Revista TPM

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Fabio Assunção

“Ganhei liberdade e me desprendi da aprovação do outro”
09.03.2012 | Texto: Ariane Abdallah e Maria Ribeiro | Fotos: Felipe Hellmeister

Há mais de 20 anos na Globo como galã do horário nobre, Fabio Assunção ficou marcado nos últimos quatro por abandonar duas novelas para tratar sua dependência química – e ser tachado de vilão por moralistas sempre a postos. passado o furacão, demonstra estar atento para não se perder pelo caminho e afirma: “Ganhei liberdade e me desprendi da aprovação do outro”

As expressões fortes, os gestos inquietos e o corpo mais largo do que o público costumava ver derrubam a imagem de mocinho que marcou a carreira de Fabio Assunção por quase duas décadas. Mas o ator que saiu da classe média paulistana e virou um dos maiores galãs do Brasil também não tem jeito de vilão – como muita gente pode ter interpretado quando ele deixou a novela Negócio da China, em 2008, para tratar sua dependência química nos Estados Unidos. Mais tarde, em 2010, saiu do elenco de Insensato coração para novas internações. Dessa vez, em clínicas brasileiras.

Agora, aos 40 anos de idade e passado o furacão, Fabio Assunção parece mais firme em suas ideias. “Hoje sou 100% livre. Me desprendi da aprovação do outro. O que sinto é autêntico. Não preciso que ninguém me diga em que acredita para que eu possa acreditar”, diz.

Enquanto fala isso, ao fundo estão fotos do filho, João, 9 anos (do casamento com a empresária Priscila Borgonovi), da atual mulher, a fotógrafa Karina Tavares, com quem está há sete anos, e da filha, Ella Felipa, 10 meses. As imagens decoram o camarim do teatro Tuca, em São Paulo, onde está em cartaz com a peça de que também assina a produção, Adultérios – texto de Woody Allen e direção de Alexandre Reinecke. Fabio não sorri à toa. Mas, quando ri, gargalha. Fala o tempo todo da família e, vira e mexe, chega aos lugares acompanhado do filho, como no dia em que fotografou para a Tpm.

De alguns anos pra cá, o ator voltou a mergulhar no trabalho. Além do espetáculo, em 2010 Fábio viveu o protagonista – e foi indicado ao Emmy – na minissérie Dalva e Herivelto, e integra o elenco da série Tapas & beijos, da Globo, ao lado de Andrea Beltrão e Fernanda Torres. Aguarda ainda o lançamento dos longas Totalmente inocentes, dirigido por Rodrigo Bittencourt, e O país do desejo, de Paulo Caldas. Para o segundo semestre, negocia patrocínio para estrear na direção de uma peça baseada num texto do autor norte-americano Cormac McCarthy, com dramaturgia de Maria Adelaide Amaral.

Privacidade e solidão

Fora de cena, faz questão de encontrar os fãs que o esperam a cada apresentação, gosta de ficar “entocado” em casa, mas também de ir ao estádio ver o Corinthians jogar (nesse Carnaval, desfilou na Gaviões da Fiel, que teve o ex-presidente Lula como homenageado do samba-enredo). Nas quatro horas de entrevista, Fabio Assunção opina sobre a descriminalização das drogas, fala de paternidade, sobre os perigos de fazer sucesso tão jovem, privacidade, Facebook, casamento, medo, solidão e comprova sua tese: aos 40 anos, está mais interessante do que nunca.

Tpm. O que a luta contra a dependência química mudou na sua vida?
Fabio Assunção. Eu ganhei liberdade. Hoje sou 100% livre. Me desprendi da aprovação do outro. O que sinto é autêntico, é o que acredito. Não preciso que ninguém me diga em que acredita para que eu possa acreditar. E isso tem muito na sociedade. É impressionante como somos levados a gostar ou não das coisas. Quando você joga uma pessoa em uma roda, observe que tem dois minutos iniciais em que todo mundo fica esperando para ver o que o outro vai falar. Se todo mundo atacar, você ataca também. Eu não só não julgo, como também não me importo mais com o julgamento dos outros.

