O vento era tão forte que me acordou, até parecia uma música, sério!
Madrugada gelada, eletricidade cortada, filha dormindo quentinha. Voltei a dormir. De manhã, como todos os dias, saí atrasada para levar a Graziela para a escola. Entre uma bronca e um beijo na minha filhota, olhei para o lado e vi a montanha quase branca. Coisa mais linda! Moro na Índia, em Moli, um vilarejo com uma poucas dezenas de pessoas e muitas dezenas de vacas. Moro no norte da Índia, aos pés do Himalaia. Sou vizinha do topo do mundo. Todas as vezes que eu olho para as montanhas mais altas do planeta, elas estão ensolaradas enquanto o resto está na sombra. Parece um sonho. Tudo bem, tem um monte de filmes, livros, fotos e lendas sobre essas montanhas mágicas, mas eu só vou acreditar que elas existem no dia que eu pisar na sua superfície e comer um pouco de neve. Acho que vou me jogar no chão e ensinar a Gra afazer um anjo na neve. E depois gritar para ouvir meu eco. O budismo ensina que tudo o que a gente experimenta é um eco da nossa mente. Como será o eco lá em cima? Esse tem que ser um encontro perfeito, vou ter paciência e esperar a montanha ficar mais branquinha. Himalaia é uma palavra em sânscrito e quer dizer morada da neve, então quando nevar mais,vou alugar um carro para levar a Gra conhecer a neve na casa dela. Porque aqui a neve não é apenas água congelada e a montanha não é apenas uma rocha alta. Não aqui no Himalaia. A montanha e a neve são seres mágicos que realizam desejos. E essas coisas a gente respeita.
Elka Andrello
A casa onde eu moro em Moli, no norte da Índia.
Elka Andrello
Minha vizinha.
Elka Andrello
Os outros vizinhos.
Elka Andrello
Aviso na entrada de casa.
Elka Andrello
Escola da Graziela.
Elka Andrello
Mandir, templo hindu, no quintal de casa. Todos os dias, no pôr-do-sol,
os indianos tocam um sino e levam oferendas para os deuses dentro dessa gradinha.
Elka Andrello
A menina amiga da montanha.
Elka Andrello
Noite de lua cheia.
A cordilheira do Himalaia é a cadeia montanhosa mais alta do mundo.
Diwali, ou Festival das Luzes, é celebrado todos os anos na Índia e no Nepal, entre os meses desetembro e novembro. O festival pontua o final das colheitas e os fazendeiros agradecem à deusa Lakshmi a riqueza obtida e rezam para que o próximo ano seja próspero. Lakshmi é a deusa hindu da $$ prosperidade $$, luz, sabedoria, fortuna, generosidade e coragem.
Parecia festa de São João no Brasil, as cidades ficaram lotadas de banquinhas vendendo fogos de artifício e também doces e luzes. Eu e a Graziela fomos convidadas por uma amiga indiana, a Sonia, para um jantar.No começo da noite a Sonia cantou para a deusa Lakshmi na frente de um altar, enquanto ela girava um prato com oferendas. Todos nós pudemos fazer oferendas para Lakshmi. No final ela marcou a testa dos convidados com um bindi de tinta vermelha, o terceiro olho que os indianos usam. Acendemos muitas velas e soltamos tantos fogos de artifício que não faria feio em uma final de futebol. O jantar estava dos deuses! Terminamos a noite ouvindo hip hop com o Brian, marido americano da Sonia, que contou sobre o encontro com Adam "MCA" Yauch na livraria de Macleod Ganj, poucas semanas atrás.
Recentemente eu tive a grande sorte de receber ensinamentos do Dalai Lama. Durante uma semana, no monastério dele em Macleod Ganj, ele ensinou budismo vajrayana (a linhagem que eu estudo) e falou sobre coisas muito complexas e outras muito simples, mas que tem o enorme poder de transformar a nossa vida. Uma das coisas que ele falou é o que a gente leva para a próxima vida depois que morre são nossas ações boas e ruins. Ou seja, a maior riqueza que a gente pode acumular nessa vida são nossas experiências de amor, amizade, alegria, paciência e generosidade. E esse é o tal caminho para a iluminação.
