Revista TPM

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O reinado de Paula Fernandes

A nova musa de Roberto Carlos, e da música sertaneja, conta sobre sua carreira e a infância na roça
09.03.2011 | Texto: Ariane Abdallah | Fotos: Daniel Aratangy | Estilo Drica Cruz

Ela foi apresentada ao Brasil por ninguém menos que O REI, Roberto Carlos. Em 15 dias, vendeu 130 mil cópias do DVD solo. Mas a história de Paula Fernandes é antiga. Criada na roça, cantava para multidões e gravou o primeiro disco aos 10 anos. Aos 26, finalmente comemora o sucesso – mas não abre mão de suas raízes.

Daniel Aratangy

 

 

No dia 25 de dezembro de 2010, Roberto Carlos surpreendeu o público em seu especial da Globo, quando chamou ao palco um nome feminino até então desconhecido de muita gente. Apresentou-a como “uma cantora que está fazendo muito sucesso, que tem um estilo muito especial, inconfundível. E, além de tudo, ela é linda, e é maravilhosa naquilo que faz. Paula Fernandes”. Apareceu, então, aquela garota de 1,65 metro de altura, 50 quilos e pernas longilíneas. A surpresa aumentou quando ela começou a cantar.
A voz grave soava como a de uma mulher com mais de 40 anos. Mas o rosto e o figurino eram de menina. Dentro do vestido tomara que caia azul, com corpete justo e saia rodadinha, Paula não aparentava ter um músculo do corpo tensionado. Cantar lhe parecia natural, e fazê-lo de mãos dadas ao Rei, confortável. Enquanto isso, os telespectadores queriam saber quem, afinal, era aquela. Novo talento musical? Namorada do cantor? Ou as duas coisas?

Nenhuma das alternativas.

Mas desde que apareceu ao lado do Rei, Paula tem sido bombardeada com especulações sobre um possível romance dos dois. Ela nega. À reportagem da Tpm, reforça que são “apenas amigos”. “Ele foi muito elegante na maneira que se referiu a mim [em entrevista coletiva, quando a chamou de ‘supertalento’, ‘atraente’ e ‘maravilhosa’]. Me pôs num patamar lá em cima. Quem não gostaria de estar no meu lugar?”, questiona.

Seja quem for o candidato, namorar Paula é uma missão difícil por questão de tempo. Desde o ano passado, ela faz em média oito shows por mês. Só o empresário Moacir Coutinho, que compra e vende shows de nomes como Zezé Di Camargo & Luciano e Bruno & Marrone, garante ter reservado entre 20 e 25 datas da cantora até junho. “Ela é a queridinha do Norte e do Nordeste. É o terceiro show mais cotado da região”, garante ele. Segundo sua lista, no alto do mapa brasileiro, a cantora mineira só não é mais requisitada que as bandas de forró Limão com Mel e Garota Safada. E, logo abaixo de Paula, vem Luan Santana, o garoto de 20 anos que explodiu em 2010.

“Eu tive a oportunidade de estar diante da luz do Roberto [Carlos] para acender a minha. Mas não quero nem preciso me aproveitar disso. Minha história é longa demais”

Já o rótulo de “revelação” não combina com alguém que tem 17 anos de carreira – em 26 de vida. Suas interpretações embalaram cinco novelas globais: América (2005), Páginas da Vida (2006), Paraíso (2009), Escrito nas Estrelas (2010) e agora Araguaia, em que canta “Tocando em Frente” com Leonardo. Entre outros, compôs com Zezé Di Camargo e Victor Chaves (da dupla Victor & Leo), “meu amigo há dez anos”. No palco, já fez dupla com Sérgio Reis e Dominguinhos, este último no projeto Emoções Sertanejas, exibido pela Globo, no ano passado. Foi lá que conheceu Roberto Carlos e, em seguida, recebeu o convite para participar do especial de fim de ano, que acontece desde 1974. “Eu tive a oportunidade de estar diante da luz do Roberto pra acender a minha. Mas não quero nem preciso me aproveitar disso. Minha história é longa demais”, antecipa ela.