Desde o ano passado, você interage com o público no Facebook. O que mudou internamente nesse período? 
Entrei no Facebook por causa da peça [Adultérios]. Comecei postando uma foto do ensaio, do cenário e, no primeiro mês, dez pessoas curtiram. Agora tenho 5 mil “amigos”, que é o máximo permitido, e 80 mil assinantes. Tenho meu pensamento impresso ali e descobri que não tem nada melhor do que você se colocar para as pessoas. Porque, com toda essa coisa que aconteceu na minha vida, muita gente escrevia por mim e sobre mim.

Por que isso aconteceu? 
Porque eram assuntos que eu não queria rebater. Afinal, vivi o que vivi, mas vivi com integridade, com honestidade. Não saí na porrada com ninguém. Não abaixei a cabeça, fiquei na minha. Mas hoje muitas coisas que tenho vontade de dizer digo no Facebook. Falo sobre os temas que me interessam e me comunico com qualquer pessoa.

Arley Alves/ TV GLOBO

Fábio como Marcos Mezenga, na sexta novela de sua carreira, O rei do gado, em 1996

Fábio como Marcos Mezenga, na sexta novela de sua carreira, O rei do gado, em 1996

Pode falar sobre o processo contra a dependência? 
O que acho importante falar sobre dependência química é em relação ao medo que as pessoas têm de abrir o assunto. Ficam pensando: “Ninguém pode saber”. E muita gente vive isso. Ficar tentando esconder é o caos. Para mim, é o que leva a pessoa a adoecer. As coisas têm que ser claras, mas a gente vive em uma sociedade em que não se pode ser claro.

Como foi seu tratamento? O que passava em sua cabeça quando estava recluso, afastado de tudo? 
Não quero falar sobre isso. É muito pessoal.

Quando percebeu que era hora de pedir ajuda? 
Não vou falar sobre isso.

Imaginava que uma diversão poderia virar dependência? 
Prefiro que a conversa não vá para esse lado. Esse tipo de curiosidade não leva a nada.

Você acredita que o artista deveria se posicionar sobre questões de interesse público? 
Se você se identificar com elas, acho que sim.

É a favor da descriminalização das drogas? 
Legalização e liberação são coisas diferentes. O álcool é legalizado, mas não é liberado. Existe uma série de regras. E se proibirem o álcool, por exemplo, você cria uma comunidade criminosa...

O que você acredita que deve ser feito? 
Não sei qual é a solução. Não sou especialista nessa área. Existem médicos, autoridades formadas nisso. Mas acho que a primeira coisa é parar com o discurso moralista, mentiroso, com a hipocrisia. As pessoas querem acabar com o erro, mas isso não existe. Você tem que aprender a conviver com seu erro.

Você convive bem com os seus? 
Convivo. Na verdade, não acho que sejam erros. São coisas do ser humano. Temos que conviver bem com tudo o que é nosso. A gente criou um sistema de certo e errado que fica muito difícil de cumprir. Hoje em dia levo multa porque passei a 59 quilômetros por hora no radar que era de 40. É considerado um erro. Estamos cheios de cobranças, de perfeições. Não pode fumar porque faz mal para a saúde, dá câncer. Não corre porque senão leva multa... Como é que sustenta isso?

Como você sustenta isso? 
Não sei. [Pausa.] Passo a 59 por hora no radar de 40 e pago a multa. Não fico pensando: “Sou um imbecil porque passei no radar!”. Você tem que viver bem com suas coisas.

O que lhe dá prazer hoje? 
Tudo o que faço me dá prazer. Meus filhos me dão prazer, meu trabalho. Mais fácil falar sobre o que tira meu prazer: essas cidades congestionadas, ir ao Rio em voos que inevitavelmente estão atrasados ou são cancelados. É um estilo de vida corrido.

