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Viviane Mosé

Filósofa pop fala sobre as mulheres: "Conquistaram muito poder e ficaram arrogantes"
19.04.2012 | Texto: Nina Lemos | Fotos: Felipe Gaspar

Felipe Gaspar

 


Viviane Mosé é a filósofa e psicanalista mais pop do Rio de Janeiro. Disputada entre os atores, seu negócio é traduzir filosofia para as massas e refletir sobre o comportamento feminino. Sobre as mulheres, declara: “Elas são as grandes tiranas de hoje. Conquistaram muito poder e ficaram arrogantes”

A porta do consultório da filósofa e psicanalista Viviane Mosé se abre. De lá, sai a atriz Letícia Sabatella. É nessa sala, com vista para a baía de Guanabara, que a escritora, poeta e atriz recebe a reportagem da Tpm. A cliente famosa, os móveis despojados. Isso já diz muito sobre essa morena de 48 anos que não tem cara de intelectual (sim, estamos falando do estereótipo). E, não, ela não tem problemas éticos em revelar o nome de seus alunos famosos (como Drica Moraes e Camila Morgado) e é especialista em quebrar os tais estereótipos. Uma vez quebrados, não tem mais jeito.

Hoje ela é a filósofa preferida dos atores cariocas que fazem fila para frequentar seus cursos, que falam, por exemplo, sobre o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. É também uma das mais requisitadas pelas corporações, onde discursa sobre a busca pela felicidade, sobre a vida, a morte... Enfim, filosofia. Sabe o aclamado filósofo suíço Alain de Botton? Ela é uma espécie de versão feminina dele (e não nega a comparação). Os dois mostram que filosofia pode ser pop. Segundo ela, porque a filosofia nunca foi tão importante: “Está todo mundo perdido”.

Filósofa do samba
A biografia de Viviane impressiona. Entre seus “mestres” estão pessoas tão díspares como o psicanalista Chaim Katz e o sambista Martinho da Vila. Cada um ao seu modo, eles adotaram essa moça que chegou ao Rio há duas décadas, para fazer doutorado em filosofia e fugir do assédio. Explica-se: Viviane era uma espécie de celebridade em Vitória. “Saí de casa aos 18 anos, virei formadora de opinião aos 20! Tinha consultório cheio, participava de saraus, era atriz. Mas não aguentava mais ser badalada”, conta.

 

Reprodução

Em um dos saraus do CEP 20.000, no Rio de Janeiro, em 2000

Em um dos saraus do CEP 20.000, no Rio de Janeiro, em 2000

O anonimato durou pouco no Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo em que estudava, escrevia poesia e logo encontrou sua turma no CEP 20.000, evento criado pelo poeta Chacal e que acontece até hoje. Participar dele significa subir em um palco e recitar poemas. “Comecei a fazer muito sucesso. Imagina eu dando autógrafo no Posto 9!”, diverte-se ela, intitulada “musa” por um jornal carioca. Como se vê, a trajetória de Viviane não é nada careta. Ela viveu solteira e feliz até os 38 anos, quando casou com o diretor de audiovisual Daniel Duarte. Era dele a direção do quadro “Ser ou não ser”, que ela apresentava no Fantástico, e hoje são sócios na Usina Pensamento, empresa que abriu para dar conta de seus compromissos. “Ele é meu braço direito. Ser casada e trabalhar junto é um desafio. Mas tem dado certo.” Antes do casamento, Viviane era figura fácil nas rodas descoladas. Frequentava os “baixos” da cidade, o Posto 9 e ensaios de escola de samba.

 

Hoje, a rotina dessa mulher que foi mãe aos 40 anos é bem diferente. “Meus amigos reclamam que não me veem mais. A gente acaba se fechando na nossa família.” Isso porque Viviane adora a vida de casada, mas não a mitifica. “Um dos maiores desafios é encontrar espaço para a sua própria solidão.” E acha, inclusive, que é esse um dos males do mundo moderno. “As pessoas não conseguem ficar sozinhas.”

