Revista TPM

tamanho da letra
aumentar fonte
diminuir fonte

Marcela Temer

Em entrevista exclusiva, a mulher do vice-presidente do Brasil, abre sua casa e fala à Tpm
15.02.2011 | Texto: Ariane Abdallah, | Fotos: Marcelo Naddeo

Marcela Temer não sabia o que iria vestir a dois dias da posse da presidente Dilma Rousseff. Enquanto esperava a chegada da mãe, que a ajudaria na decisão, ela abria o closet para esta repórter da Tpm ver as opções: um vestido champanhe, “trazido de fora”, ou um tubinho “estruturado”, com a parte de cima marrom e a de baixo rosa velho, assinado pelo estilista paraense André Lama. “Não vou usar grife. Não sou nem quero parecer pretensiosa”, antecipa ela, que escolheu o segundo. O vestido deixou seu ombro à mostra e foi chamado de “ousado” pela consultora de moda Costanza Pascolato. Para compor o look, brincos de pérola sintética e cristais Swarovski e uma bolsa-carteira de seda que fica guardada ao lado de uma Chanel e cinco Louis Vuitton. O que ninguém notou é que a fenda do vestido rasgou alguns centímetros quando Marcela entrou no Cadillac que desfilou, debaixo d’água, da Catedral de Brasília até o Congresso Nacional naquele 1º de janeiro de 2011.

A vice-primeira-dama do país revelou o imperceptível acidente na segunda das duas visitas para a entrevista, concedida na casa onde mora com o marido, o vice-presidente da República, Michel Temer, no Alto de Pinheiros, bairro nobre de São Paulo. No segundo encontro, conta como se sentiu emocionada por participar de perto “deste momento histórico, em que temos pela primeira vez uma presidente mulher, um exemplo para o mundo”. Mas não apenas por isso. A expressão serena em cima do parlatório escondia a aflição de pensar em seu cachorro, Bandy, um bernese com câncer em estágio terminal. Naquele instante, porém, não imaginava que roubava a cena da posse, como divulgavam sites e posts do Twitter. Em minutos, seu nome estava entre os assuntos mais comentados do mundo – enquanto em oito anos de casamento com Michel Temer ela raramente fora vista em eventos públicos. Levando em conta que pela primeira vez na história do país não há uma primeira-dama, e a vice é uma ex-modelo de 27 anos e 1,72 metro de altura, os holofotes seriam inevitáveis. Ainda mais pela diferença de idade entre ela e o marido, 43 anos mais velho.

A trança jogada de lado virou hit da moda e deixou à mostra a tatuagem na nuca feita uma semana depois do casamento e que leva o nome do marido. “Queria o cabelo preso por causa do desfile no carro aberto e um coque ficaria sóbrio”, justifica Marcela, que contava com a mãe, a dona de casa Norma, para fazer make e cabelo, como de costume. Mas a secretária de Michel sugeriu que contratassem profissionais para isso. Ela topou.

A vice-primeira-dama só não pôde passar perfume. “Estarei com meu cheiro natural”, avisou, rindo. Isso porque ela, o marido e o filho, Michelzinho, de 1 ano e 9 meses, foram acometidos por uma coceira intensa durante a campanha presidencial. Nenhum médico descobriu a causa, mas, encerradas as eleições, pai e filho voltaram ao normal. Já Marcela ficava com a pele vermelha com qualquer gota de Organza, da Givenchy, ou Coco Chanel, seus preferidos.

O grande encontro

Este último foi o que ela usou no dia em que conheceu o então candidato a deputado federal Michel Temer, em 2002. Quem sugeriu que ela fosse, com o tio e a mãe, a um comitê “cumprimentar o prefeito” foi seu pai, o economista Carlos Antonio Araujo, conhecido entre os políticos da cidade. Michel estava lá porque seu partido, o PMDB, era o mesmo de Edson Moura, então prefeito de Paulínia. Os dois foram apresentados formalmente. “Era um contato profissional que poderia me ajudar a dar um up na carreira [de modelo]. Mas achei ele charmosão”, confessa ela, que diz nunca ter se incomodado com a diferença de idade de 43 anos. “É como se ele tivesse 30. É mais disposto para acordar cedo e caminhar quando viajamos.”

