Revista TPM

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Postado em 17.08.2009 | 11:08 | Elka Andrello

Para quem vem para a Índia, recomendo comprar o guia “Lonely Planet Índia” e ler o livro “Holy Cow”, da australiana Sara MacDonald. No “Lonely Planet” você encontra boas informações sobre estadia, transporte, alimentação, hospitais e tudo que um viajante de primeira a décima viagem precisa saber. No livro “Holy Cow”, você encontra o que o “Lonely Planet” não fala, o lado B da Índia, e ainda morre de rir. Sara é jornalista e ex-dj de uma rádio na Australia, e narra as alegrias e roubadas durante o ano que viveu aqui com um super bom humor. Uma das histórias é sobre uma festa de casamento em Nova Deli e os eunucos penetras.

 

Hijras

Eunucos ou Hijras

 

Os eunucos, mais conhecidos como hijra, são famosos por serem barraqueiros. Eles chegam com tudo, principalmente em festas de casamento e de nascimento de uma criança do sexo masculino. As "monas" dançam, cantam e fazem a maior bagunça  para obrigar a família a pagar uma boa quantia em dinheiro para eles irem embora. Se a coitada da família não der o que eles pedem, as hijras chegam até a mostrar o órgão cortado para os convidados. Para não passar por maiores constrangimentos, a família aceita ser depenada, é uma forma de extorsão através do vexame. Achei essa história tão surreal que fui atrás dos eunucos penetras. E é isso mesmo.

As hijras são transexuais que podem ter os seus orgãos sexuais cortados ou não. Elas vivem a margem da sociedade indiana e não são considerados nem homem, nem mulher, mas “o terceiro sexo”. Elas andam em bando, todas montadas com saris super coloridos, muitas pulseiras e muita maquiagem. Como são discriminadas, o jeito que acharam para  ganhar  a vida é através da extorsão ou prostituição. O truque mais popular é baixar em festas de casamento.

 

 

E o mais incrível é que no final das contas as hijras são reverenciados como pessoas especiais, capazes tanto de trazer boa sorte e fertilidade, quanto má sorte. Isso porque aqui na Índia o povo é mais supersticioso e cheio de santos do que na Bahia. Os indianos acreditam que se as hijras ficam satisfeitas com o pagamento, elas dão uma benção que traz boa sorte e fertilidade, e se não ficam satisfeitas com o dinheiro,  jogam uma praga que pode durar por gerações. Por essas e outras, acho perfeito o símbolo que representa a Índia ser a flor de lotus. Do mesmo jeito que a flor de lotus, linda e delicada, nasce no lodo, a sabedoria floresce nos lugares mais sinistros e obscuros aqui na Índia. Tik he?

 

Tik he =  tudo bem, concordo, isso mesmo

 

 

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Postado em 02.08.2009 | 11:10 | Elka Andrello

 
Estou estudando um texto budista que fala sobre o sofrimento, tema clássico no budismo. Um dos tipos de sofrimento se chama “sofrimento sobre sofrimento” e basicamente quer dizer que as coisas sempre podem piorar. O que eu não imaginava é que iria receber uma aula prática sobre o tema!

2:30h. Madrugada. A Graziela acorda com febre. Justo hoje, dia que eu iria receber a minha primeira iniciação com o Dalai Lama.

9:00h. Lá fomos eu e a Tenzin, xará do Dalai Lama que se chama Tenzin Gyatsu e babá tibetana super fofa da Gra, atrás de um médico. Fomos  parar no Delek Hospital, em Macleod Ganji, hospital público dos refugiados tibetanos. O hospital é pequeno mas é organizado e limpo. As pessoas são antendidas duas ao mesmo tempo em uma salinha por médicos que não falam o melhor inglês do mundo. A Graziela para ajudar deu chilique, bateu no médico e se enroscou inteira no fio do meu ipod. O diagnóstico, bronquite, antibiótico e a recomendação de voltar no hospital para fazer uma inalação caso a Gra piorasse. Bye-bye iniciação com o Dalai Lama.