E vai além, quando critica o modus operandi das mulheres. “São as grandes tiranas de hoje. Elas conquistaram muito poder e usam isso de maneira tirana. Resultado: são arrogantes, acham que estão sozinhas porque são poderosas demais.” E os homens? “Eles estão solitários nas mãos dessas tiranas”, completa, deixando a repórter querendo uma consulta-conversa com a filósofa, que desde menina foi incentivada a estudar. E a viver a vida, claro. Senão, para que serviria a filosofia?

Tpm. Quando você começou a se interessar por filosofia?
Viviane. Vim de uma família simples, em que o maior valor era estudar. Meu pai era dentista prático, tipo um protético, e a minha mãe era do interior de Minas. Ele queria fazer faculdade de qualquer jeito, mas não tinha nem o primeiro grau. Foi se formar adulto, com supletivo, conseguiu completar até o segundo grau em dois anos. Ele era muito inteligente. Não conseguiu entrar na faculdade, mas virou professor de cursinho. Então, sempre tive esse exemplo. Eu acordava de madrugada, meu pai estava estudando e minha mãe, fazendo café para mantê-lo acordado. No almoço, que era hora sagrada, discutíamos história. E a família é grande, tenho três irmãos de sangue e dois adotivos. Passei no vestibular de psicologia em primeiro lugar, com 16 anos. Saí no jornal, foi uma festa. A primeira aula que tive foi de filosofia e me apaixonei. Para você ter uma ideia, eu era, aos 20 anos, uma intelectual na faculdade [risos].

Então você era uma nerd? Não! Eu era muito ativa. Sempre fui líder, ia para a frente e brigava. Fui a primeira presidente do centro acadêmico [da Universidade Federal do Espírito Santo]. E, enquanto fazia faculdade e atuava politicamente, também escrevia poemas. Escrevo poemas desde criança. Desde antes de saber escrever, escrevia na cabeça. Aos 10 anos, escrevia cartas de amor para os amigos. Já fiz muito discurso de casamento [risos].

Por que as pessoas estão tão interessadas em filosofia hoje? Vivemos uma mudança radical na estrutura psíquica do ser humano e na estrutura social. Antes o poder era piramidal. Era o rei, o professor. Hoje a senhora que grava um vídeo no celular ou a Luiza que está na Canadá ganham poder. E ainda temos uma mudança econômica gravíssima no mundo. O protagonismo do Brasil mudou. Aí a filosofia entra, na hora em que a sociedade não sabe mais de nada! Quando as pessoas não sabem mais onde elas estão. O mundo está querendo filosofia. Pensar só nasce da sua ignorância. Quando a humanidade achava que sabia, por exemplo, que ela queria vender, construir shopping, estava tudo certo. A grande mudança veio no 11 de Setembro. Se os Estados Unidos não estão seguros, quem está? E onde vamos parar? O que estou fazendo da minha vida? Que controle tenho sobre ela? Quem somos e para onde vamos? Filosofia pura! Trabalho com grandes empresas e todos querem saber quais são seus valores, e não só em dinheiro.

 

[No Fantástico] a gente desconstruía um tema. Por exemplo, felicidade. Ser feliz é atingir um padrão que te importa? Não gosto muito de falar em felicidade. Prefiro falar em alegria”

 

Você teve um quadro no Fantástico, o “Ser ou não ser”, e fala sobre filosofia na rádio CBN. Você é uma filósofa pop, como o suíço Alain de Botton? Sim, faço a filosofia chegar a todos. Lógico que sei do meu valor, mas, como disse, o mundo está querendo filosofia. Aprendi muito dando aula numa faculdade em São Gonçalo [região metropolitana do Rio]. Eram pessoas simples, que nunca tinham estudado filosofia. Me encantei por elas. Eram padeiros, eletricistas. E aprendi em cinco anos dando aula no subúrbio a não abrir mão da qualidade do ensino, mas falar fácil.

