Revista TPM

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Miá Mello

A humorista chega como aposta da Globo e já ganhou elogio de Jô Soares
29.03.2012 | Texto: Bruna Bopp | Fotos: Felipe Morozini

Talvez você nem reconheça a moça ao lado quando a vir na rua. Pode ficar pensando se foi uma amiga de escola ou alguma vizinha do bairro da infância – ela não usava óculos? Se depender das previsões dos novos colegas de Miá Mello, logo, logo ninguém mais vai ter dúvida.

“Está preparada para o Brasil te conhecer?”, foi o que ouviu dos integrantes do Casseta & planeta assim que aceitou o convite para fazer parte do humorístico – de volta em abril na Globo depois de dois anos fora do ar. Miá conta que, enquanto recebia a proposta, não arriscava um sorriso. “Só respondia: ‘Tá. Aham, legal’. Estava sendo até meio blasée. Mas, depois, corri para o banheiro e comecei a pular”, lembra, rindo. “Admiro muito os caras, não tinha nem como me expressar”, conta.

Está aí tarefa difícil: imaginá-la sem conseguir se expressar. Ela não foge a pergunta alguma – quase não é preciso fazê-las, pois sai falando –, conta histórias encenando detalhes e, caso lhe faltem palavras, os olhos vivos dão o recado. Miá é o tipo de mulher que deixa você à vontade em minutos. Conta sobre os últimos acontecimentos sem deslumbre e carrega na entonação das palavras de um jeito – um sotaque paulistano caricato – que faz rir, mesmo quando não se esforça para isso.

“A Miá é multifacetada. Ela pegou muito rápido o que queríamos, é impressionante”, elogia Beto Silva, um dos cassetas, que foi quem sugeriu o nome dela para o elenco – que agora conta também com a participação da ex-BBB Maria Melilo. Enquanto Miá encarna personagens e vai para a rua, Maria faz o papel da “gostosona”. Hélio de La Peña reforça o coro: “Ela tem presença de espírito nas entrevistas, humor e beleza, além de interagir bem tanto com famosos quanto com populares”.

São características como essas que fizeram Miá entrar na mira de outro canal, o Multishow. “Me ligaram pedindo o projeto de um programa. Foi assim que criei o Viajandona”, conta. A atração vai rodar a América Latina e, a cada episódio, acompanhar uma pessoa diferente. “Vamos conhecer a cidade pelos olhos do entrevistado, mas sempre de um jeito engraçado”, explica ela, que já percorreu lugares como Buenos Aires, La Paz e Lima. Foi na Argentina que, durante uma gravação, se confundiu com o roteiro e ficou mais de 20 minutos achando que o personagem era um ator pornô. Até que ele a interrompeu e esclareceu o engano. “Ele tinha dirigido um filme e só. Morri de vergonha, pedi para cortar. Mas o diretor achou muito bom”, conta.

Beijo do gordo

Os convites da Globo e do Multishow chegaram até Miá quando ela estava no ar com a personagem Teena no Legendários, humorístico da Record, comandado por Marcos Mion desde 2009. Foi depois da Copa do Mundo na África do Sul, dois anos atrás – ela passou 38 dias viajando sem roteiro e produzindo matérias que renderam elogios da produção –, que começou a questionar a permanência no programa. “Queria ter espaço para criar outras coisas e ali não era o lugar para isso”, lembra ela, que ficou até o fim do ano passado. “Miá tem alma de artista. Não é bicho de TV, é cria de palco. Precisa de trabalhos verticais, de entrega. Vi o dilema que passou no programa”, atesta Mion.

Mal chegou ao Multishow e Miá já está com um segundo programa engatilhado: “Serei uma das juradas de novos talentos do humor”, revela, ainda sem detalhes. Um de seus maiores incentivadores – e grande amigo –, o ator do Comédia MTV Paulinho Serra, analisa o momento de Miá. “Ela sabia muito bem o que queria antes de todo mundo. É como se tivesse um mapa exato da forma como as coisas foram acontecendo. Eu achava que o Legendários não tinha a ver com ela, mas foi importante para seu amadurecimento”, comenta.

 

“Miá é fantástica. Além do talento natural para a comédia, tem uma espontaneidade muito grande. Ela vai se dar bem em qualquer coisa que faça” Jô Soares



Os dois se aproximaram quando Miá foi assisti-lo na peça Aluga-se um namorado. Pouco depois, em 2007, Paulinho a convidou para entrar no Deznecessários, grupo de humor que ele comanda. “Foi uma experiência incrível, mas o começo foi superdifícil. Fiquei um ano me achando um fiasco porque não conseguia escrever nenhum esquete, enquanto todos os outros eram talentosos”, recorda Miá.

Até que recebeu um aval inesperado, porém definitivo. Jô Soares assistiu a uma apresentação do grupo e foi ao encontro dela assim que a peça terminou. “Miá é fantástica. Além do talento natural para a comédia, tem uma espontaneidade muito grande. Ela vai se dar bem em qualquer coisa que faça”, prevê o apresentador. “Aquele dia foi um divisor de águas na minha carreira. Comecei a acreditar mais em mim”, afirma ela.