A menina da viola

Nascida em Sete Lagoas, Minas Gerais, Paula Fernandes de Souza foi criada a 100 quilômetros dali, na sertaneja Serra do Cipó. Morava com os pais, o irmão – Nilmar, um ano mais novo –, 200 galinhas, alguns bois, vacas e cabras, cercada por 8 mil bananeiras. Além de consumir o que produzia, a família comercializava bananas, queijo, rapadura e outros alimentos. Sem muitos brinquedos, Paula se divertia subindo nos pés de manga e fazendo tranças nas espigas do milharal. Só entrou na escola aos 7 anos. Aos 8, pediu de presente um violão. O pai, então, vendeu uma corrente de ouro e lhe comprou um violão Tonante, que hoje está pendurado na parede do quarto de Paula, em Belo Horizonte.

Depois de inverter as cordas – ela é canhota –, a garota correu para a casa de uma vizinha que sabia tocar. “Ela me deu quatro aulas e disse para minha mãe me colocar num conservatório porque já havia me ensinado tudo o que sabia”, lembra a cantora, que passou três dias pedindo para a mãe escutar a música que ela havia aprendido. Quando, enfim, dona Dulce parou o serviço para ouvi-la, ficou impressionada e passou a pedir que a filha repetisse a performance sempre que as tias as visitavam. “Por timidez, eu tocava do quarto, e elas escutavam da sala”, conta Paula. Sem grana para bancar o conservatório, aprendeu sozinha as lições seguintes. E, só depois de quatro anos, teve contato com a teoria. Aula de canto, nunca fez.

Mas isso não impediu Paula de, aos 9 anos, participar de um concurso musical infantil em Sete Lagoas. Quando chegou sua vez, a banda que acompanhava os candidatos parou de tocar no meio da música. A garota foi até o fim, embora tenha entendido aquilo como sinal de reprovação. “Para minha surpresa, levei o primeiro lugar. A banda havia parado porque acharam bonitinha aquela menina cantando e tocando violão”, conta a própria. Nessa época, começou a se apresentar em rodeios, para 4 mil pessoas. As blusas com franjas que gostava de usar eram feitas pela mãe, costureira.

Aos 10 anos, Paula lançou seu primeiro disco, de vinil. De lá pra cá, chegou a se apresentar para 47 mil pessoas, em Paragominas, no Pará, e para 1 milhão, num evento promovido por uma rádio paulistana. Duas composições suas estão no documentário O Mundo em Duas Voltas (2007), sobre a família Schürmann. Em 2006, lançou um álbum de hits internacionais, que incluiu uma versão de “Nothing Else Matters”, do Metallica. Há três meses, chegou ao mercado seu terceiro disco autoral, e primeiro DVD ao vivo, pela Universal Music. Até o fechamento desta edição, 130 mil cópias haviam sido vendidas – 40 mil significam Disco de Ouro.

Num momento em que a indústria fonográfica tradicional está em crise no mundo todo, os principais gêneros de discos mais vendidos no Brasil são gospel e sertanejo. “A música sertaneja é a única sobre a qual a indústria ainda tem controle. Nesse contexto, Paula é a nova ‘galinha dos ovos de ouro’. Mas não se inventam os artistas. O que as gravadoras fazem é ver algo que já está acontecendo, que é legítimo, e, então, produzem para vender”, analisa Marcus Preto, crítico de música da Folha de S.Paulo. Já o cantor Sérgio Reis dispensa os rótulos. “Paula não é sertaneja, pop nem MPB. É Paula Fernandes. O que cantar, é ela. É como o Caetano Veloso, que vem da MPB e grava Peninha. O que eles fizerem vai ter personalidade”, afirma. O veterano a conheceu oito anos atrás, na casa de amigos. “Sabia que era uma questão de tempo ela ser descoberta”, garante. Em 2010, convidou-a para participar da gravação do DVD Amizade Sincera, parceria dele com Renato Teixeira. “Quando entra no teatro aquela menininha miúda, com seu violão, não precisa de mais ninguém. Seu timbre de voz é um diferencial que não dá para definir”, conclui Sérgio.