Pensando nisso eu lembrei dos meus amigos, porque é na companhia deles que eu vivo os momentos mais saborosos dessa minha vida. E mesmo estando quase 5 anos longe, 4 anos morando num monastério budista e quase 1 ano na Índia, a gente continua a se falar e ser presente um na vida do outro. Sempre que eu vou para casa visitar é uma delícia. E o mais legal é que eles não me julgam ou criticam por ter me afastado por esse tempo para me dedicar para algo importante para mim, ou por ser meio lesada às vezes e não corresponder a altura às expectativas. Eu sempre sou recebida com beijos, abraços e drinks. Amo! O que eu nunca contei para ninguém é que se eu tenho coragem de ficar longe e viver de um jeito, como diria o Dani Lang, peculiar, é porque eu sei que eu tenho a amizade deles. É um paradoxo, estou longe porque tenho eles.
Eu admiro e me inspiro no exemplo da Dedê, na espiritualidade do Bidhu, na sabedoria do Dani Lang, na integridade da Clau, na elegância da Sachi, na beleza da Dea que é linda por dentro e por fora, no senso de humor, a famosa xoxação do Vitor Ângelo, na gentileza do Fabinho, no jeito divertido da Mari 16V, na generosidade da Erika, que é o meu superego e sempre me ajuda a juntar os pedaços como uma irmã mais velha e responsável, no apoio da Liz da Fê e da Ju, no jeito na Marta Paula, que é encantadora como uma personagem do Fellini. Amigos que acima de tudo torcem para tudo dar certo, vibram com as alegrias e perdoam as pisadas na bola.
Tem um texto do Trinley Norbu Rinpoche que eu adoro:
"If we believe that mind is continuous,
our love for others becomes continuous.
If we recognize this continuity,
we do not trust temporary, tangible circumstances
or take them too seriously.
If we believe in the continuity of mind,
then love inconspicuously connect us to the ones we love
with continuos positive energy, so that even tangible
separations between people who love each other do not
reduce the intangible power of love.
By believing in the continuity of mind,
we acknowledge the continuity of all circumstances,
including our experiences of love,
which are not just for one moment or for one life”
Pensando bem, se eu tenho boas chances de progredir é porque eu encontrei vocês. E o que eu desejo é que todo mundo tenha pelo menos um amigo tão legal quanto os meus amigos são para mim. Eu amo vocês!
Então, bora lá pegar o telefone, combinar de sair para um drink, dançar e acordar de ressaca para o trabalho?
Na Índia ser bronzeada ou ter sardas é um horror, aqui a palidez é obsessão nacional para mulheres e homens. Sério! Da mesma maneira que as ocidentais fritam no sol e nas máquinas de bronzeamento artificial ou usam cremes auto- bronzeantes, aqui na Índia as mulheres não se expõe ao sol, nunca chegaram perto de uma máquina de tanning e tem uma variedade de cremes clareadoresà disposição para comprar em qualquer biboca de esquina. Não posso deixar de mencionar que a Índia, o segundo país mais populoso do mundo, tem mais de 1 bilhão de indianos que geneticamente vem ao mundo com bastante melanina na pele.
Pelo o que eu pesquisei, existem duas categorias de creme: o que descolore os pigmentos da pele, e o clareador,que pode remover a camada superficial de pele morta ou inibir a melanina. O creme da foto descolore a pele e garante uma cútis dois tons mais clara em uma semana.
Quanto mais morena melhor!
Selo de qualidade
Miss Índia cara pálida.
John Abraham, astro de Bollywood.
Voltei faz pouco tempo da praia de Ko Phi Phi, na Tailândia, bronzeada e cheia de sardas, mesmo tendo usado protetor solar 50 todos os dias, me sentindo ótima. Encontrei um amigo indiano em Nova Deli que me perguntou desolè se os pigmentos na minha pele era a minha cor original ou se era por causa do sol. Foi inacreditável a expressão de alívio dele quando eu disse que na verdade sou super branquela e que eu tinha me esforçado pera pegar uma corzinha.