1:00h. Parecia que o Garfield estava dentro do peito da Gra. Madrugada, chuva, e acabou o crédito do meu telefone. Apelei e acordei a Gaía, minha vizinha brasileira. Todos os motoristas de taxi que a gente ligou não atenderam o telefone. Deixei para ligar por último para o taxista que eu tinha brigado e lógico que foi o único que atendeu e falou que não iria me levar para o hospital porque eu tinha reclamado que ele era caro. “Harrrri, pleaseeeee, this is an emerrrrrgency!!!!!” Putz, agora eu estava devendo um favor para o mais mala de todos. Peguei o telefone da Gaía emprestado. Fomos parados pela polícia no caminho do hospital. A porta do hospital estava trancada e tivemos que gritar para acordar o segurança (e todos os pacientes internados). O médico de plantão virou para mim e disse que não era pediatra e não sabia o que fazer pela Grá. A essa altura o Garfield estava fazendo a festa dentro do peitinho dela.  Pedi para o médico fazer uma inalação. A máquina de inalação parecia ser dos anos 50, mega barulhenta, e deve ter acordado o resto das pessoas. A Gra começou a chorar de medo da máquina. O médico entrou na sala  e falou que podia ser bronquite, asma, ou uma outra doença que fecha a garganta e asfixia a criança. Surtei e liguei para a minha mãe no Brasil acionar o seguro saúde internacional para levar a gente para outro hospital. O aparelho de inalação começou a soltar uma fumaça fedida e deu um curto circuito. Não sabia se a inalação estava ajudando ou sufocando a Gra. Super surtei e tive a “ótima” idéia de ir para o hospital Apolo em Nova Deli, 10 horas de carro de distância. A minha mãe, que já me conhece de outros carnavais, tentou me explicar que viajar para outro estado não era a melhor solução. Minha mãe tentou ligar para o pediatra no Brasil que não estava. Acabou o crédito do telefone da Gaía. O médico recomendou que eu fosse para casa e procurasse um pediatra no dia seguinte, virou as costas e foi embora. A enfermeira disse que não podia fazer nada para ajudar e foi dormir.

 3:30h. Fiquei sozinha com a Gra dentro do hospital. Todos os motoristas de taxi na frente do hospital estavam dormindo. Bati nos vidros dos carros e os *&#@ se recusaram acordar e levar a gente para casa. Voltou a chover.  Entrei no hospital, deitei a Gra na maca da sala de emergência e tentei dormir sentada. Consegui dormir, um homem começou a gemer de dor, acordei. Voltei a dormir, uma mulher começou a chorar de dor, acordei. Fiquei com muita pena das pessoas amontoadas em macas na sala ao lado, sem assistência nenhuma. Pensei: “Que &%##@ eu tô fazendo aqui na Índia!!! Bom, vim ficar perto do Dalai Lama e ele está nesse momento dormindo há dois quilometros daqui.“ Fechei o olho, respirei fundo e comecei uma conversa silenciosa com o Dalai Lama. “Poxa, olha só quanto sofrimento, todos esses tibetanos, povo que você ama tanto, e a gente aqui sofrendo.” Lembrei que ele passou o dia dando a iniciação de Yamantaka, uma deidade irada, protetor super poderoso. Pedi ajuda. Acalmei e dormi.

6:00h. Tá na hora desses motoristas acordarem. Quase quebrei o vidro dos carros e nenhum motorista se mexeu. Voltou a chover. Entrei com a Gra na padaria que tinha acabado de abrir. Pedi um tchai. Estava furiosa com os taxistas. Por um momento esqueci tudo que tinha aprendido sobre equanimidade e carma e que a minha chapinha fica destruída na chuva, baixou a pixadora da zona leste, saí na chuva e escrevi FUCKY YOU no vidro do taxi. Dois macacos caíram da árvore e começaram a brigar do meu lado. Entrei na padaria com o cabelo crespo, o rímel borrado e tomei o tchai. Consegui parar um taxi que estava passando na rua. A chuva piorou. Cheguei em casa feliz por não ter furado o pneu do carro e decidida a achar algum pediatra, hospital e um raio X. Dormi.

12:00h. A babá Tenzin chegou em casa com um embrulho para mim. Ela, sem saber de nada, acordou bem cedo e foi  até o templo do Dalai, falou com o segurança amigo dela e conseguiu conversar com a Sua Santidade. A fofa da Tenzin foi pedir para o Dalai Lama rezar para a Gra ficar boa e falou que a mãe (que nesse momento estava perto deles pixando carros e fugindo de macados, descabelada) estava muito preocupada.  O Dalai Lama deu na mão dela um saco de dutsis (pílulas sagradas tibetanas), falou para a Gra e para mim tomarmos uma de manhã e de noite, e do alto da sua imensa sabedoria disse o seguinte: “Fale para a mãe ficar calma, que a filha vai ficar bem. Ela não precisa se preocupar com nada e não deve levar a criança para nenhum hospital. Fale para ela ficar em casa” O Dalai Lama era a única pessoa do mundo que faria eu desistir de achar um pediatra, um hospital e um raio X e ficar em casa. Eu acalmei e a Gra sarou.

Não fiz a iniciação com o Dalai Lama dessa vez, mas me senti protegida pelo Yamantaka e abençoada pelo Tenzin Gyatso. O pacotinho amarelo com os dutsis que ele me deu ficam do lado da cama para me lembrar que se o sofrimento existe, milagres também acontecem.

 

Pilulas sagradas que o Dalai Lama me deu

Pílulas sagradas que o Dalai Lama me deu

 

Yamantaka, deidade budista

Yamantaka, deidade budista,

no British Museum

 

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Por Elka Andrello

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