No último dia 11 de fevereiro, grande parte das quase 8 mil pessoas que aguardavam a chegada da cantora no Chevrolet Hall, em Recife, conhecia seu trabalho antes do Rei – em 2009, suas composições “Jeito de Mato” e “Pássaro de Fogo” já estavam entre as cem músicas mais tocadas nas rádios brasileiras. Enquanto isso, no camarim, Paula procura uma tomada. Com seu baby liss em punho, modela cerca de dez cachos na camada superior do cabelo – que nunca foi tingido. Para completar o look, se maquia sem ajuda de ninguém, comentando que nunca tirou as sobrancelhas e que dá conta também das próprias unhas.

Por cima do short jeans e do corpete rosa, ela coloca um sobretudo. Está pronta para receber os fãs, ritual que se repete antes do início dos shows. Em 5 minutos, umas dez pessoas a chamam de “linda” e umas cinco garantem acompanhar sua carreira de longa data. Um casal se gaba de ter viajado “600 quilômetros só para vê-la”. A mulher repete diversas vezes que o marido tem fotos de Paula “pela casa toda”. O rapaz não diz nada. Só sorri. E, assim, sai na foto abraçado à ídola.

Os fãs de Paula são animados. Apesar de já ter passado das duas da madrugada quando ela subiu ao palco, eles rodopiaram e cantaram alto por uma hora e 40 minutos. No meio do show, um homem invade o palco e corre em direção à cantora. Erlindo, o segurança conhecido como Lindinho (embora seja grande como um armário), sai correndo, pega o fã pelos braços e o devolve na pista. “Isso sempre acontece”, comenta.

Daniel Aratangy

 


Voando sem asas


Um dia antes desse show, no avião de São Paulo a Recife, Paula passou cerca de uma hora jogando algo como Tetris no iPhone 4. Ao seu lado nesse momento, e em praticamente todos os outros, está sua secretária, Cintia Abreu, uma mineira de 22 anos, que, embora conheça Paula desde a infância, não deixa a intimidade transparecer quando trabalha. Há dois anos, é ela quem pede água sem gelo para a cantora, quem se atenta aos horários dos compromissos e a ajuda a finalizar o figurino antes das apresentações. As duas ficam lado a lado em silêncio por longos períodos. “O jeitinho da Cintia, na dela, é que me fez ver que poderíamos trabalhar juntas”, diz Paula.

Elas são as únicas mulheres no grupo de 20 pessoas, que a cantora chama de “família da estrada”. Os outros 18 são integrantes da banda, o produtor Christian Wolanik e dois motoristas do ônibus particular. Sempre que dá tempo, a cantora prefere ir de uma cidade a outra por terra, para descansar sem interrupções, compor ou só ficar dando risada com os companheiros.

Um deles, Márcio Cerqueira, guitarrista e arranjador da banda, conheceu Paula quando acompanhava outra artista num show. “Fiquei impressionado quando a ouvi cantar e resolvi deixar meu cartão com ela”, lembra. Pouco depois, o guitarrista de Paula teve que se ausentar e indicou um amigo. Era Márcio. Desde então, é ele quem a ajuda a definir os repertórios e os tons. “Outro dia, a gente estava ensaiando para o DVD e, de repente, Paulinha tocou uma música nova que tinha composto, ‘Sensações’. Eu parei, e as lágrimas começaram a correr. Toda a galera em volta foi ficando emocionada”, conta ele.

Embora a equipe costume se hospedar toda junta nos hotéis, a pedido de Paula, ela geralmente não participa das folias até alta madrugada. Não gosta de cerveja – no máximo, toma uma taça de vinho. E diz nunca ter experimentado maconha nem cigarro.

