Revista TPM

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Preta Gil

A ex-celebridade 'bafônica' se aproxima dos 40 em busca de paz e de um corpo mais saudável (e isso não quer dizer magro)
13.09.2013 | Texto: Nina Lemos | Fotos: Jorge Bispo

Jorge Bispo

 

Todo mundo tem opinião formada sobre Preta Gil. A desbocada que fala um monte de palavrão e pega geral. A que toda hora está metida em polêmicas. A louca. Mas o lado causador é apenas uma das facetas da cantora de 39 anos. A Preta que encontramos é calma, engraçada, não reclama de nada e quase não fala palavrão durante a longa conversa.

Preta está mais serena do que há dez anos, quando lançou o primeiro disco (em que aparecia nua na capa) e posou (também nua) e deu uma entrevista do tipo bombástica para a nossa revista-irmã, a Trip. “Aquela entrevista trouxe a fama de que eu era muito louca. Eu estava com fome de viver, de quebrar tudo, de mostrar a que eu tinha vindo.” Por falar tudo, entenda-se, entre outras coisas, contar que não transava nos primeiros encontros de luz acesa, por ter estria e celulite – mas que depois liberava geral, porque “já tinha dado uma surra de boceta no cara”. “Jura que eu disse isso?”, ela ri, dez anos depois.

Preta não tem mais o que provar. A filha de Gilberto Gil e Sandra Gadelha, e mãe de Francisco, 18 anos, já mostrou faz tempo que não é “só uma menina mimada querendo aparecer”. Faz show no Brasil inteiro, tem fãs que tatuam seu rosto e reuniu em seu bloco de Carnaval – o Bloco da Preta – 1 milhão de pessoas no centro do Rio de Janeiro.

Além de cantora, Preta carrega muitas bandeiras: a das gordinhas, a dos gays, a dos negros. O que traz admiradores, mas também muitos críticos. “Fazer piada comigo virou modinha. Mas acho que já passou.”

A lista de bullyings é grande. Ela processou o programa Pânico (quando ainda era exibido na Rede TV!) depois de uma paródia de uma foto sua tomando um caldo na praia de Ipanema. Ganhou. Brigou com o humorista Danilo Gentili por causa de uma piada de gosto duvidoso no Twitter. E foi alvo do deputado Jair Bolsonaro, que, ao ser indagado por Preta, no programa CQC, como reagiria se um filho seu se apaixonasse por uma negra, proferiu: “Eu não corro esse risco, e meus filhos foram muito bem educados e não viveram em um ambiente como, lamentavelmente, é o seu”.  

Em dez anos de carreira (de cantora; trabalhar, ela trabalha desde os 17), Preta Gil enfrentou inúmeros furacões. Sem parar de fazer show e sem cuidar da própria saúde. Resultado: sobrepeso, um problema grave no joelho, cirurgias, dores e uma vida à base de remédios. “Já acordo tomando Dorflex. Saio do palco chorando de dor. Para dormir, tomo ansiolítico, analgésico, relaxante muscular. Praticamente o Michael Jackson.”


“Fazer piada comigo virou modinha. Mas acho que já passou”


Preta nunca conseguiu fazer um regime alimentar sério ou manter uma rotina de exercícios – nem se preocupava mais com isso, já que virou “a gordinha mais amada do Brasil”. Agora, aceitou participar do quadro “Medida certa”, do Fantástico. “Jamais aceitaria fazer parte desse quadro para emagrecer”, ela diz. O foco agora é na saúde, em ganhar massa muscular, melhorar os índices, parar de sentir dor. “Não tenho inveja de quem tem dinheiro, jatinho, beleza... hoje invejo quem consegue agachar.”

A entrevista a seguir, feita no Rio, foi acompanhada pela fiel escudeira Juliana Reis e por Dudu e Gisele, fãs que viraram amigos e praticamente moram com ela. “Não suporto ficar sozinha. Faço até cocô de porta aberta”, ri a cantora, que acredita estar passando pelo retorno de algum planeta. “Aos 29 anos eu mudei tudo. Agora, aos 39, resolvi me separar [depois de quatro anos com o mergulhador Carlos Henrique Lima] e estou em uma revolução interna.” Preta Gil adora a vida e diz que quer viver muitos anos. “Imagina eu morrer de infarto aos 60? Quero viver mais uns 50, isso sim.”

