Revista TPM

 
tamanho da letra
aumentar fonte
diminuir fonte
icone postado
Postado em 21.10.2009 | 11:10 | por Elka Andrello
divisão

Na Índia ser bronzeada ou ter sardas é um horror, aqui a palidez é obsessão nacional para mulheres e homens. Sério! Da mesma maneira que as ocidentais fritam no sol e nas máquinas de bronzeamento artificial ou usam cremes auto- bronzeantes, aqui na Índia as mulheres não se expõe ao sol, nunca chegaram perto de uma máquina de tanning e tem uma variedade de cremes clareadores  à disposição para comprar em qualquer biboca de esquina. Não posso deixar de mencionar que a Índia, o segundo país mais populoso do mundo, tem mais de 1 bilhão de indianos que geneticamente vem ao mundo com bastante melanina na pele.

 

Garnier+Light

Pelo o que eu pesquisei, existem duas categorias de creme: o que descolore os pigmentos da pele, e o clareador,  que pode remover a camada superficial de pele morta ou inibir a melanina. O creme da foto descolore a pele e garante uma cútis dois tons mais clara em uma semana.

 

 

bronze1

Quanto mais morena melhor!

 

 

bronze garantido

Selo de qualidade

 

 

teaser_a_6d48ac85999a10c9fcc3f42c3cffac23

Miss Índia cara pálida.

 

John Abraham, astro de Bollywood.

 

Voltei faz pouco tempo da praia de Ko Phi Phi, na Tailândia, bronzeada e cheia de sardas, mesmo tendo usado protetor solar 50 todos os dias, me sentindo ótima. Encontrei um amigo indiano em Nova Deli que me perguntou desolè se os pigmentos na minha pele era a minha cor original ou se era por causa do sol. Foi inacreditável a expressão de alívio dele quando eu disse que na verdade sou super branquela e que eu tinha me esforçado pera pegar uma corzinha.

 

No barco, voltando de Ko Phi Phi

No barco, voltando de Ko Phi Phi.

Bronzeada, com sardas e feliz.

 

Branco querendo ficar marrom, marrom querendo ficar branco.

Será que a gente não está satisfeita com o que é, e tenta consumir até tons de pele para ficar bonita, ou a gente é feia porque não está satisfeita com o que é? Qual será o segredo da beleza?

 

Sun Tatto

Sun Tatto. Trabalho da designer Yu-Chiao Wang.

 

divisão
  • Avaliar:(+1)  avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (1)comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
icone postado
Postado em 17.10.2009 | 16:10 | por Elka Andrello
divisão

Morar na Índia não é para qualquer um. Na verdade é difícil morar aqui! Mas é bom!! Não, eu não pirei, deixa eu explicar:

Todos os dias eu levo e busco a Gra na escolinha. Vamos a pé pela Norbulinka Road (não adianta procurar no Google Earth, aqui não passa nem carteiro), uma estrada contruída ao lado do rio com água do degelo das montanhas do Himalaia.

Elka Andrello

On the road

On the road

Todos os dias de manhã eu saía atrasada, olhando para o chão com medo de pisar em cocô de vaca, com óculos de sol e ipod. E essa rotina aconteceu por meses, até que as monções vieram, a chuva encheu o rio, e o som forte da correnteza ganhou do meu ipod. Atravessei a estrada, tirei os óculos de sol para ver melhor a cor da água, e para o meu espanto me dei conta que por meses eu ignorei a presença de um rio incrível que cantava do meu lado todos os dias, e por hábito e pressa, nunca tinha me dado o trabalho de dar quatro passos para atravessar a estrada e andar do lado do rio. Na verdade fiquei meio chocada comigo mesma. Afinal, atravessar a estrada demora menos de cinco segundos! Porque eu sempre escolhi andar do lado mais feio da estrada?