Como é um dia na sua vida? 
Hoje acordei, fui na padaria com o João, a Ella Felipa e a Karina. Acordo umas 11 horas e vou deitar lá pela meia-noite. Gosto de dormir muito. Mas hoje, como estou com o João, acordei às 8h30. Não tenho babá. E já acordo fazendo coisas. Acordo para cumprir minhas metas.

 

“A gente criou um sistema de certo e errado que fica difícil de cumprir. Levo multa porque passei a 59 num radar de 40”

 

Quais são suas metas? 
Depende. Cada dia tenho algumas.

Quais são as de hoje? 
Hoje queria ficar com o João, ir no Parque do Ibirapuera e assistir a Tintim no cinema. Em seguida, viríamos para cá e daqui a pouco tenho uma reunião e a peça. Até agora, só não cumpri o cinema. Amanhã tem a festa de aniversário do João. Vai ter 50 amigos dele jogando bola... Cada dia é um dia. Poucas coisas na vida faço religiosamente.

O que faz religiosamente? 
Análise. Há 20 anos. Não com a mesma pessoa, porque vou dando alta para elas [risos]. Gosto de fazer análise porque pego o que acontece comigo, jogo na discussão, mas não me coloco como se a pessoa fosse mudar a minha vida.

Você já foi um dos maiores galãs da TV brasileira. Pesava o rótulo de símbolo sexual? 
Não. Mas estou mais leve agora [risos].

Quando se deu conta de que era um homem bonito? 
Não sei... Sobre o olho claro todo mundo sempre falou. Lembro de mim pequeno, no elevador, entrava alguém e comentava. Mas acho que estou melhor agora. Quando era adolescente, era muito magro. Outro dia estava vendo no YouTube minha primeira novela, Meu bem, meu mal, eu tinha 19 anos. Cara, era um frango [risos]! Ainda usei óculos dos 6 aos 24 anos. E nos anos 80 as mães caprichavam nas armações, eu parecia um ativista [risos]. Aí fiz uma operação a laser para tirar o astigmatismo.

Em algum momento da carreira você se deslumbrou com o sucesso? 
Não sei se deslumbrar é a palavra. Mas, a partir da primeira novela, tudo começou a acontecer pra mim. Fiquei uns 15 anos trabalhando, me dedicando, muita coisa veio. Quando você começa na televisão, fica muito antenado no movimento que vem de fora. Não é um deslumbre, mas começa a ter uma segurança de si mesmo que não sei o quanto é bom ter quando se é novo.

Por quê? 
Porque a televisão rapidamente dá uma credibilidade e uma chancela de qualidade sem que você tenha consolidado conquistas mais artesanais. Ninguém se torna um grande ator em dois, três ou cinco anos. O sucesso imediato da televisão pode te trazer um pouco dessa falsa sensação de qualidade aos 20 anos de idade. Um profissional experiente é bem diferente da coisa pop. Com dois anos de televisão eu já era conhecido das pessoas. E com cinco já fazia protagonistas. Isso dá uma sensação de: “Bom, sou maravilhoso no que faço”. De certa forma, não deixa de ser verdade, porque ninguém faz sucesso se for ruim, mas é diferente de conquistar o sucesso consolidado.

Felipe Hellmeister

Fabio Assunção

Fabio Assunção

Como entrou na TV?
 Ao lado de onde eu morava tinha uma produtora, a Chroma Filmes. O cara que fazia casting era meu amigo de bairro e me chamava para fazer figuração em filmes. E também fazia publicidade para uma agência de modelos. Para atores só existiam duas ou três nessa época, mas ninguém me aceitava, só pegavam profissionais. Até que um dia, aos 19 anos, fui com uns amigos assistir a uma peça da Bri Fioca, que fazia casting. Na época, a Globo não tinha escola de atores nem diretores de casting. No final da peça, fomos falar com ela e, quando ela me viu, falou: “Quer levar um currículo e uma foto na Globo?”. Não tinha dinheiro para fazer book, mas levei meu currículo. Me ligaram em cinco dias para fazer um teste no Rio. Eu nunca tinha andado de avião. Uma semana depois, me liga o [então diretor] Paulo Ubiratan: “Temos personagens aqui, você pode vir conversar?”. E eu: “Lógico!”. Foi quando fiz minha primeira novela, Meu bem, meu mal.