Será que a gente não está satisfeita com o que é, e tenta consumir até tons de pele para ficar bonita, ou a gente é feia porque não está satisfeita com o que é? Qual será o segredo da beleza?
Morar na Índia não é para qualquer um. Na verdade é difícil morar aqui! Mas é bom!! Não, eu não pirei, deixa eu explicar:
Todos os dias eu levo e busco a Gra na escolinha. Vamos a pé pela Norbulinka Road (não adianta procurar no Google Earth, aqui não passa nem carteiro), uma estrada contruída ao lado do rio com água do degelo das montanhas do Himalaia.
Elka Andrello
On the road
Todos os dias de manhã eu saía atrasada, olhando para o chão com medo de pisar em cocô de vaca, com óculos de sol e ipod. E essa rotina aconteceu por meses, até que as monções vieram, a chuva encheu o rio, e o som forte da correnteza ganhou do meu ipod. Atravessei a estrada, tirei os óculos de sol para ver melhor a cor da água, e para o meu espanto me dei conta que por meses eu ignorei a presença de um rio incrível que cantava do meu lado todos os dias, e por hábito e pressa, nunca tinha me dado o trabalho de dar quatro passos para atravessar a estrada e andar do lado do rio. Na verdade fiquei meio chocada comigo mesma. Afinal, atravessar a estrada demora menos de cinco segundos! Porque eu sempre escolhi andar do lado mais feio da estrada?
Elka Andrello
Elka Andrello
Na Índia, quando está calor,eu tenho que ficar toda vestida porque é ofensivo mostrar os ombros e as pernas. Eu tenho que me vestir e comportar como um saco de batata, para não atrair a atenção indesejada dos homens. Eu posso me sentir sufocada e ficar com raiva, ou pensar que sou uma convidada nesse país e que me comportar assim é uma forma de respeito.Aqui não tem supermercado, eu compro meus legumes e verduras na rua, de produtores e comerciantes locais. Eu posso reclamar de saudades do supermercado Pão de Açúcar, ou achar legal comprar produtos locais e gerar renda para os moradores da região. Aqui não tem coleta de lixo, eu posso lamentar jogar lixo no mato e poluir a natureza, ou comprar menos produtos industrializados e gerar menos lixo.
Elka Andrello
Mercado de verduras e legumes em Dharamsala
Elka Andrello
Indiana joga lixo no mato
Elka Andrello
Lixo na beira do rio
Quando a nossa condição de vida é tão adversa, somos obrigados a entender a diferença entre o que é se acostumar e aprender. Podemos nosacostumar com as coisas ruins ou aprender a ver as coisas boas. Eu estava acostumadaa andar olhando para o chão com medo de cocô de vaca, e aprendi a atravessar a estrada para andar do lado do rio. A Índia tem me ensinado a reclamar menos e a ficar mais satisfeita com o que eu tenho. Valeu Índia, por me ensinar a andar do lado do rio!
Já faz 6 meses que eu e a Graziela moramos em Himachal Pradesh, estado bem pobre que fica na zona rural da Índia, na fronteira com o Tibete, aos pés do Himalaia. O nosso visto de turista acabou e precisamos sair do país para renovar o visto para mais 6 meses. Escolhi viajar para a Tailândia, que fica há 5 horas de avião e é um lugar que sempre quis conhecer. Depois de viver meses na bagunça e pobreza, parece que mudamos de planeta na organizada e limpa Tailândia. Saímos de um lugar onde só tem vacas para andar de Skytrain e aproveitar o lado mais moderno de Bangkok. Sawasdee!
O super moderno skytrain.
Adoro usar o transporte público, é um ótimo jeito de conhecer como as pessoas se comportam,
se vestem, namoram e brigam. É bem mais barato e divertido do que andar de taxi.
O primeiro passeio de skytrain a gente nunca esquece.
Entrada do centro de cultura e arte de bangkok, que fica em uma das estações do skytrain.