Por causa da infância na roça e da carreira precoce, Paula demorou a ter algumas experiências na vida. “Minha educação foi voltada ao trabalho, nunca peguei uma revistinha pra aprender como é que fazia as coisas”, conta. Ela foi ao cinema pela primeira vez aos 15 anos, assistir a Star Wars. Aos 16,
conheceu o mar, na praia de Itararé, em São Vicente. E, apenas aos 19, beijou um garoto na boca, depois de ser pedida em namoro. Os dois passaram quatro anos e meio juntos. “Nunca fiquei. Acho que tem que ser namoro mesmo”, defende ela, que estava ao lado do ex quando desistiu de ser cantora.

Essa crise bateu aos 18 anos. Cansada de correr atrás das oportunidades e não ter retorno, entrou em depressão, emagreceu 7 quilos e mudou para Belo Horizonte. Até então, não media esforços para investir na carreira. Trocou de casa e de cidade várias vezes com a família – desde que nasceu, foram 24 mudanças. Chegou a dividir um imóvel de dois cômodos, em São Paulo, com a mãe e o irmão, depois que os pais se separaram, nove anos atrás. Viajou pelo Brasil para se apresentar, sempre ao lado da mãe, muitas vezes com dinheiro só para duas passagens de ônibus e um lanche a ser dividido. “Uma vez, compramos um pastel, e minha mãe colocou pimenta, pensando que fosse catchup. Tivemos que comer, né?”, lembra. Até que Paula se entregou à sensação de derrota. Resolveu investir em outra coisa e entrou na faculdade de marketing. Quatro anos depois, estava formada.

Já para sair da depressão foram precisos dois anos e meio de tratamento com psicólogo e remédio. Mas, à medida que se recuperava, começou a enxergar tudo sob outro prisma. “Foi também o melhor momento da minha vida, porque vi que tinha uma força que não imaginava”, garante. “Como aprendi a viver com pouco, hoje dou valor a cada conquista. Sei quanto é o salário mínimo, quanto custa um aluguel, então faço cálculos antes de comprar as coisas”, afirma. Há quatro anos, ela mora com a mãe e o irmão, no primeiro imóvel da família: um apartamento tríplex “que parece casa”, na capital mineira. Virou também empresária, à frente da Jeito de Mato, onde o irmão, Nilmar, ao lado de Dulce, cuida das finanças da irmã artista.

“Sei que existe a venda da minha música. Pago minhas contas com isso. Mas por trás tem algo maior que não tem preço. É o que me move. Não quero me contaminar, perder a pureza, a referência”

Tocando em frente

Patrocinada pela Nestlé há quatro meses, Paula está com a mala cheia de chocolates. Embora diga que precisa maneirar nos doces, nunca passou dos 53 quilos. E, quando faz shows em cidades praianas, queima calorias na areia. “Ela joga bola com os meninos. Falo para ela parar, porque pode se machucar, mas é difícil”, conta, rindo, o produtor Christian. Ele trabalha com Paula há um ano e aposta que o sucesso não mudará a “simplicidade” da cantora.

Ela garante não se iludir com o sucesso. “Sei que existe a venda da minha música. Pago minhas contas com isso. Mas por trás tem algo maior que não tem preço. É o que me move. Não quero me contaminar, perder a pureza, a referência”, afirma ela, que, de certa forma, registrou o compromisso na música “Seio de Minas”: “Eu carrego comigo no sangue um dom verdadeiro/ De cantar melodias de Minas no Brasil inteiro”. A próxima parada é Parapiranga, interior da Bahia. Paula, então, entra em seu ônibus e segue viagem.

MAQUIAGEM ELIEZER LOPES (CAPA MGT) ASSISTENTE DE FOTO BRUNO DECC PRODUÇÃO ANA LUIZA TOSCANO VESTIDO COLCCI, BOTA WOLP.