TpmHá dez anos você deu uma entrevista à Trip em que falava, entre outras coisas, que na terceira noite transava de luz acesa porque já tinha dado uma “surra de boceta” no cara. Você continua falando tudo desse jeito?
Preta Gil. Sou muito espontânea. Mas acho que já tenho dentro de mim um senso, um filtro. Hoje eu sei que, se eu falar uma coisa pra uma revista, a frase vai aparecer totalmente fora de contexto em um programa de fofoca da tarde, na capa de um jornal popular...

O que aconteceu com você depois daquela entrevista (Preta declarou que era pegadora, se assumiu bissexual e posou nua, como Trip Girl)? Dei a entrevista, posei nua para o disco e para a revista e os dois saíram juntos. Depois fui para um retiro, um spa. Fiquei oito dias repensando, não aguentei o bombardeio de moralismo, de preconceito. Ser de verdade, honesta, uma pessoa diferente, tem um peso. Mas eu não sabia que o peso era tão grande. Veio uma avalanche em cima de mim. Eram frases tiradas de contexto: “Filha de Gilberto Gil fez isso e aquilo”. E era muito raro naquela época, há dez anos, falar que era gay ou bissexual. Eu tinha 29 anos, quase 30, já era uma mulher, uma adulta, mas não me conhecia. Nem conhecia o que viria a ser a artista Preta Gil, a cantora. Eu era uma pessoa ávida por me revelar, então falei muita sacanagem, muito palavrão. Mas não sou mais aquela pessoa.

 Preta na infância

Que pessoa você é hoje? Sou mais calma. Queria ser reconhecida, queria que me aceitassem. E foi muito surpreendente nesses dez anos ver que quem me aceitou, elevou e exaltou como cantora foi o público. Não foi a mídia nem a imprensa, não foi a crítica especializada, não foi a classe, não foram os amigos nem a família. Foi o público. Meus cinco primeiros anos de carreira ficaram muito marcados pela Preta Gil polêmica, da entrevista da Trip! Eu deveria mandar a minha conta do analista para vocês [risos]! Vivi os cinco primeiros anos tendo que lutar contra este personagem que se criou: “Preta Gil é louca, desbocada”. 

Por que a fama de polêmica deixou você mal? Em determinado momento me vi em um vazio. Não queria ficar nessa. Eu quero simplesmente cantar. Quero que as pessoas gostem da minha música e de mim em um palco, não em entrevista. A coisa que mais fiz durante cinco anos foi dar entrevista e falar, falar, falar... Aí eu fiz um show, o Noite Preta, e tudo aconteceu. Comecei a focar na carreira. A cantar em um lugar pequeno do Rio onde cabiam 200 pessoas. E foi lotando. Fomos para outro lugar, para 500 pessoas, ficamos um ano. Chegava e via fila na rua, e pensava: “Gente, isso tudo é pro meu show?”. Eu achava o máximo. Depois tive a ideia de fazer meu bloco de Carnaval e esse bloco virou uma loucura. Este ano tivemos 1 milhão de pessoas na avenida Presidente Vargas [centro do Rio de Janeiro].

Como está a sua carreira no momento? Tenho três shows: o Sou como sou, o Baile da Preta e o Bloco da Preta. Viajo com esses três shows pelo Brasil ao mesmo tempo. Saio de casa na quinta pra fazer show, e então é quinta Baile, sexta Bloco, sábado Sou como sou. Mas é bacana porque eu nunca fico entediada. Ano passado fiz uns 200 shows. 

