de lingerie, um diploma maroto de segundo grau (“Me formei no noturno, tipo pagou, passou, sabe como é?”), 13 luminárias distribuídas pela sala de seu apartamento no Leblon, um casamento desfeito com o ator Marcos Palmeira e uma filha, Júlia, 5 anos, fruto da união. Amora tem também um namorado, o cineasta Guilherme Coelho (do documentário Fala tu), que às vezes dá um trabalho danado. “É com ele que eu vou mais fundo no meu papel de mulherzinha, que é cuidar do homem da gente. E, porra, por que mulher sempre sofre por causa de homem?”, ri.

Sofrimento de verdade ela viveu na sua única experiência diante das câmeras. Amora foi atriz em Vamp, novela de Antônio Calmon, em 1991. Sua personagem, Paula, virou até figurinha de álbum. Diz que foi o pior período de sua vida: “Eu cheguei a escrever pro autor pedindo para sair. Não aguentava. Foi como se tivesse tomado um ácido e entrado numa bad trip que só terminou quando a novela chegou ao fim”.

 

“Sou muito melhor mãe do que diretora. Só não sou perfeita por falta de tempo”

 

A experiência ruim na novela, no entanto, despertou a curiosidade para o que se passava atrás das câmeras. Começou a estudar cinema. Seu método era o de assistir a pelo menos quatro filmes por semana. Foi juntando tudo, mesmo o que não gostava. “[Pier Paolo] Pasolini, por exemplo, é insuportável. Devia ser amigo de muita gente pra ter a fama que tem...” Diz que aprendeu a dar importância até àquilo que não gosta muito. “Não dá para descartar um [Jean-Luc] Godard, mesmo achando seus filmes um saco.”

Mandona
Na hora de listar suas preferências, ela cita os melodramas do David Lean – tipo Lawrence da Arábia e Doutor Jivago – e todos os Billy Wilder. “Mas queria mesmo era filmar com o naturalismo do [John] Cassavetes”, se anima. Com as referências debaixo do braço, foi parar na Conspiração – onde fez assistência de figurino, produção, direção e o escambau – e, de lá, na Globo. Foi subindo um degrau de cada vez. Está chegando no lugar reservado àqueles que mandam. E é consenso na emissora que Amora já anda mandando muito. Bem.

“O trabalho da Amora em Avenida Brasil é consequência de seus outros trabalhos. Ela não está no horário nobre por acaso”, atesta Ricardo Waddington, diretor de núcleo e chefão por trás de tudo que acontece na novela.
“Nós temos uma afinidade muito grande, mas ela sabe como fazer as coisas no estilo dela. É uma líder. E uma mulher. Acho importante ter mulheres nesses postos. A TV é feminina”, finaliza Waddington. Se a TV é feminina, Amora se sente muito mais mulher quando entra em casa.

“Sou muito melhor mãe do que diretora”, afirma. “Só não sou perfeita por falta de tempo. Às vezes vou no automático. Cuidar da Júlia, ir para o Projac lá no cafundó do judas, comprar remédio pro namorado doente, pagar minhas contas. Correr sempre. Mas não dá pra recuar e nem pra ser covarde. Eu não sou covarde na vida. Tento passar isso pra minha filha.” Antes de partir para o Projac – e se meter no furacão diário de trabalho –, Amora desliga o celular e reserva quatro horas diárias para a pequena. Às vezes vão dar um mergulho na praia. Outras vezes se espicham nos tapetes da sala para ler. “Meu pai está ensinando ela a ler e a escrever.” Normalmente, Amora volta para casa às nove da noite, bem na hora da novela. Mas quase nunca a vê. Júlia – uma menininha esperta de olhos muito brilhantes – prefere mil vezes o Castelo Rá-tim-bum.