Como foi a experiência de falar sobre filosofia em um programa popular? No Fantástico o desafio foi imenso. E tivemos uma audiência excepcional, mais do que a Globo poderia pensar. As pessoas me paravam na rua e falavam: “Olha, você mudou a minha vida”. Em aeroportos, por exemplo, era raro quando um estudante vinha falar comigo. Geralmente era a moça que passava a bagagem.

O que estavam buscando? Como a vida pode mudar por meio da filosofia? A gente desconstruía um tema, mostrava que uma coisa que você pensava não era bem assim. Por exemplo, a felicidade. Falávamos: “Bem, felicidade não é bem assim, isso não existe, é um conceito burguês”. Mostrávamos a diferença entre ser alegre e ser feliz. Ser feliz é atingir um padrão que te importa? Será que isso vai te deixar feliz mesmo? Não gosto muito de falar em felicidade. Acho que é um conceito falho. Prefiro falar em alegria.

E o assédio que veio com o Fantástico incomodou você? Eu já estava acostumada com o assédio. Em 1992, mudei de Vitória para o Rio de Janeiro para fazer mestrado e para respirar uma cidade grande. Fiquei conhecida em Vitória muito cedo, saí de casa aos 18 anos, virei formadora de opinião aos 20! Eu não aguentava mais ser badalada. Vim para o Rio para ser anônima. Você não imagina o número de matérias que tem sobre mim em Vitória. Eu tinha vida ativa na universidade, nos saraus. Vivi lá o que tinha para viver. E já me sustentava com o consultório em Vitória, continuei indo toda semana para atender. Só fechei meu consultório depois de sete anos no Rio de Janeiro.

E você foi para o Rio e logo virou uma figura descolada. Foi rápido. Em um ano, eu dava autógrafo na praia por causa do CEP 20.000 [sarau de poesia no Espaço Sérgio Porto, criado pelo poeta Chacal nos anos 90, que existe até hoje e revelou nomes como o músico Pedro Luiz e o artista plástico Cabelo]! Vê se pode uma coisa dessas! Não acho que é só porque escrevia bem, não. Era mais experiente, já tinha feito teatro. E, até por ser mais velha que a garotada que estava lá, quando subia causava comoção. Eu era meio coroa aos 28 anos lá. Então, virei musa. Pagava cerveja para os amigos no bar.

Como chegou até esse grupo? Os artistas me receberam muito bem. O Chacal eu conheci em Vitória, num evento de poesia, ficamos amigos, tivemos um pequeno caso amoroso. Antes de vir para cá, o procurei. Ele falou: “Vai”. Cheguei e de cara fiz o maior sucesso. Fiquei chocada.

Você é conhecida como a professora e a psicanalista dos artistas. Como aconteceu isso? Nesse mesmo Espaço Sérgio Porto fui fazer uma oficina de teatro com o Gerald Thomas. Aí os atores falaram: “Que legal, vamos fazer uma aula”. Conheci o [ator e diretor de teatro] Kike Diaz e pedi para ele me dirigir em um espetáculo meu. E disse: “Não tenho dinheiro, mas posso dar um curso para a sua companhia”. Ele topou, e muita gente legal fazia parte, como a Drica Moraes. Aí, pronto, comecei a ser chamada de “professora dos atores”. Com isso, claro, mais atores vieram. E perdi o controle, no bom sentido.

Como assim? Um dia, a [jornalista carioca] Bety Orsini, do caderno Ela [do O Globo], me entrevistou e acabou dando a capa do caderno com o título: “Musa Mosé”. Mas o mais incrível foi que ela publicou dois poemas meus na capa. E quem leu e adorou? Roberto Irineu Marinho [presidente executivo da Rede Globo]. Parece brincadeira, né? Um dia me liga a secretária dele, que queria fazer uma festa para mim na casa dele! Convidou diretores da Globo e dei uma palestra. Foi excelente. Um ano depois já estava no Fantástico fazendo o quadro “Ser ou não ser”.