Seu pai fala que desde os 3 anos de idade você já cantava e já era a festa da família. Eu sempre fui o que eu sou hoje. Minha madrinha Gal [Costa] me dava de presente muito resto de roupa antiga dela – lembro de Gal fatal [um dos shows mais famosos de Gal] –, daí eu tinha uns vestidos de lamê, lantejoula. Era muito engraçado, parecia aquela cena do ET vestido de mulher. Eu era aquilo, era igual ao ET, só que com figurino da Gal. Botava um vestido vermelho que nunca esqueço, todo de paetê, ficava enorme em mim, um salto da minha mãe, um boá e cantava todas as músicas da Gal. Eu avisava em casa: “Tal hora vai todo mundo sentar aqui que eu vou fazer um show”. Eu já tinha na época cinco irmãos, já tinha plateia.

Quantas pessoas moravam na sua casa? Ah, essa época era assim. A gente passava o ano aqui no Rio e o verão todo na Bahia. Como a gente passava quase o ano todo fora, iam todos pra lá, juntava Nara, Marília, Pedro, Maria, eu, mais umas dez crianças, mais Moreno [Veloso], meu primo. A gente foi criado como irmão. Juntavam mais os adultos que tinham e, pronto, a casa era uma festa o verão inteiro. 

E como era sua vida fora da Bahia? Eu morava em Ipanema e estudava no Andrews, uma escola de classe média alta, de ricos, brancos. Minha escola era bem mauriceba mesmo. E era um choque pras minhas amigas patricinhas quando iam lá pra casa. Elas amavam. Mas eu amava ir pra casa delas e viver na caretice também. Eu amava caretice. A Patricia Gonzales, minha melhor amiga de escola, tinha uma casa toda certinha, pai, mãe. A mãe só cuidava delas, buscava e levava na escola todo dia. Eu falava “ai, queria ser ela”. Elas queriam a liberdade que eu tinha e eu queria a caretice que elas tinham. 


 

“Era muito engraçado, parecia aquela cena do ET vestido de mulher... eu era igual ao ET, só que com figurino da Gal”


Você tinha muita liberdade? Eu podia fazer qualquer coisa, não existia não. Nunca minha mãe olhou um caderno meu de escola. Nunca perguntou se eu tinha feito um dever de casa. Nunca sentou pra estudar comigo. Tinha hora de ir pra escola. Problema meu se eu dormi cedo, dormi tarde. Meus pais nunca olharam boletim, nunca foram a reunião de escola. Uma irmã do meu avô materno, a tia Léia, que faleceu ano passado – e era famosa, o Jorge Ben até cita numa música “alô alô, tia Léia” –, morava aqui no Rio e virou responsável por organizar a coisa de direitos autorais deles [Gil e Caetano]. E virou a pessoa que tomava conta de tudo e de todos. Ela que ia na escola, que falava para meus pais que tinham que colocar a gente na natação, essas coisas. Minha mãe era uma supermãe. Mas não tinha aquela coisa careta, sabe? 

Você teve uma infância feliz? Nossa, muito feliz. Minha vida, desde que me entendo por gente, é uma festa. É música, casa cheia, irmão demais, primo demais, ter que dividir tudo com todo mundo, nada é seu, nada é meu, tudo é nosso. E vamos nessa, vamos ser felizes. E aí, na adolescência, já comecei a querer ter cabelo new wave, roupas da Company [marca famosa nos anos 80].

Então você já gostava de uma grife. Meu amor, eu era a rainha da Company, você não está entendendo! Eu era doente, só estudava e só fazia as coisas direito porque minha tia Léia falava assim: “A madrinha vai te dar bolsa da Company”. Eu ficava histérica esperando ela chegar. Ela tinha um carro conversível, ninguém tinha, era incrível. Ela falava: “Escolhe o que você quiser!”. 

Sua madrinha Gal também dava tudo o que você queria? Ela dava umas duas vezes por ano. Aniversário e Natal. Tudo também não, mas escolhia bastante coisa. Ela era a Ivete Sangalo da época, dava muito autógrafo. Eu amava aquela coisa de as pessoas pedirem para tirar foto com ela. Sempre gostei da fama deles. Minha irmã Maria, por exemplo, é superdiscreta. A gente entrava no dentista, eu, ela e minha mãe. Daí começava a tocar uma música do meu pai. E eu falava: “É meu pai”. Até hoje. Se eu entro em um táxi e está tocando uma música dele eu falo: “É meu pai que está cantando!”. 