Você tem ídolos? 
Tem várias pessoas que admiro, respeito e acho que cumprem suas metas. Mas não tenho uma relação de ídolo, como se elas tivessem uma coisa que eu não pudesse ter. As conquistas são possíveis a qualquer pessoa. Por exemplo, se tivesse como ídolo o Mick Jagger, no fundo eu estaria vendo um cara que ensaia todo dia, que está com o sistema cardiovascular 100%, que dança no palco, que gera empregos com seu trabalho e ainda faz a arte que faz. Mas não acho que isso é um milagre. Não acho que ele é melhor do que vocês. Acho que é assim para qualquer pessoa perseverante, obstinada. Não é uma exclusividade porque ele nasceu com esse dom. Acho esse pensamento um complexo do fracasso.

E quando o ídolo é você? 
Quebro isso com minha atitude. Não que eu frustre a pessoa que às vezes espera você sair da peça e diz: “Te amo!”. Eu falo: “Que bacana!”, mas não me alimento disso. Sou muito próximo, não boto distância. Toda noite, depois da peça, falo com todo mundo. Mas eu poderia sair por trás do teatro. Talvez a pessoa até ficasse mais fã ainda, pensando: “Nossa, não consegui falar com ele!”. Mas minha onda não é essa. Quero que a pessoa se sinta bem-vinda.

Como é estar sempre sendo observado? 
Às vezes vou a um restaurante e todos ficam olhando, outros são discretos. Mas tive muitos momentos de isolamento, de viagens que fiz, lugares que fui, e hoje me desprendi do olhar do outro. Vivo tranquilamente sem. Não é uma coisa de que eu preciso.

Se preocupa em não expor sua privacidade? 
Sempre cuidei disso. Mas o conceito de privacidade mudou. A primeira vez que fui colocar uma foto do meu filho no Facebook, pensei mil vezes. Mas hoje sei que o conteúdo é mais importante do que minhas questões de privacidade. Fazer trocas com as pessoas está me alimentando em um nível que não estou mais preocupado com isso.

Quem são seus amigos? 
Tenho amigos como o Caio [Blat] e o André [Frateschi] que conheço há 20 e poucos anos. Fico um tempão sem falar, mas são dois caras que sei que, se eu ligar, estarão ali. O Marco Ricca e a Adriana Esteves também são bem amigos, padrinhos do João. Mas, no geral, saio pouco, da peça vou pra casa e fico na toca. Então, convivo mais com os maridos das amigas da Karina. Porque ela, sim, tem umas seis amigas de infância que se falam direto. E os maridos dessas mulheres são ótimos.

Como é o Fabio Assunção pai? 
Tenho altos papos com o João. Vim com ele no carro batendo um papo sobre música. Ele botou AC/DC, e nós começamos a falar sobre os movimentos da música. Passamos pelo punk, fomos para o nazismo, a ditadura, tipos de governo... Louco, né? Praticamente uma aula de história. Mas, quando ele era menor e tinha aquela coisa de brincar dentro de casa, no chão, nunca tive muita paciência para isso. Nem de botar para dormir. Mas, ao mesmo tempo, ele foi em quase todos os trabalhos que fiz. Então, estou na externa com ele. Assumi que não tenho muita paciência para estúdio [risos]. Ficar ali me dá ansiedade, o tempo de uma criança é outro. Você tem que ser honesto. O que não gosto, falo: “Não estou a fim de fazer isso”. Por exemplo, agora ele está parando de jogar, mas, nos últimos três anos, era videogame direto. Eu odeio videogame, não tenho prazer em ganhar nem perder do computador.