Dois meses depois, seu pai – novamente ele – sugeriu que ela escrevesse um e-mail ao agora deputado, parabenizando-o pela eleição. “Escrevi: ‘Você se lembra, eu sou a Marcela, parabéns, meu telefone é tal, se quiser manter contato...’. Uma coisa singela, quase fria”, lembra ela. Três dias depois, ele ligou. “Quando falou: ‘É a Marcela?’, eu pensei: ‘Meu Deus, é o Michel Temer!’.”

Numa noite daquela mesma semana de novembro, ela entrou pela primeira vez no Ômega preto de Michel, que foi trocado no ano seguinte pelo Audi A6 que tem até hoje. A menina morava com os pais e os irmãos, Karlo Augusto, 30 anos, e Fernanda, 24, em Paulínia, cidade a 118 quilômetros de São Paulo. Ela vestia blusa decotada, calça justa tamanho 42 e escarpim número 38. Tudo preto, exceto o lenço de seda vermelho e amarelo. Quando rodavam pela cidade, Michel perguntou: “Você tem 20 e quantos anos?”. Marcela sorriu. “Fiz 19 em maio.” Após 40 minutos de conversa, se beijaram. Começava, assim, o primeiro – e único – namoro da vida de Marcela.

Logo que a deixou em casa, Michel ligou. “Ele começou a gritar: ‘Te amo, te amo, te amo’”, lembra ela. “Descobri à primeira vista que ela era – como é – a mulher da minha vida”, resume o vice-presidente à Tpm, sentado numa poltrona vermelha do escritório da residência do casal. Na estante dela, se veem livros de direito, curso que acaba de concluir, e CDs de música clássica, country, sertaneja e pagode. Na dele, fotos das filhas do primeiro casamento – Maristela, 42, Luciana, 39, e Clarice, 37 –, dos quatro netos, do único irmão vivo, o advogado trabalhista Adib Temer, e ao lado da mulher e do filho.

Numa mesa usada pelos dois está o aparelho de fax, por onde chegou aquele e-mail de Marcela, impresso e encaminhado pela assessoria de Michel. Durante meses, ela o escutava contar que: “No dia em que chegou aquele fax, fiquei muito feliz”. Sem se dar conta de que havia escrito para o endereço profissional, ela pensava: “Coitado, ele acha que e-mail é fax”, lembra, rindo.

Depois da cerimônia íntima do casamento, só no civil, Marcela se mudou para essa mesma casa onde Michel morava sozinho. É lá que agora o filho assiste com a babá ao DVD que ganhou de Natal, Thomas e Seus Amigos, enquanto a mãe repete muitos “por favor” e “obrigada” a esta repórter, mesmo cinco horas de conversa depois. Apesar de discreta e educada, ela é falante, extrovertida e puxa o “r” deixando escapar um resquício do sotaque interiorano de Paulínia, um dos maiores polos petroquímicos da América Latina. Marcela conta que já pensou em estudar jornalismo e ser apresentadora de TV, mas “foi coisa de adolescente”. A irmã, Fernanda, reconhece que a mais velha sempre se destacou. “Meus amigos todos falavam que ela era linda. E, em tudo o que fazia, chamava a atenção, como nas peças de teatro da escola. Ela era sempre a protagonista”, lembra.

Vida normal

A vice-primeira-dama coloca a mão na cintura ao dizer que “mulher tem que se achar bonita” e que gosta de seu corpo do jeito que está: com curvas, distribuídas em 66 quilos. “Prefiro ficar mais cheinha”, diz ela, que toma diversos copos de leite com Sustagen por dia. “Minha filha sempre foi muito magra e desde pequena queria ter perna grossa”, revela Norma. Durante a gravidez, Marcela passou meses vomitando “da hora que levantava até ir deitar”. Emagreceu tanto que, quando chegou na maternidade para ter o bebê, pesava só 70 quilos.