 

“A mulher não está querendo tudo apenas para se desenvolver, curtir. Ela quer poder tudo. Mas acho que faz isso por necessidade de controle. Eu achava que podia tudo”

 

O mundo acadêmico e o da psicanálise são cheios de dogmas. Você enfrenta preconceito por ser bonita, famosa e diferente da imagem da intelectual estereotipada? Eu não só era do CEP 20.000 como também sambava na Vila Isabel. Desfilei sete anos pela escola. Perdi vários pacientes por causa disso, eles me viam sambando, no palco do CEP, e me achavam louca. Mas foi pior ainda no mundo acadêmico. Não me levavam a sério. Diziam: “Como pode aquela cabeluda ser estudiosa?”. Ainda existe muito preconceito. Fiz uma prova em uma universidade federal para substituir um professor. Fui indicada por várias pessoas e achava que ia passar. Quando cheguei para fazer a inscrição, estava de vestido comprido e bota. Nada sensual. Normal. Quando fui entrevistada, os professores da banca riam. Eu disse: “Nossa, vocês estão animados, né?”. Depois fui dar a aula, que era a prova, para eles. Senti que ficavam me olhando com uma cara estranha. Um dia encontrei um deles, o mais jovem, no cinema, e ele me disse: “Você tinha sido reprovada já na entrevista, porque eles disseram que não era possível uma boa professora de filosofia ser bonita e sensual como você”. Olha que absurdo. Foi difícil, sim. Quebrei muita pedra.

A sua relação com os artistas também deve ter causado preconceito. Quem melhor a acolheu? O [professor de filosofia] Roberto Machado e o [psicanalista] Chaim Katz. Eles são meus dois mentores. Sempre acreditaram em mim e nunca tiveram preconceito. Mas isso é exceção. Quem mais me recebeu? Os atores!

Apesar de nós, mulheres, termos conquistado tanta coisa, li em um texto seu que você acha que estamos perdidas e arrogantes. Como assim? A mulher não está querendo tudo apenas para se desenvolver, curtir. Ela quer poder tudo. Acho que ainda tem um ranço da falta de poder do século passado. Então, a mulher quer ser a melhor mãe, a mais gostosa, a melhor profissional. Se isso fosse feito como meta de desenvolvimento, tudo bem. Mas acho que as mulheres fazem isso por necessidade de controle. E falo isso porque vi isso em mim. Eu era essa mulher que achava que podia tudo. Não assumia a minha fragilidade. Se hoje consigo manter um casamento de dez anos, é porque dependo do meu marido, apesar de não depender financeiramente dele, entendeu? Dependo que ele esteja em casa, que ele me ame, que me apoie. Assim como dependo da minha mãe, dos meus amigos, do meu pai. O que me salvou foi descobrir o seguinte: posso ir aonde eu quiser, mas tenho a minha fragilidade. Tive que me afastar de amigas para viver bem no meu casamento. Se uma amiga via um conflito entre mim e o meu marido já falava: “Mas você não precisa disso! Esse cara, quem ele pensa que é?” [risos]. Como se eu tivesse uma grandeza em que a pessoa ficasse aos meus pés. Tem muito ranço também desse papo de “tenho que ser livre”, “porque faço o que eu quero”. Quem faz o que quer não se casa. E ninguém casa para ser feliz. Você casa para fazer parceria, para ter companhia. Para isso, vai ter que abrir mão do seu desejo, ser paciente. Se quer ser feliz, mais fácil ir para Londres, dar para quem você quiser. O casamento é uma doação. E as mulheres estão muito arrogantes.

 

Arquivo Pessoal

Os amigos Mart’nália e Martinho da Vila, durante almoço “de família”

Os amigos Mart’nália e Martinho da Vila, durante almoço “de família”

Como assim? Elas ficam isoladas em um trono. Como disse, eu fui assim. Vivi em um pedestal por 35 anos. Eu era esse estereótipo de mulher que ganhava bem, malhava, corria. Mas chegou uma hora em que percebi que estava triste, sozinha. Não no sentido da solidão, no sentido do abandono. Nenhum homem me queria. Claro, que homem quer uma deusa? Um homem quer uma pessoa humana. Eu tive que deixar de ser deusa comigo mesma, sabe? Somos tiranas. Porque, se acho que sou o máximo, começo a selecionar demais: “Ah, ele não é tão inteligente quanto eu”, “ah, ele ouve música muito alto”. E, quando você acha alguém que te ama, que te quer, é essa pessoa que tem que te servir. As mulheres precisam sair do pedestal. Em geral, ou somos dominadas ou dominamos. Mas podemos tentar a guarda compartilhada. Não tem guarda compartilhada de criança [risos]? Então pode ser assim, agora você manda, depois eu mando.