E sua mãe, como era na sua infância? Minha mãe sempre foi daquelas que botam o pau na mesa. Pra começar, sempre tinha estranhamento por ela ser branca e estar com duas neguinhas. Várias vezes alguém falava: “Que lindo você criar as filhas da empregada”. Eu lembro. Ela respondia: “Elas são minhas filhas, casei com um negro”. Minha mãe é uma figura. 

E no meio dessa adolescência feliz, morreu seu irmão Pedro (em um acidente de carro). Entrei em um processo... um pouco de rebeldia, sabe? Parei de estudar com 17 anos e meu pai falou: “Você tem duas opções: trabalhar ou estudar”. Então, comecei a trabalhar, fazia uns frilas. Com 17 anos, o Nizan [Guanaes] me chamou. Tinha feito um freelance pra ele e ele falou: “Quando você quiser, me liga, vai pra São Paulo trabalhar na minha agência”. Eu sempre tive muito expediente, de trabalhar, qualquer coisa eu resolvo. Liguei pra ele e falei que ia pra São Paulo, trabalhar na DM9. Eu tinha 17 anos e namorava o Otávio [Müller, ator], pai do Francisco, que estava com uma peça lá. Voltei para o Rio dois anos depois, grávida do Francisco, e comecei a trabalhar aqui como uma louca. 


“Minha vida, desde que me entendo por gente, é uma festa. É música, casa cheia... nada é seu, nada é meu, tudo é nosso”


Não tinha grana dos seus pais? Meu pai ajudava da maneira que eu acho bem correta. Ele é muito sério nessa questão dos filhos. Nunca deu dinheiro na minha mão, mesada. Mas pagava meu plano de saúde e, quando fiquei grávida, me deu um apartamento. Quando fiz 18 anos, me deu um carro – velho, mas deu. E eu, muito cedo, ganhei muito dinheiro. Montei uma produtora de vídeo, a Dueto Filmes, com a Monique Gardenberg, e virei uma grande empresária com 23 anos. Era “a workaholic”. Ganhei muito dinheiro no mercado publicitário. 

 Preta Gil em ensaio para a revista Trip, em 2004

Foi aí que veio a mania de comprar? Você fala que uma hora virou uma compulsão. Sim, virou uma compulsão. Porque eu comprava, comprava. Tinha dinheiro, tinha o que eu precisava ter. Vendi o apartamento que meu pai me deu, pequenininho, e comprei um grandão da Patrícia Pillar, que é minha prima. Tinha motorista, empregada, Francisco tinha uma vida superestruturada. Aí alguém me levou a primeira vez na Daslu [risos]. Ferrou. E eu viajava muito para fora, então era só compra, dívida... Chegou num ponto em que tive que ser interditada pela família e por meus amigos. Ir ao médico, fazer tratamento. Eu fazia uma terapia que era ir ao shopping e conseguir sair sem comprar nada. Eu suava. Passava mal. Era doença real. 

Você se curou? Acho que nunca me curei disso. Continuo igual, gosto de comprar, gosto de ter, mas ganhei responsabilidade, tenho prioridades. Naquela época não: não me preocupava se tinha dinheiro para a escola do Francisco, para a casa. Eu me preocupava em comprar aquela bolsa, aquele sapato. Mas não era só isso, eu tinha que dar uma casa para minha empregada, mesmo sem saber se eu podia. Eu comprava e comia, comprava e comia. Depois comprava e fazia dieta. Quando fiz minha primeira lipo, caí em depressão. 

Você se preocupava com o peso desde adolescente? Não, eu nunca fui gorda. Engordei depois que o Francisco nasceu. Tirei a vesícula e ganhei 30 quilos. E, o mais inacreditável, eu não percebia que tinha 30 quilos a mais. As pessoas falavam, mas eu não conseguia visualizar. 