Michel Temer Filho foi planejado e nasceu com 3,3 quilos, às 9h54 do dia 2 de maio de 2008, de parto normal. Quem levou Marcela para a maternidade às três da manhã foi seu marido,
que assistia à TV ao seu lado quando a bolsa estourou, às 23h59 do dia anterior. Mas o vice-presidente não acompanhou o nascimento do filho porque, anos atrás, ficou traumatizado quando “foi para o hospital e encontrou várias pessoas sangrando depois de um acidente. Desmaiou e só acordou na maca”, explica a mulher.

Na primeira visita da reportagem da Tpm à casa dos Temer, Michel ligou três vezes para Marcela. “Oi, Mi”, atendia ela. “Eu ia levar o Michelzinho para cortar o cabelo com seu barbeiro, mas minha mãe já cortou. Você vai comprar o antiderrapante para os sapatos? Traz um de cada cor...”, disse, prevenindo-se de escorregar na rampa do Palácio do Planalto, em Brasília. Marcela conta ao marido quase tudo o que acontece em seu dia – da gripe do filho ao que falta na dispensa.

Do outro lado da linha, Michel comenta temas de sua rotina política que hoje são familiares à mulher. Desde que começaram a namorar, ela passou a ler jornal, a assistir aos noticiários da TV e a navegar por blogs de cientistas políticos e jornalistas, como Josias de Souza, de Bastidores do Poder, da Folha de S.Paulo. Embora seu conhecimento seja mais de quem acompanha dos bastidores do que de quem participa, Marcela faz uma avaliação positiva do governo Lula.
“Não dá para negar que o Brasil melhorou. Vinte e oito milhões de pessoas foram tiradas da extrema miséria. Muito mais gente tem acesso a celular, TV de plasma, casa própria. A babá do meu filho vai sair porque entrou na faculdade de letras”, conta.

Bastidores do Palácio

Na nova gestão, a vice-primeira-dama acredita que o mais importante é que “esse trabalho vai continuar, mais pessoas vão passar para a classe C. E, de forma discreta, o Michel vai fazer parte disso, como articulador que sempre foi”.

Marcela conheceu Lula pessoalmente no dia da posse, quando encontrou a presidente Dilma pela terceira vez – a primeira foi durante as eleições e, depois, na diplomação, no fim do ano passado. “Dilma é uma mulher preparada para comandar o país, inteligente e atenciosa, que fala olhando nos olhos e faz questão de integrar as pessoas presentes numa sala”, observa ela.

Casada com o político que foi, por dez anos, presidente do PMDB – partido que costuma ser apontado como um dos mais fisiológicos do Brasil –, Marcela garante não se abalar com o tema. “Não tem nenhuma acusação contra o Michel. E, se
tivesse, eu saberia que é mentira. Vivo com ele, sei o quanto ele trabalha e sempre trabalhou.”

Enquanto aguarda o fim da reforma do Palácio do Jaburu (residência oficial do vice-presidente), a vice-primeira-dama tenta manter a rotina, com a diferença de que ganhou do governo a escolta obrigatória das forças armadas, que a acompanha mesmo que seja na esquina de casa. Até dois anos atrás, o marido tinha quatro seguranças que se revezavam durante a semana, mas não ficavam o tempo todo com a família. “Ainda não caiu a ficha”, diz ela, que vai diariamente à academia no bairro e, a cada 15 dias, à manicure do shopping Villa Lobos. Uma das funcionárias da casa faz as compras semanais – antes de ter filho era Marcela quem fazia.
Embora não cozinhe no dia a dia, ela define o cardápio. No almoço, sempre feijão, arroz branco, purê, salada e uma carne. De segunda a quinta, Michel dorme em Brasília. Vez ou outra, quando chega cansado, a mulher prepara um “ovo com tomatinho” ou macarrão “cabelo de anjo”. Aproveita essas ocasiões para vestir roupas justas, decotadas e que deixem as pernas à vista, como ela gosta, mas evita usá-las em público. “Não são apropriadas para o meio político”, diz.