Graziela homenageia o rei do pop dançando o moonwalk na entrada da galeria.
o elefante é a vaca da Tailândia.
No primeiro andar da galeria ficam várias lojas com exposições
e trabalhos de artistas com preços super acessíveis.
Grafite tailandês.
É bem difícil um grafite impressionar uma paulistana como eu,
super fã dos ótimos artistas brasileiros.
Os modernos de Bangkok.
Prints à venda por B1000 (aproximadamente R$50).
Tailandês blackpower. Certo mano!
Dragão interativo.
A Tailândia é um país childrem friendly até na galeria de arte. Tudo de bom!
Vista do 9˚ e último andar da galeria
Modelo old school masculino
Modelo old school feminino
Modelo old school de demônio!
O modelo moderno de demônio fica por conta da sua imaginação.
Não sei se acontece o mesmo com as outras mulheres, mas se eu não presto atenção, a mãe da Graziela põe a Elka para correr. E olha que as duas moram no mesmo corpo, o meu! Deixa eu explicar:
Me myself and I
1 -) Não é photoshop e nem um surto, apenas mais uma mãe.
2 -) A mãe da Graziela adora a filha, muito! Mora no mato, vive com a filhota longe do barulho e da poluição. Tem poucas amigas por perto, não namora faz tempo, compra comidas orgânicas e sai pouco de casa. Ouve Billie Holliday bem baixinho e imita as coreografias do Michael Jackson junto com a filha, que tá quase aprendendo a fazer o moonwalk.
3-) Às vezes dá briga. Uma quer fazer uma coisa e a outra não deixa. Um saco! E o pior é que não dá para virar as costas e ir embora.
4 -) A Elka adora os amigos, muito! Adora sair para dançar, fazer vídeos, ir no festival de cinema, ficar acordada de madrugada em alguma festa ou em casa no computador. Fala pelos cotovelos, é namoradeira, festeira profissional e viciada no bolinho de arroz e blood mary do Ritz, o melhor do mundo. Ouve De La Soul bem alto.
Me myself and I
Bom, a gente foi obrigada a entrar num acordo. Tudo bem que ter um filho é tudo de bom, o maior amor do mundo. E todo mundo concorda que criança precisa de atenção, dedicação e amor. Mas aí caiu a ficha que criança aprende através do exemplo, então ser um protótipo de mãe, um híbrido de Dona Chepa com espanador de pó, não rola. Mãe até pode se descabelar (na verdade, essa parte não dá para evitar), mas não precisa andar descabelada por aí assustando os vizinhos. E é muito legal mãe que tem amigas e sabe se divertir, assim a filha aprende a dar valor para as amizades desde cedo. E mãe que leva na escola, trabalha, e no fim do dia assiste o dvd do “Charlie e Lola” pela 1783 vez com a filha enquanto fala da vida. Não existe falar uma coisa para a criança e fazer outra. Então o melhor caminho é ser um bom exemplo, para começar sendo uma pessoa feliz!
Para quem vem para a Índia, recomendo comprar o guia “Lonely Planet Índia” e ler o livro “Holy Cow”, da australiana Sara MacDonald. No “Lonely Planet” você encontra boas informações sobre estadia, transporte, alimentação, hospitais e tudo que um viajante de primeira a décima viagem precisa saber. No livro “Holy Cow”, você encontra o que o “Lonely Planet” não fala, o lado B da Índia, e ainda morre de rir. Sara é jornalista e ex-dj de uma rádio na Australia, e narra as alegrias e roubadas durante o ano que viveu aqui com um super bom humor. Uma das histórias é sobre uma festa de casamento em Nova Deli e os eunucos penetras.
Eunucos ou Hijras
Os eunucos, mais conhecidos como hijra, são famosos por serem barraqueiros. Eles chegam com tudo, principalmente em festas de casamento e de nascimento de uma criança do sexo masculino. As "monas" dançam, cantam e fazem a maior bagunçapara obrigar a família a pagar uma boa quantia em dinheiro para eles irem embora. Se a coitada da família não der o que eles pedem, as hijras chegam até a mostrar o órgão cortado para os convidados. Para não passar por maiores constrangimentos, a família aceita ser depenada, é uma forma de extorsão através do vexame. Achei essa história tão surreal que fui atrás dos eunucos penetras. E é isso mesmo.