Mas suas roupas cabiam? Não, mas eu comprava muito, comprava mais larga, era vaidosa igual. Aí, no meio disso, me separei do Otávio e casei com o Rafael [Dragaud, roteirista] tipo imediatamente. E o Rafael era um marido que não me alertava, não me falava que eu estava gorda. Ele só falava: “Você está linda, eu te amo assim”. Se o marido, que é um termômetro, não falava, eu não ligava. Quando me separei, resolvi que queria emagrecer. E aí eu perdi os 30 quilos com dieta e lipo. Entrei em um momento de introspecção que eu nunca tive na vida. Por conta da lipo, fui obrigada a ficar quieta em casa, não podia trabalhar, dançar, cantar. E eu sou hiperativa. Fiquei numa cama morrendo de dor, um horror, nunca senti tanta dor na vida. Fiz peito e abdominoplastia junto, fiquei sem me mexer um mês em casa, só pensando. 

Foi depois disso que você decidiu virar cantora? Eu comecei a namorar o Caio Blat, que é ator e me dava muita força para meu lado artístico. Passei a dirigir clipes, mas minha angústia não saía. Aí fiz muita terapia, né? E foi lá que eu descobri que queria cantar. Saí da empresa da qual era sócia. Vendi tudo o que eu tinha e montei uma banda com uns amigos de infância, o Pedro Baby, o Davi Moraes. A Ivete [Sangalo] me emprestou o estúdio dela em Salvador e ensaiamos até poder montar um show. 

E como foi esse show? Chamei todos os amigos e a família. E aí foi uma catarse. Antes estava todo mundo meio desconfiado, achando que era um capricho meu. Mas, quando eles me viram no palco, nossa, foi um chororô. Era eu cantando e a plateia inteira chorando. A Flora [Gil, madrasta] já disse: “Vou cuidar de você”. Tinha vários olheiros na plateia do show e, com produção do Tom Capone, gravei meu primeiro disco. 


“Eu comprava e comia, comprava e comia. Depois comprava e fazia dieta”


Além de cantora, você virou um símbolo de defesa da diversidade. Foi consciente? Eu levantei essa bandeira gay antes de todo mundo. Tenho isso do discurso do meu pai, sou brava, persisto. Quando vi, tinha três bandeiras fincadas em mim: das gordinhas, dos gays e dos excluídos em geral. Eu pensava: “Por que eles precisam de uma voz, de uma musa?”. Eu nunca sofri preconceito, eu sou do jeito que sou. As pessoas se amavam de maneiras diversas na minha família, tinha casais de vários tipos. Eu nunca soube que existia preconceito. 

Mas você não tinha sofrido preconceito por ser negra? Não. Porque bem ou mal eu era preta, mas era rica, era filha de artistas. Claro, tinha episódios na escola, mas eu nunca comprei como preconceito. Sempre achei que eram situações. Depois é que eu fui percebendo coisas, como uma mãe que não deixava a gente voltar de condução, que era o transporte em rodízio de mães, que atochavam 20 crianças nos carros. Meu sonho era voltar de condução porque eu sempre gostei de bagunça e tinha uns meninos bonitinhos. Um dia pedi para uma amiga que eu adorava para voltar de condução com a mãe dela. Ela volta no dia seguinte e diz: “Ai, Preta, minha mãe disse que macaco não entra no carro dela”. Eu não entendi. Cheguei pra minha mãe e contei. Ela estava com a perna quebrada, e foi na porta da escola assim mesmo. Saio eu da escola e vejo a minha mãe, cabelo comprido, muleta, gritando: “Quem é a mãe da fulana?”. Ela acabou com a mulher, quebrou o vidro do carro, quase fomos expulsas. Nunca mais fizeram brincadeiras comigo e com os meus irmãos na escola. 

Depois de ficar famosa, o preconceito aumentou, não é? Quantas pessoas você já processou? Eu processei o Pânico. Na verdade processei a Rede TV!, e ganhei. 