 

E hoje somos cobradas de sermos felizes o tempo todo, né? A alegria é a hora de relaxar, de transar, de se divertir. Na hora de alçar novos voos, crescer, é hora de ralar, quando você está com problema, com uns vazios. Se você só tem alegria, você não tem necessidade de crescer, de investir no crescimento. O grande sofrimento é que faz o homem empreender grandes jornadas na sua vida. Você vai tentar mudar se está tudo bem? Não. Não vai. Mas o que fazemos hoje? Vamos direto para a medicação psiquiátrica.

E nós, mulheres, somos as campeãs no uso de antidepressivos e ansiolíticos. As mulheres são muito fortes. Elas têm que dosar a sua força. Somos muito excessivas. Na sociedade toda, ninguém suporta sofrer. E a medicação psiquiátrica evoluiu muito. Se você tem um remédio que dá alegria e bem-estar, como vai lutar para não ficar dependente dessa medicação? E hoje ainda dão Ritalina para as crianças. Aquele “menino maluquinho” não existe mais. Resumindo: medicamos nossas crianças, nossos adultos e aí não temos liderança, que são pessoas que fazem coisas diferentes, ousadas.

Você casou aos 38 anos. Era feliz sozinha? Como foi se adaptar a essa mudança de solteira independente a pessoa que tem uma família? Sou casada há dez anos, trabalho com meu marido, amo meu marido, meu filho e a minha família. Agora, o que mais sinto falta é da solidão. O Daniel [Duarte, diretor de audiovisual] sabe da minha necessidade. Ele mesmo fala: “Vai lá para o mosteiro budista que você gosta”. A solidão é a base da dignidade. E, sim, fico bem sozinha e solteira. Aos 19 anos, morei com um namorado. Depois, fiquei até os 38 anos sozinha e feliz, muito feliz. Para mim, a dificuldade foi me livrar da solidão, porque gosto dela.

Você pode explicar melhor essa importância da solidão? O que ouvimos é que a solidão é um mal do século. Você acha que a solidão faz bem para as pessoas? O nosso tempo convive demais! Para que a gente convive tanto? Vamos nos isolar mais! Temos que aprender a conviver com a gente mesma. Por que tem que ser aceito por todo mundo? Por que precisa ser famoso? Quem fica sozinho? Na internet talvez você fique. Por mais que esteja trocando conteúdo, está elaborando a sua solidão no seu blog. Temos que redescobrir a solidão, ter espaço para conviver até com a sua melancolia. Isso é bom. Viajo muito dando palestra. E adoro estar sozinha, em um carro, vendo a paisagem, e chorar. Não é um choro de desespero. É um momento de contato comigo e com o mundo. Acho que todo mundo sente falta desses momentos, de contemplar, sentir. E sabe o que acho horrível? A pessoa que não consegue dar conta da sua própria vida e a “terceiriza”. Coloca o outro para cuidar. Isso é uma violência contra o outro. Uma violência grave.

Para você, que preza tanto a solidão, deve ter sido difícil se adaptar ao fato de ser mãe aos 40 anos. Os três primeiros anos do Davi foram o céu. Mas foi uma mudança de vida radical, uma adaptação dificílima. Vivia sozinha e tudo mudou. Passei a viver uma solidão a três, com a minha família. Mas compensou porque adoro ser mãe. Meu filho fez 8 anos agora, é a coisa mais fofa. É um grande leitor, todo intelectualzinho, fofo. Mas como não seria, né? Ele gosta de ir ao museu, e também adora jogar futebol. Nós três jogamos futebol e vamos a todas as exposições do CCBB.