Do que você não gosta? 
Não tenho prazer com o “ganhar ou perder”. Em um jogo de tênis ou futebol, que jogo de vez em quando, minha competição é comigo mesmo: é eu estar com disposição para jogar. Não sou de acumular, não guardo, gosto de dividir. Não compro uma coisa pensando “vou investir”. Se ganhava mais dinheiro quando comecei a trabalhar, comprava um carro melhor. Gasto com eletrônicos. Tenho iPad, iPod, iPhone, máquina fotográfica, discos. Devo ter uns 5 mil CDs, uns 3 mil livros...

Você tem um piano em casa. Como aprendeu a tocar?
 Em frente ao prédio onde morava tinha uma senhora, dona Ivone, que tocava. Todo dia eu chegava em casa e ficava ouvindo o piano. Um dia falei para os meus pais: “Quero aprender”. E comecei a fazer aula com ela. Dona Ivone tinha uns 70, 80 anos, e só me ensinou a tocar música clássica. Todo mês meus pais iam me assistir tocar. Hoje toco mais do que naquela época. Mas fico passeando pelos tons, gosto de brincar, e não de ter repertório.

Que outras lembranças guarda da infância? 
Lembro do apartamento da Vila Mariana. Minha mãe era professora do ensino municipal, então ela saía cedo, voltava na hora do almoço para tomar lição de casa e voltava para dar aula. Eu dormia com a minha irmã mais nova e meu irmão mais velho num quarto pequeno, até me mudar para o Rio, aos 19 anos. Brigávamos para ver quem ficava n0 beliche [risos]. Era uma realidade diferente da que tenho hoje. A gente não tinha babá. Ir ao estádio, que adoro, era um programa que fazia com meu pai e que fiquei anos sem fazer. Voltei a ir com o meu filho, que está apegadão ao Corinthians.

Sua filha está com 10 meses. Ser pai de menina é diferente de ser pai de menino? 
Cara, estou meio que namorando a minha filha. Dou uns beijinhos nela, e ela fica toda, toda [risos]. Às vezes ela está na cama, aí eu chego e ela vira porque sabe que vou morder as costas dela. Não é um bebê, é uma minimulher. É muito mais delicada.

E o que mudou por ser o segundo filho? 
Sou relaxado com a Felipa, ao contrário do que fui com o João. Quando ele era pequeno, brigava com as babás, sempre tinha discussão. Quando dei o primeiro banho, entrei com ele no chuveiro, e a babá falou: “Está errado! É de cima pra baixo”. E eu: “Deixa eu dar banho no meu filho”. Porque banho é o seguinte: um sabonete com água, você enxágua tudo e pronto [risos]. Mas eu cismava com a música que estava tocando, com o ar-condicionado e isso gera muito conflito. Quando a Karina ficou grávida, falei: “Vamos comprar [a pomada para assaduras] Desitin. Ela disse: “Não, agora tem uma melhor”. Aí falei: “Tem toda razão!”. A partir daquele momento, tudo o que ela fala, eu respondo: “Lógico!”.

 

“Se você não tiver paciência com as tensões do casamento, ele dança. É um exercício de sabedoria”

 

Por quê? 
Percebi que isso é totalmente da mãe. Antes achava que os pais é que não eram interessados. Mas vendo quem o João está se tornando vi que isso não está ligado a essas decisões. Que diferença a Desitin fez? Ele foi se formando por outras coisas. Então, agora, para tudo falo “sim”. Se vai usar o xampu tal, se vai ligar o ar a 18 ou a 22 graus, tanto faz. A Karina fica felicíssima.

O que é o casamento para você? 
O casamento... [pausa]. Cara, se você não tiver paciência com as tensões do casamento, ele dança. Tem que saber que passa. É um exercício de sabedoria. Você ficar com alguém é ter que fazer concessões. Acho casamento dificílimo, porque cada um tem seu jeito, suas manias. Ao mesmo tempo, acho possível. Mas tem que ser em nome de querer ficar junto. Não pode ser: “Ah, vou ficar casado porque acho isso incrível”. Porque a vida te leva a ser egoísta. Hoje, você vive sozinho muito bem. Não tem mais aquela figura antiga da mulher que depende, o cara também não. Então, para estar com alguém, tem que estar na onda.