Como foi esse episódio? Um dia tomei um caldo na praia, e saiu em vários sites: “Preta Gil e Sabrina Sato mostram suas diferenças na praia”. Eu estava com ela, que era minha amiga. Depois ela me ligou chorando, dizendo que ela não tinha culpa... só chorava. Liguei para minha assessora e para o meu advogado e falei: “Lá vem bomba”. Deito para ver o programa com o meu filho e começa com o cara falando: “Liga pra sua amiga, Sabrina”. 
A matéria era uma mulher obesa com um biquíni igual ao meu, e com a Sabrina falando: “Preta, vamos dar um pulo no mar”. A mulher comendo um monte de coisas, uma narração tipo Gil Gomes. Aí aparece uma baleia encalhada, a Sabrina recorre aos banhistas na praia. E sai um trator arrastando a mulher! É uma pena porque a Sabrina é inteligente. Ficamos três anos sem nos falar, mas perdoei. Aturei piadas por anos, mas paciência tem limite. Fui supercriticada, gente dizendo “você não tem humor”, “logo você”. Não tenho humor é meu cu! 


“Levantei a bandeira gay antes de todo mundo. Tenho isso do discurso do meu pai, sou brava, persisto”


Você também processou o Jair Bolsonaro? (O deputado disse que seus filhos não namorariam alguém como Preta porque não tinham a educação e a família que ela tinha.) Eu comecei a processar o Bolsonaro, mas meu advogado me aconselhou a não seguir. Ele é deputado, tem imunidade. É uma complicação. Fui falar com o meu pai e ele falou: “Ih, esse aí eu conheço há muito tempo”. Porque ele é militar, né? “É do mesmo povo que me prendeu em 68... Igual a ele, Preta, tem vários. É só um que foi pra TV aparecer, você vai se importar?” Quando vi que meu pai não estava preocupado, deu uma amenizada no meu ódio. 

Você também teve problemas com humoristas. Com o Danilo Gentili. Ele fez uma piada ridícula sobre mim no Twitter, tipo: “Meu pneu furou, agora sei como a Preta Gil deve se sentir todos os dias”. E rolou a briga virtual. Aí estou lá no lançamento do meu DVD, em 2010. Ele foi ao show e pediu para gravar comigo, que estava arrependido. Mesmo traumatizada, pensei: “Tá, vou amolecer meu coração”. Falei com ele com a maior delicadeza. Mas não deu outra: na matéria, ele fazia piadas por trás. Era uma cilada. 

Você processou? Não, não tenho saúde pra isso. Só se virar cantora na Noruega. 


 

“Meu pai disse [sobre Bolsonaro]: ‘Igual a ele, Preta, tem vários. É só um que foi pra TV aparecer, você vai se importar?’”



As coisas estão melhorando para as gordinhas, com essas discussões e investimentos em moda plus size? Sim, mas é muito porque o brasileiro ainda vive a rebarba do que vem de fora. Nos Estados Unidos, por uma questão mercadológica, entenderam que os negros eram um mercado em potencial. Aí até comida pra preto tem, ganham uma fortuna. Agora vai acontecer essa mesma coisa com o gordinho. O mercado plus size dos EUA rende milhões também. 

Você é garota-propaganda da linha plus size da C&A. Minha proposta foi muito em cima da autoestima da mulher. Eles perceberam que tinha uma porta-voz que podia associar essa necessidade deles de ter uma linha plus size, a garota-propaganda que representasse isso. Não sou hipócrita de recusar “porque é uma questão comercial”. Que seja! A gente agradece. É melhor ter uma roupa bonitinha do que vestir saco de batata.

E a bandeira gay? Grudou em você por você ter dito que transou com mulher? Eu sou assumidamente bissexual, isso já de cara faz com que as pessoas se sintam mais livres. Desde que eu comecei a fazer show o público sempre ficou à vontade comigo, de subir no palco, de gritar “Beija!”. E eu sou um veado, né [risos]? Meu público traz essa questão. Outro dia um de 16 entrou no meu Instagram contando que estava dormindo fora de casa porque a mãe descobriu que ele era gay. Eu: “Me manda o seu telefone”. Liguei, conversei horas com ele até que se acalmasse. 