Outra coisa que se discute hoje é o fato de estarmos viciados em internet. E, por isso, mais sozinhos. Você concorda? Nenhum problema é da internet. A internet traz uma grande mudança nos relacionamentos, mas não acho que é para pior. A gente não sofre por causa das redes, mas pela falta de valores, que é diminuir a exclusão social, a convivência com os outros. A internet nos permite a troca de informação e nos disponibiliza tudo. Nós é que precisamos aprender a filtrar. O problema vem da educação. E esse é um problema mundial, não brasileiro. Como uma criança de 10 anos tira sua vida dentro da escola? O problema não é o seu filho ser assassinado por causa de um tênis. As pessoas se matam por vazio, por tristeza. Isso é muito assustador.

 

“Quem faz o que quer não casa. Ninguém casa para ser feliz, mas para fazer parceria. Se quer ser feliz, mais fácil ir para Londres, dar para quem você quiser. O casamento é doação”

 

Mesmo detectando tantos problemas, você é otimista, acha que caminhamos para boas mudanças? Sim. Daqui a um tempo, não vai interessar o quanto você tem, qual é o seu sapato. Esses resquícios do capitalismo estão acabando. Vai interessar o quanto você elabora, o quanto você tem de conteúdo. Você vai conseguir emprego não porque estudou na Europa, mas porque sabe pensar. Hoje o que importa é que você tenha dois carros, que você saia no jornal. Isso vai mudar. Tenho certeza de que as próximas gerações não vão querer ficar ricas e começar a tomar fluoxetina porque estão infelizes. Eu tinha um grupo de meninos de 20 e poucos anos muito bem-sucedidos. Um cara com muito dinheiro me convidou para dar aula para ele e amigos seus. Eram pessoas que estavam ganhando dinheiro no mercado financeiro. Mas no que eles pensavam? No mundo, no outro. Gastavam todas as segundas-feiras para pensar no mundo. O grupo era maravilhoso. Já dei aula para herdeiros muito ricos, mas que têm projetos educacionais incríveis, que pensam na sociedade. Eu vejo o seguinte: a sociedade de hoje é medicada, perdida. Mas vejo uma nova geração incrível. Acredito que a gente vai conseguir um caminho melhor na sociedade. Vamos viver melhor.

Você dá cursos para professores, empresas, grupos. Ainda clinica como uma psicanalista tradicional? Clinico muito pouco, em casos especiais. Minha clínica funciona de um jeito diferente. Hoje atendo mais como um processo de apoio. Converso com a pessoa sobre a vida dela. Se ela tem uma necessidade maior, encaminho para um psicanalista que faça um tratamento. A Letícia [Sabatella, atriz], por exemplo, é minha aluna e tinha uma questão que não dava para discutir na aula. Faço uma espécie de aula-atendimento. É mais intelectual e afetivo. Não os considero pacientes. São alunos, amigos.

Você é tão próxima dos artistas que é parceira da Mart’nália em músicas. Como aconteceu isso? Eu e Mart’nália fizemos essas músicas em 1989 e 90. Eu adoro samba! Tudo isso começou em Vitória. Eu estudava políticas públicas na universidade e sempre gostei das manifestações folclóricas. Meu pai me levava para assistir a tudo, desde criança. Quando cresci, um namorado e a [cantora, atriz e poeta] Elisa Lucinda, que conheço desde adolescente, fizeram um encontro de bandas folclóricas de congo. Eu fui participar. Martinho da Vila estava gravando um disco sobre isso. E fui convidá-lo para fazer parte do evento, e ele topou sem cobrar cachê! Ficamos amigos. Conheci a família dele toda, eles me adotaram. Passava fins de semana inteiros na casa deles e passei a ter um vínculo enorme. E preciso falar isso. Um dos meus mentores no Rio é o Martinho da Vila. Ele e o Chaim Katz são os meus ídolos que sempre acreditaram em mim. Coloca isso, vai. Ele vai ficar feliz. Ele sempre me apoiou no lançamento de todos os meus livros. É uma pessoa muito importante na minha vida.

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