As hijras são transexuais que podem ter os seus orgãos sexuais cortados ou não. Elas vivem a margem da sociedade indiana e não são considerados nem homem, nem mulher, mas “o terceiro sexo”. Elas andam em bando, todas montadas com saris super coloridos, muitas pulseiras e muita maquiagem. Como são discriminadas, o jeito que acharam paraganhara vida é através da extorsão ou prostituição. O truque mais popular é baixar em festas de casamento.
E o mais incrível é que no final das contas as hijras são reverenciados como pessoas especiais, capazes tanto de trazer boa sorte e fertilidade, quanto má sorte. Isso porque aqui na Índia o povo é mais supersticioso e cheio de santos do que na Bahia. Os indianos acreditam que se as hijras ficam satisfeitas com o pagamento, elas dão uma benção que traz boa sorte e fertilidade, e se não ficam satisfeitas com o dinheiro, jogam uma praga que pode durar por gerações. Por essas e outras, acho perfeito o símbolo que representa a Índia ser a flor de lotus. Do mesmo jeito que a flor de lotus, linda e delicada, nasce no lodo, a sabedoria floresce nos lugares mais sinistros e obscuros aqui na Índia. Tik he?
Estou estudando um texto budista que fala sobre o sofrimento, tema clássico no budismo. Um dos tipos de sofrimento se chama “sofrimento sobre sofrimento” e basicamente quer dizer que as coisas sempre podem piorar. O que eu não imaginava é que iria receber uma aula prática sobre o tema!
2:30h. Madrugada. A Graziela acorda com febre. Justo hoje, dia que eu iria receber a minha primeira iniciação com o Dalai Lama.
9:00h. Lá fomos eu e a Tenzin, xará do Dalai Lama que se chama Tenzin Gyatsu e babá tibetana super fofa da Gra, atrás de um médico. Fomos parar no Delek Hospital, em Macleod Ganji, hospital público dos refugiados tibetanos. O hospital é pequeno mas é organizado e limpo. As pessoas são antendidas duas ao mesmo tempo em uma salinha por médicos que não falam o melhor inglês do mundo. A Graziela para ajudar deu chilique, bateu no médico e se enroscou inteira no fio do meu ipod. O diagnóstico, bronquite, antibiótico e a recomendação de voltar no hospital para fazer uma inalação caso a Gra piorasse. Bye-bye iniciação com o Dalai Lama.
1:00h. Parecia que o Garfield estava dentro do peito da Gra. Madrugada, chuva, e acabou o crédito do meu telefone. Apelei e acordei a Gaía, minha vizinha brasileira. Todos os motoristas de taxi que a gente ligou não atenderam o telefone. Deixei para ligar por último para o taxista que eu tinha brigado e lógico que foi o único que atendeu e falou que não iria me levar para o hospital porque eu tinha reclamado que ele era caro. “Harrrri, pleaseeeee, this is an emerrrrrgency!!!!!” Putz, agora eu estava devendo um favor para o mais mala de todos. Peguei o telefone da Gaía emprestado. Fomos parados pela polícia no caminho do hospital. A porta do hospital estava trancada e tivemos que gritar para acordar o segurança (e todos os pacientes internados). O médico de plantão virou para mim e disse que não era pediatra e não sabia o que fazer pela Grá. A essa altura o Garfield estava fazendo a festa dentro do peitinho dela. Pedi para o médico fazer uma inalação. A máquina de inalação parecia ser dos anos 50, mega barulhenta, e deve ter acordado o resto das pessoas. A Gra começou a chorar de medo da máquina. O médico entrou na sala e falou que podia ser bronquite, asma, ou uma outra doença que fecha a garganta e asfixia a criança. Surtei e liguei para a minha mãe no Brasil acionar o seguro saúde internacional para levar a gente para outro hospital. O aparelho de inalação começou a soltar uma fumaça fedida e deu um curto circuito. Não sabia se a inalação estava ajudando ou sufocando a Gra. Super surtei e tive a “ótima” idéia de ir para o hospital Apolo em Nova Deli, 10 horas de carro de distância. A minha mãe, que já me conhece de outros carnavais, tentou me explicar que viajar para outro estado não era a melhor solução. Minha mãe tentou ligar para o pediatra no Brasil que não estava. Acabou o crédito do telefone da Gaía. O médico recomendou que eu fosse para casa e procurasse um pediatra no dia seguinte, virou as costas e foi embora. A enfermeira disse que não podia fazer nada para ajudar e foi dormir.