Elka Andrello

eu rio

 

Elka Andrello

rio

 

Na Índia, quando está calor,  eu tenho que ficar toda vestida porque é ofensivo mostrar os ombros e as pernas. Eu tenho que me vestir e comportar como um saco de batata, para não atrair a atenção indesejada dos homens. Eu posso me sentir sufocada e ficar com raiva, ou pensar que sou uma convidada nesse país e que me comportar assim é uma forma de respeito.  Aqui não tem supermercado, eu compro meus legumes e verduras na rua, de produtores e comerciantes locais. Eu posso reclamar de saudades do supermercado Pão de Açúcar, ou achar legal comprar produtos locais e gerar renda para os moradores da região. Aqui não tem coleta de lixo, eu posso lamentar jogar lixo no mato e poluir a natureza, ou comprar menos produtos industrializados e gerar menos lixo.

Elka Andrello

Mercado de verduras e legumes em Dharamsala

Mercado de verduras e legumes em Dharamsala

Elka Andrello

lixo

Indiana joga lixo no mato

Elka Andrello

Lixo

Lixo na beira do rio

Quando a nossa condição de vida é tão adversa, somos obrigados a entender a diferença entre o que é se acostumar e aprender. Podemos nos  acostumar com as coisas ruins ou aprender a ver as coisas boas. Eu estava acostumada  a andar olhando para o chão com medo de cocô de vaca, e aprendi a atravessar a estrada para andar do lado do rio. A Índia tem me ensinado a reclamar menos e a ficar mais satisfeita com o que eu tenho. Valeu Índia, por me ensinar a andar do lado do rio!

 

 

divisão
  • Avaliar:(+2)  avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (3)comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
icone postado
Postado em 22.09.2009 | 15:09 | por Elka Andrello
divisão

Já faz 6 meses que eu e a Graziela moramos em Himachal Pradesh, estado bem pobre que fica na zona rural da Índia, na fronteira com o Tibete, aos pés do Himalaia. O nosso visto de turista acabou e precisamos sair do país para renovar o visto para mais 6 meses. Escolhi viajar para a Tailândia, que fica há 5 horas de avião e é um lugar que sempre quis conhecer. Depois de viver meses na bagunça e pobreza, parece que mudamos de planeta na organizada e limpa Tailândia. Saímos de um lugar onde só tem vacas para andar de Skytrain e aproveitar o lado mais moderno de Bangkok. Sawasdee!

 

skytrain

O super moderno skytrain.

Adoro usar o transporte público, é um ótimo jeito de conhecer como as pessoas se comportam,

se vestem, namoram e brigam. É bem mais barato e divertido do que andar de taxi.

 

 

03_gra sky train

O primeiro passeio de skytrain a gente nunca esquece.

 

04-entrada galeria

Entrada do centro de cultura e arte de bangkok, que fica em uma das estações do skytrain.

 

5-moonwalk

Graziela homenageia o rei do pop dançando o moonwalk na entrada da galeria.

 

06-elefante

o elefante é a vaca da Tailândia.

 

07-lojas

No primeiro andar da galeria ficam várias lojas com exposições

e trabalhos de artistas com preços super acessíveis.

 

grafite

Grafite tailandês.

É bem difícil um grafite impressionar uma paulistana como eu,

super fã dos ótimos artistas brasileiros.



10-modernos

Os modernos de Bangkok.

 

09-prints

Prints à venda por B1000 (aproximadamente R$50).

 

 

08-blackpower

Tailandês blackpower. Certo mano!

 

 

dragao

Dragão interativo.

 

 

11-childrem

A Tailândia é um país childrem friendly até na galeria de arte. Tudo de bom!

 

 

 

13-ultimo andar

Vista do 9˚ e último andar da galeria

 

 

14-roupa masc

Modelo old school masculino

 

 

15-roupa fem

Modelo old school feminino

 

 

16-roupa dem

Modelo old school de demônio!

O modelo moderno de demônio fica por conta da sua imaginação.

 

 

 

Instalação feita com fotos e espelhos

Instalação feita com fotos e espelhos

 

 

18-fotos

Todas as fotos da instalação são PB e antigas.