Mundo pequeno

Os colegas de trabalho de Michel pouco convivem com Marcela, porque jantares de trabalho costumam acontecer na capital federal. Já os casais de amigos próximos dele, empresários e arquitetos, costumam ir com os Temer a restaurantes como o sofisticado Antiquarius, em São Paulo. Marcela tem duas grandes amigas. Uma é também sua dermatologista, da clínica Ligia Kogos. “Marcela é discreta. Só soube que eram casados quando fui examiná-la e vi a tatuagem”, conta Patrícia Nakahodo. Já Patrícia Marques, 39 anos, é economista e conheceu Marcela na Faculdade Autônoma de Direito. Ela lembra quando a amiga reuniu colegas em sua casa, numa sexta-feira à noite, para uma aula de direito constitucional. “Michel chegou de Brasília e, ainda de roupa social, ensinou a matéria para a gente no escritório deles”, lembra Patrícia. E define a vice-primeira-dama como uma “pessoa tranquila”.

Marcela Tedeschi Araujo foi comparada à primeira-dama francesa, Carla Bruni, que também chama a atenção no meio político pela beleza, é ex-modelo, cantora e 12 anos mais nova que o marido, o presidente da França, Nicolas Sarkozy. Ironicamente, as duas têm o mesmo sobrenome de solteira. O de Carla Gilberta Bruni Tedeschi é da cidade italiana de Turim, e o de Marcela, da província de Rovigo, na Itália. A brasileira não gosta das associações. “Não dá para comparar porque Carla Bruni é a primeira-dama, eu sou a esposa do vice-presidente. Ela já era famosa, tem outra história de vida”, observa.

É verdade que Marcela também já foi modelo, mas não completou nem um ano na profissão. “Era só para me divertir, ganhar um dinheirinho e comprar umas roupinhas”, conta ela. Criada num bairro classe média de Paulínia, ela estudou a vida toda no mesmo colégio e passou a adolescência grudada à amiga Angela Perini, com quem ia aos Bailes do Pijama e ao Carnaval fora de época. “Éramos a dupla dinâmica”, lembra Marcela. “Tinha uns paqueras, mas eu nunca queria namorar nenhum”, comenta. Quando completou 14 anos, seu pai, Carlos Antonio Araujo, economista que fundou a primeira escola de computação da cidade, viu o negócio falir. A família teve que morar de favor na casa de parentes e trocar granola, iogurte e mel por pão com manteiga e café com leite no desjejum. Levou um ano para se reerguerem.
Até que, aos 19 anos, ela participou do concurso Miss Paulínia, “só por embalo das amigas”, e ficou em segundo lugar. Em seguida, foi convidada a representar Campinas – que não tinha miss – no concurso do Estado de São Paulo – e, de novo, foi vice. Nesse ano, começou a namorar Michel.

No olho do furacão

Quando chegou do coquetel do Itamaraty, na noite da posse, Marcela soube que seu cão havia morrido. Mas o susto maior foi quando viu que era ela a notícia principal de sites, jornais e TV. “Minha intenção nunca foi aparecer. Só queria ficar quietinha ao lado do Michel”, garante. E passou a primeira semana de 2011 trancada em casa.

Mas continua com seus planos: prestar o exame da OAB, fazer pós-graduação em relações internacionais, ser promotora de justiça e criar um projeto de assistência dentária às classes baixas. Porém antes vai à casa oficial de Brasília “ver se me adapto”.

A propósito, o antiderrapante bege sob o sapato rosa foi fundamental para a vice-primeira-dama subir com firmeza a rampa do Palácio do Planalto, molhada pela chuva. Aquele 1º de janeiro foi realmente um divisor de águas.

MAQUIAGEM BRUNO MIRANDA (CAPA MGT) ASSISTENTE DE MAQUIAGEM LAIZA SILVA