3:30h. Fiquei sozinha com a Gra dentro do hospital. Todos os motoristas de taxi na frente do hospital estavam dormindo. Bati nos vidros dos carros e os *&#@ se recusaram acordar e levar a gente para casa. Voltou a chover. Entrei no hospital, deitei a Gra na maca da sala de emergência e tentei dormir sentada. Consegui dormir, um homem começou a gemer de dor, acordei. Voltei a dormir, uma mulher começou a chorar de dor, acordei. Fiquei com muita pena das pessoas amontoadas em macas na sala ao lado, sem assistência nenhuma. Pensei: “Que &%##@ eu tô fazendo aqui na Índia!!! Bom, vim ficar perto do Dalai Lama e ele está nesse momento dormindo há dois quilometros daqui.“ Fechei o olho, respirei fundo e comecei uma conversa silenciosa com o Dalai Lama. “Poxa, olha só quanto sofrimento, todos esses tibetanos, povo que você ama tanto, e a gente aqui sofrendo.” Lembrei que ele passou o dia dando a iniciação de Yamantaka, uma deidade irada, protetor super poderoso. Pedi ajuda. Acalmei e dormi.
6:00h. Tá na hora desses motoristas acordarem. Quase quebrei o vidro dos carros e nenhum motorista se mexeu. Voltou a chover. Entrei com a Gra na padaria que tinha acabado de abrir. Pedi um tchai. Estava furiosa com os taxistas. Por um momento esqueci tudo que tinha aprendido sobre equanimidade e carma e que a minha chapinha fica destruída na chuva, baixou a pixadora da zona leste, saí na chuva e escrevi FUCKY YOU no vidro do taxi. Dois macacos caíram da árvore e começaram a brigar do meu lado. Entrei na padaria com o cabelo crespo, o rímel borrado e tomei o tchai. Consegui parar um taxi que estava passando na rua. A chuva piorou. Cheguei em casa feliz por não ter furado o pneu do carro e decidida a achar algum pediatra, hospital e um raio X. Dormi.
12:00h. A babá Tenzin chegou em casa com um embrulho para mim. Ela, sem saber de nada, acordou bem cedo e foi até o templo do Dalai, falou com o segurança amigo dela e conseguiu conversar com a Sua Santidade. A fofa da Tenzin foi pedir para o Dalai Lama rezar para a Gra ficar boa e falou que a mãe (que nesse momento estava perto deles pixando carros e fugindo de macados, descabelada) estava muito preocupada. O Dalai Lama deu na mão dela um saco de dutsis (pílulas sagradas tibetanas), falou para a Gra e para mim tomarmos uma de manhã e de noite, e do alto da sua imensa sabedoria disse o seguinte: “Fale para a mãe ficar calma, que a filha vai ficar bem. Ela não precisa se preocupar com nada e não deve levar a criança para nenhum hospital. Fale para ela ficar em casa” O Dalai Lama era a única pessoa do mundo que faria eu desistir de achar um pediatra, um hospital e um raio X e ficar em casa. Eu acalmei e a Gra sarou.
Não fiz a iniciação com o Dalai Lama dessa vez, mas me senti protegida pelo Yamantaka e abençoada pelo Tenzin Gyatso. O pacotinho amarelo com os dutsis que ele me deu ficam do lado da cama para me lembrar que se o sofrimento existe, milagres também acontecem.