Renato Rocha Miranda/ TV GLOBO

Na minissérie Dalva e Herivelto, ao lado de Adriana Esteves, amiga e madrinha de João

Na minissérie Dalva e Herivelto, ao lado de Adriana Esteves, amiga e madrinha de João

Como administra eventuais paixões estando casado? 
Ah, não... Achar que tem um monte de mulher atrás de você é um movimento imaginário. E a mulher só vai dar em cima se perceber que você está abrindo uma porta.

Você pensa: “Estou casado, vou ficar o resto da vida com essa pessoa.”? 
Não penso assim. Senão vira um negócio, uma zona de tensão.

É “só por hoje”? 
Não sei... O “só por hoje” é o seguinte: atende ao princípio de não jogar em cima de você algo que não pode cumprir, porque, se falar: “Eu nunca vou fazer isso”, não tem como cumprir, em nenhum departamento da sua vida. Porque a vida muda. E o “só por hoje” também fala sobre o que é real. 
Na verdade, a gente vive só por hoje. Não podemos ter certeza de nada. Fica mais fácil de entender e cumprir suas metas se pensar dia a dia. Muita gente que não tem nada a ver com dependência química usa o “só por hoje”. Os 12 Passos [princípios dos Narcóticos Anônimos] são excelentes, maravilhosos para qualquer tipo de guerra na sua vida.

Do que sente medo? 
De altura. [Pausa] Não saltaria de paraquedas, por exemplo. Não corro mais riscos bobos. Já tive três motos, mas, mesmo nunca tendo sofrido um acidente grave, hoje não quero mais. Não chegam a ser medos perturbadores. Só evito colocar em risco minha integridade física. Fiquei mais cauteloso.

Recentemente você fez uma viagem de dez dias à Índia, sozinho, e, embora tenha ido para desacelerar, disse que foi difícil se desconectar. O que gerou esse conflito interno? 
Estamos habituados e também acomodados a esse tipo de vida que levamos. Agora há pouco eu estava no trânsito de São Paulo havia horas. Então, quando você fica desconectado, isso significa adquirir outro tempo de vida. A gente reclama que está sempre trabalhando e correndo. Mas e aí, se tiver cinco dias para ficar na praia? Faz o que com isso? Isso pode gerar ansiedade. Eu estava na Índia e realmente poderia ficar o dia inteiro lendo, escrevendo, caminhando. Mas tem uma genética urbana que te chama o tempo inteiro para esse ritmo que a gente vive. Essa desconexão é muito mais complicada do que a gente imagina. Não é só querer. É o poder de conseguir entrar num ritmo mais intimista, se ouvir mais, prestar atenção ao que está fazendo, como saborear um almoço, coisas assim, simples.

“Aos 20 anos estava sempre fazendo uma coisa pensando na outra. Eu nunca estava onde estava”

Tem medo do passar do tempo, de envelhecer? 
Não tenho nenhum medo de envelhecer. Mas também acho que a gente 
não vive em um dos melhores lugares do mundo para isso. E muita gente de mais idade vai ficando amarga, porque essa sociedade capitalista só quer saber o que você pode consumir. É tudo muito rápido. As pessoas estão mais interessadas na vida da modelo de 17 anos do que em um cara genial de 75.

Você se sente melhor do que há 20 anos? 
Com certeza. Falo isso com zero de dúvida. Porque o tempo é outro, você curte as coisas de outro jeito. Hoje saboreio o que faço. Aos 20 anos estava sempre fazendo uma coisa pensando na outra. Eu nunca estava onde estava. Sempre achava que devia estar onde não estava. Chegaria aqui e falaria: “Tenho que ir embora porque amanhã...”. Hoje não estou pensando no que vou fazer amanhã. E amanhã tenho peça, tenho ensaio na Gaviões, tenho que criar alguma atividade para passar o dia com meu filho. Mas agora estou 100% aqui.