Você acha que os preconceitos estão diminuindo? Hoje, com essa história do politicamente correto, fica tudo velado. Você chega com um amigo preto em casa e sua mãe finge que acha normal, mas aí vocês 

saem e ela comenta com a amiga: “Nossa, que horror”. Tem, é real, isso é assim. Todos os dias da minha vida eu escuto gente que fala: “Nossa, até que você não é feia”; “Ah, você nem é tão gorda”. Gente que grita pra amiga do lado: “Gente, olha como ela é bonita!? Ela não é tão gorda!”. Mas isso assustada, tá [risos]?

 

“Eu tenho muita energia, amo viver. Vou bater as botas com 60 anos, de infarto?”

E agora você está no “Medida certa”. Por que decidiu fazer? Eu fui esquecendo de mim. De me cuidar. Esqueci que eu era um ser humano, uma mulher, que envelhecia. Existe a ideia de que eu “não posso” ser magra, vou ter que ser gorda eternamente, porque tenho uma bandeira a levantar. Mas em 2010 operei o joelho pela primeira vez. Em 2012, operei de novo. O médico falou: “Você tem um problema crônico. Quando você acabar com esse resto de menisco, vai ter que colocar uma prótese no joelho. Você quer isso pra você?”. Falei: “Não, de jeito nenhum”. “Então tem que fazer exercício, perder no mínimo 10 quilos.” Já fiz fisioterapia, montei academia em casa... mas virou cabide. E continuei comendo tudo o que eu queria e mais um pouco. Até que uma médica detectou que tenho insuficiência insulínica periférica. Pré-diabética, metabolismo zero, contratei personal de novo. E aí, de novo, não tenho tempo, viajo, chego cansada... Os prognósticos eram colesterol a não sei quanto, risco de ter parada cardíaca, um AVC. Preciso cuidar de mim. 

E muita gente é contra você perder peso? Me xingam por ser gorda, mas também me amam por ser gorda. Uma época tentei fazer uma dieta e botei nas redes sociais. E as reações eram: “Ah, não! Você emagrecer vai ser uma decepção pras gordinhas”. Aí o [Marcio] Atala me convenceu porque o foco do programa agora é saúde. “Queremos pegar uma mulher como você e mostrar que pode mudar suas taxas de tudo no organismo.” Eu falei: “Nossa, você andou conversando com meu médico?”. Ele contou que, quando pegou o Ronaldo, ele não andava. Sentia dor da unha à cabeça. E em três meses não sentia dor nenhuma. Eu me empolguei. 

Você sente muita dor no joelho ainda? Dor? Dor? Essa cara que eu estou de exaustão é de toda a dor que senti hoje. Fazendo foto, de salto, ferrou. Tô tomando muito analgésico para fazer show. E aí, claro, o excesso de analgésico vai me trazer outros problemas... Se o “Medida certa” não tivesse aparecido na minha vida, eu não ia criar vergonha na cara. Ia continuar nessa prostração. Mas cansei de ficar cansada. Faz um ano que minha médica fala isto: “Se você não mudar, vai morrer. Sua perspectiva de vida é de mais uns 20 anos”. Eu quero mais 40, 50. Tenho muita energia, eu amo viver. Vou bater as botas com 60 anos, de infarto? No palco, eu sou uma menina de 20 anos, mas quando eu termino já é “ai, ai, ai”, é choro, e põe gelo, e pega nebulizador. Também tenho hérnia de disco. Então, tomo muito remédio, relaxante muscular, ansiolítico, analgésico, anti-inflamatório... é um coquetel até conseguir dormir. Quase o Michael Jackson. 

Quantos quilos você quer emagrecer? Não tem isso. O Atala falou: “Não quero mostrar fotos de antes e depois e falar ‘agora você está magra’. Quero índice muscular”. E eu quero tirar essa dor. Meu melhor momento foi em 2007, quando fui rainha da bateria da Mangueira no Carnaval. Foi um escândalo, eu pesava 72 quilos – 15 a menos do que hoje – e era “a gorda que virou rainha de bateria”. Olho aquelas fotos e me acho incrível, a perna torneada, cheia de músculos. Eu mandava beijo pro povo, pulava, agachava. Sabe do que eu tenho mais inveja hoje? De quem agacha. Não invejo o corpo da fulana, o jatinho da sicrana... mas o joelho eu queria de volta.