 

 

Jogo de espelhos

Jogo de espelhos

giga

Escultura gigante na entrada da galeria.

 

Fim do passeio

Vista da galeria da estação do skytrain.

 

 

21-pizza

E o dia acaba em pizza.

 

divisão
  • Avaliar:(+2)  avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (6)comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
icone postado
Postado em 04.09.2009 | 01:09 | por Elka Andrello
divisão

O sol atravessa as bandeiras de oração no quarto

 

O sol nasce e atravessa as bandeiras de oração no quarto.

0002

 

A Graziela sempre acorda primeiro.

001

 

Me dá um beijo babado e pergunta se eu dormi bem.

000007

 

Pronta para ir para a escola.

 

08

 

 

A gente corta caminho pela trilha que passa pelo meio do vilarejo.

10

 

No caminho, a Graziela encontra uma caveira de cachorro.

-O que é isso mãe

-Impernacência, filha

17

 

Nossa casinha com jardim.

00003

 

Convidadas para um casamento na casa da vizinha passam pelo nosso portão.

00004

 

Essa caprichou no piercing.

11

 

A Gra adora a babá tibetana, a querida Tenzin.

000005

Bombinha hindu

14

 

Nosso jardim de bandeiras de oração.

16

 

Toda vez que eu me irrito, a Graziela vira para mim e fala "Shanti (paz) mammi".

Por que será?

15

 

Quintal de casa.

09

 

Happy hour da mamãe com cerveja indiana.

12

 

Convidado indesejado em baixo da cama.

O lama disse que escorpião é sinal de proteção.

000006

 

A Graziela sempre dorme primeiro.

007elka

 

E eu fico no computador ouvindo música, escrevendo, estudando e falando com os amigos.

 

divisão
  • Avaliar:(0)  avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (7)comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
icone postado
Postado em 01.09.2009 | 00:09 | por Elka Andrello
divisão

Não sei se acontece o mesmo com as outras mulheres, mas se eu não presto atenção, a mãe da Graziela põe a Elka para correr. E olha que as duas moram no mesmo corpo, o meu! Deixa eu explicar:

 

memyselfandI

Me myself and I

 

1 -) Não é photoshop e nem um surto, apenas mais uma mãe.

2 -) A mãe da Graziela adora a filha, muito! Mora no mato, vive com a filhota longe do barulho e da poluição. Tem poucas amigas por perto, não namora faz tempo, compra comidas orgânicas e sai pouco de casa. Ouve Billie Holliday bem baixinho e imita as coreografias do Michael Jackson junto com a filha, que tá quase aprendendo a fazer o moonwalk.

3-) Às vezes dá briga. Uma quer fazer uma coisa e a outra não deixa. Um saco! E o pior é que não dá para virar as costas e ir embora.

4 -) A Elka adora os amigos, muito! Adora sair para dançar, fazer vídeos, ir no festival de cinema, ficar acordada de madrugada em alguma festa ou em casa no computador. Fala pelos cotovelos, é namoradeira, festeira profissional e viciada no bolinho de arroz e blood mary do Ritz, o melhor do mundo. Ouve De La Soul bem alto.

 

02-memyselfandI

Me myself and I

 

Bom, a gente foi obrigada a entrar num acordo. Tudo bem que ter um filho é tudo de bom, o maior amor do mundo. E todo mundo concorda que criança precisa de atenção, dedicação e amor. Mas aí caiu a ficha que criança aprende através do exemplo, então ser um protótipo de mãe, um híbrido de Dona Chepa com espanador de pó, não rola. Mãe até pode se descabelar (na verdade, essa parte não dá para evitar), mas não precisa andar descabelada por aí assustando os vizinhos. E é muito legal mãe que tem amigas e sabe se divertir, assim a filha aprende a dar valor para as amizades desde cedo. E mãe que leva na escola, trabalha, e no fim do dia assiste o dvd do “Charlie e Lola” pela 1783 vez com a filha enquanto fala da vida. Não existe falar uma coisa para a criança e fazer outra. Então o melhor caminho é ser um bom exemplo, para começar sendo uma pessoa feliz!