On the road

Felipe Morozini

 

Em meio à turnê nacional do Deznecessários, em 2008, Miá, recém-casada, engravidou. Trabalhou até os oito meses de gestação. Com shows em cartaz no Rio de Janeiro, iam de carro para lá toda semana. “Um dia estava tão enjoada, barriguda, que fui deitada no porta-malas com os meninos me abanando”, conta. Voltou para o grupo dois meses depois de dar à luz, levando Nina – hoje com 3 anos – a tiracolo. “Isso foi importante para que ela se acostumasse com uma mãe sem rotina. Hoje, com tantas viagens [Miá mora em São Paulo e grava o Casseta & planeta no Rio], passo com a mala e ela entende”, explica. E não entra em crise com a equação maternidade versus trabalho. “Posso viajar por quatro dias, mas na volta fico três inteiros com ela. Assim consigo equilibrar”, acredita. “E não tem essa de trazer presente na volta. Ela entende que é meu trabalho.”

Aos 30, Miá acaba de terminar o casamento de cinco anos com o jornalista Arthur Guimarães. “O amor é muito hipócrita. Você sente essa obrigação de ter que ser feliz pra sempre, nunca se separar... Se fosse uma coisa mais light, não seria tão difícil a transição. Porque é. É triste, você sofre. Agora preciso ficar sozinha”, solta. Uma das coisas que têm ajudado no processo é não ter tempo para pensar no assunto. Miá passou os últimos dezembro e janeiro rodando a América Latina com o Viajandona. “Eu busco o caos. Se eu ficar tranquila, sem movimento, não funciono”, diz. “Ela não aguentou nem nove meses na barriga de tão agitada. Nasceu de sete meses e teve que ser batizada às pressas”, justifica a mãe, a socióloga Marileni Melo.

Como chegou de surpresa, ainda não tinha ganhado um nome. A mãe queria Maíra, o pai, Marília – e assim a registrou. Mas, após um mês e meio no hospital sob observação, nem bem chegou em casa e a irmã mais velha a apelidou de Miá. “Eu era um bebê muito feio. Minha nota de nascimento foi 3. Era a prova do que viria depois. Minhas irmãs sempre tirando 10 e eu dando trabalho na escola”, brinca.

Tic-tac, tic-tac

Caçula de três irmãs – a mais velha, Carol, é engenheira química e Alessandra, administradora –, ser atriz não era um plano. Aos 20 e poucos anos se formou em publicidade na Fiam, em São Paulo, e por curiosidade foi fazer um curso na Escola de Atores Wolf Maya. Ali passou a considerar a profissão uma possibilidade. Nessa época, Miá era relações-públicas da rede de academias Play Tennis. “Eu era boa no que fazia. Mas, se perguntassem onde me destacava, iam dizer que era na festa de fim de ano, quando fazia imitações”, lembra, rindo.

 

Foi então que contou aos pais a decisão de largar o emprego. Ganhou apoio irrestrito. Uma semana depois, a empresa de logística da família faliu. “Talvez o certo fosse ter sido racional e dito que não era uma boa hora. Mas, por mais que pareça utopia, uma filha tem que ter a chance de ir à luta para tentar ser feliz”, pondera a mãe. Para conter os gastos, se mudaram para um apartamento menor nos Jardins e Miá vendeu sua Parati para bancar o curso no Célia Helena (escola de teatro em São Paulo).

Dividida entre o teatro, os testes para atriz e o emprego que conseguiu como produtora em uma agência de publicidade, Miá, aos 25 anos, topava tudo. “Uma vez fiz um frila na própria agência. Era uma convenção, cada menina representava um país, e eu entrei vestida de Equador”, gargalha. Em outro evento, Miá improvisou um rap no meio do estande em homenagem ao Dia das Mães e, depois disso, os amigos não paravam de pedir para ela cantar. A brincadeira ficou “séria” e ela virou vocalista de uma banda de hip hop, a Squat. Mas, coincidindo com o sucesso dos Deznecessários e, posteriormente, com a gravidez, o grupo parou por ali.

Nessa época, enquanto as amigas já economizavam para dar entrada em um apartamento – ela não ganhava “nem R$ 200” com o teatro –, Miá criou um hábito. “Faço uma projeção e paro para analisar se minha vida está um milímetro melhor do que há seis meses. Se estiver, continuo o que estou fazendo sem reclamar”, conta.

E agora, com a aposta da Globo e do Multishow, está mais segura? “Me questiono sempre. O tempo todo. Tem dias que me acho genial, em outros fico pensando se sou boa mesmo. O dia em que parar de me questionar é porque morri”, conclui, no fim da entrevista. Um dia antes, prestes a desligar o telefone depois de combinado o encontro, Miá pergunta: “Mas como vamos saber quem é quem? Vamos marcar uma cor de roupa?”, sugere. “Eu sei quem é você, Miá.” “Ah, tá. Ainda acho estranho as pessoas me reconhecerem”, confessa. Ela tem pouco tempo para se acostumar.

PRODUÇÃO DE MODA FERNANDA MARANHO E SATOMI MAEDA MAQUIAGEM ALE TOLEDO (BEKA) ASSISTENTES DE FOTO ANDERSON RODRIGUEZ, BRUNO FREIRE E STEPHANIE FERNANDES PRODUÇÃO ANA LUIZA TOSCANO FOTO JÔ ARQUIVO PESSOAL CASSETA & PLANETA TV GLOBO/JOÃO MIGUEL

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