sabao

Lavanderia aqui de casa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

divisão
  • Avaliar:(+1)  avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (5)comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
icone postado
Postado em 17.08.2009 | 11:08 | por Elka Andrello
divisão

Para quem vem para a Índia, recomendo comprar o guia “Lonely Planet Índia” e ler o livro “Holy Cow”, da australiana Sara MacDonald. No “Lonely Planet” você encontra boas informações sobre estadia, transporte, alimentação, hospitais e tudo que um viajante de primeira a décima viagem precisa saber. No livro “Holy Cow”, você encontra o que o “Lonely Planet” não fala, o lado B da Índia, e ainda morre de rir. Sara é jornalista e ex-dj de uma rádio na Australia, e narra as alegrias e roubadas durante o ano que viveu aqui com um super bom humor. Uma das histórias é sobre uma festa de casamento em Nova Deli e os eunucos penetras.

 

Hijras

Eunucos ou Hijras

 

Os eunucos, mais conhecidos como hijra, são famosos por serem barraqueiros. Eles chegam com tudo, principalmente em festas de casamento e de nascimento de uma criança do sexo masculino. As "monas" dançam, cantam e fazem a maior bagunça  para obrigar a família a pagar uma boa quantia em dinheiro para eles irem embora. Se a coitada da família não der o que eles pedem, as hijras chegam até a mostrar o órgão cortado para os convidados. Para não passar por maiores constrangimentos, a família aceita ser depenada, é uma forma de extorsão através do vexame. Achei essa história tão surreal que fui atrás dos eunucos penetras. E é isso mesmo.

As hijras são transexuais que podem ter os seus orgãos sexuais cortados ou não. Elas vivem a margem da sociedade indiana e não são considerados nem homem, nem mulher, mas “o terceiro sexo”. Elas andam em bando, todas montadas com saris super coloridos, muitas pulseiras e muita maquiagem. Como são discriminadas, o jeito que acharam para  ganhar  a vida é através da extorsão ou prostituição. O truque mais popular é baixar em festas de casamento.

 

 

E o mais incrível é que no final das contas as hijras são reverenciados como pessoas especiais, capazes tanto de trazer boa sorte e fertilidade, quanto má sorte. Isso porque aqui na Índia o povo é mais supersticioso e cheio de santos do que na Bahia. Os indianos acreditam que se as hijras ficam satisfeitas com o pagamento, elas dão uma benção que traz boa sorte e fertilidade, e se não ficam satisfeitas com o dinheiro,  jogam uma praga que pode durar por gerações. Por essas e outras, acho perfeito o símbolo que representa a Índia ser a flor de lotus. Do mesmo jeito que a flor de lotus, linda e delicada, nasce no lodo, a sabedoria floresce nos lugares mais sinistros e obscuros aqui na Índia. Tik he?

 

Tik he =  tudo bem, concordo, isso mesmo

 

 

divisão
  • Avaliar:(+2)  avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (3)comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
icone postado
Postado em 02.08.2009 | 11:10 | por Elka Andrello
divisão
 
Estou estudando um texto budista que fala sobre o sofrimento, tema clássico no budismo. Um dos tipos de sofrimento se chama “sofrimento sobre sofrimento” e basicamente quer dizer que as coisas sempre podem piorar. O que eu não imaginava é que iria receber uma aula prática sobre o tema!

2:30h. Madrugada. A Graziela acorda com febre. Justo hoje, dia que eu iria receber a minha primeira iniciação com o Dalai Lama.

9:00h. Lá fomos eu e a Tenzin, xará do Dalai Lama que se chama Tenzin Gyatsu e babá tibetana super fofa da Gra, atrás de um médico. Fomos  parar no Delek Hospital, em Macleod Ganji, hospital público dos refugiados tibetanos. O hospital é pequeno mas é organizado e limpo. As pessoas são antendidas duas ao mesmo tempo em uma salinha por médicos que não falam o melhor inglês do mundo. A Graziela para ajudar deu chilique, bateu no médico e se enroscou inteira no fio do meu ipod. O diagnóstico, bronquite, antibiótico e a recomendação de voltar no hospital para fazer uma inalação caso a Gra piorasse. Bye-bye iniciação com o Dalai Lama.

1:00h. Parecia que o Garfield estava dentro do peito da Gra. Madrugada, chuva, e acabou o crédito do meu telefone. Apelei e acordei a Gaía, minha vizinha brasileira. Todos os motoristas de taxi que a gente ligou não atenderam o telefone. Deixei para ligar por último para o taxista que eu tinha brigado e lógico que foi o único que atendeu e falou que não iria me levar para o hospital porque eu tinha reclamado que ele era caro. “Harrrri, pleaseeeee, this is an emerrrrrgency!!!!!” Putz, agora eu estava devendo um favor para o mais mala de todos. Peguei o telefone da Gaía emprestado. Fomos parados pela polícia no caminho do hospital. A porta do hospital estava trancada e tivemos que gritar para acordar o segurança (e todos os pacientes internados). O médico de plantão virou para mim e disse que não era pediatra e não sabia o que fazer pela Grá. A essa altura o Garfield estava fazendo a festa dentro do peitinho dela.  Pedi para o médico fazer uma inalação. A máquina de inalação parecia ser dos anos 50, mega barulhenta, e deve ter acordado o resto das pessoas. A Gra começou a chorar de medo da máquina. O médico entrou na sala  e falou que podia ser bronquite, asma, ou uma outra doença que fecha a garganta e asfixia a criança. Surtei e liguei para a minha mãe no Brasil acionar o seguro saúde internacional para levar a gente para outro hospital. O aparelho de inalação começou a soltar uma fumaça fedida e deu um curto circuito. Não sabia se a inalação estava ajudando ou sufocando a Gra. Super surtei e tive a “ótima” idéia de ir para o hospital Apolo em Nova Deli, 10 horas de carro de distância. A minha mãe, que já me conhece de outros carnavais, tentou me explicar que viajar para outro estado não era a melhor solução. Minha mãe tentou ligar para o pediatra no Brasil que não estava. Acabou o crédito do telefone da Gaía. O médico recomendou que eu fosse para casa e procurasse um pediatra no dia seguinte, virou as costas e foi embora. A enfermeira disse que não podia fazer nada para ajudar e foi dormir.

 3:30h. Fiquei sozinha com a Gra dentro do hospital. Todos os motoristas de taxi na frente do hospital estavam dormindo. Bati nos vidros dos carros e os *&#@ se recusaram acordar e levar a gente para casa. Voltou a chover.  Entrei no hospital, deitei a Gra na maca da sala de emergência e tentei dormir sentada. Consegui dormir, um homem começou a gemer de dor, acordei. Voltei a dormir, uma mulher começou a chorar de dor, acordei. Fiquei com muita pena das pessoas amontoadas em macas na sala ao lado, sem assistência nenhuma. Pensei: “Que &%##@ eu tô fazendo aqui na Índia!!! Bom, vim ficar perto do Dalai Lama e ele está nesse momento dormindo há dois quilometros daqui.“ Fechei o olho, respirei fundo e comecei uma conversa silenciosa com o Dalai Lama. “Poxa, olha só quanto sofrimento, todos esses tibetanos, povo que você ama tanto, e a gente aqui sofrendo.” Lembrei que ele passou o dia dando a iniciação de Yamantaka, uma deidade irada, protetor super poderoso. Pedi ajuda. Acalmei e dormi.

6:00h. Tá na hora desses motoristas acordarem. Quase quebrei o vidro dos carros e nenhum motorista se mexeu. Voltou a chover. Entrei com a Gra na padaria que tinha acabado de abrir. Pedi um tchai. Estava furiosa com os taxistas. Por um momento esqueci tudo que tinha aprendido sobre equanimidade e carma e que a minha chapinha fica destruída na chuva, baixou a pixadora da zona leste, saí na chuva e escrevi FUCKY YOU no vidro do taxi. Dois macacos caíram da árvore e começaram a brigar do meu lado. Entrei na padaria com o cabelo crespo, o rímel borrado e tomei o tchai. Consegui parar um taxi que estava passando na rua. A chuva piorou. Cheguei em casa feliz por não ter furado o pneu do carro e decidida a achar algum pediatra, hospital e um raio X. Dormi.

12:00h. A babá Tenzin chegou em casa com um embrulho para mim. Ela, sem saber de nada, acordou bem cedo e foi  até o templo do Dalai, falou com o segurança amigo dela e conseguiu conversar com a Sua Santidade. A fofa da Tenzin foi pedir para o Dalai Lama rezar para a Gra ficar boa e falou que a mãe (que nesse momento estava perto deles pixando carros e fugindo de macados, descabelada) estava muito preocupada.  O Dalai Lama deu na mão dela um saco de dutsis (pílulas sagradas tibetanas), falou para a Gra e para mim tomarmos uma de manhã e de noite, e do alto da sua imensa sabedoria disse o seguinte: “Fale para a mãe ficar calma, que a filha vai ficar bem. Ela não precisa se preocupar com nada e não deve levar a criança para nenhum hospital. Fale para ela ficar em casa” O Dalai Lama era a única pessoa do mundo que faria eu desistir de achar um pediatra, um hospital e um raio X e ficar em casa. Eu acalmei e a Gra sarou.

Não fiz a iniciação com o Dalai Lama dessa vez, mas me senti protegida pelo Yamantaka e abençoada pelo Tenzin Gyatso. O pacotinho amarelo com os dutsis que ele me deu ficam do lado da cama para me lembrar que se o sofrimento existe, milagres também acontecem.

 

Pilulas sagradas que o Dalai Lama me deu

Pílulas sagradas que o Dalai Lama me deu

 

Yamantaka, deidade budista

Yamantaka, deidade budista,

no British Museum

 

divisão
  • Avaliar:(+2)  avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (12)comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
icone postado
Postado em 23.07.2009 | 15:08 | por Elka Andrello
divisão
Começou com uma reclamação.

- “ Quero um desconto porque as outras estrelas que eu comprei desgrudaram e eu tive de colar tudo de novo”

 E o figura olha para mim com a maior calma (ou cara de pau, ainda não entendi muito bem qual é desses indianos).

- “Madammmmm, you have to do it verrrry shanti”.
 
Foi o suficiente para me desarmar! Ele podia ter falado slowly, easy, whatever, mas shanti foi a coisa mais fofa que eu poderia ter ouvido. Para quem não sabe, shanti é paz em hindi. E o indiano, que a essa altura já tinha virado meu amigo, me mostrou como eu tinha que mudar a minha atitude com as estrelas. Bom, deixa eu explicar. Eu me apaixonei por umas estrelas que são luminárias de papel com umas ilustrações bem bonitas. É quase hippy, mas eu acho bonito e sempre que vou para Macleod Ganji não resisto e compro mais uma. Perguntei para o meu “super amigo” Hilal quem fazia as estrelas.

 

Luminária de estrela

Luminária de estrela que o Hilal garante que é criação dele


- “Madammmm, eu criei as estrelas para fazerem companhia para o sol e a lua porque o céu precisa ser completo”. 

- “Hãaaaaa? Como assim? Tem luminária de sol e lua? Cadê o sol?”

 

- “Primeiro eu criei o sol. Estava passando inverno na Escandinávia, sabe que lá no inverno é sempre noite, e num passeio pela floresta esse sol apareceu no meio das árvores.  Achei tão lindo que criei um tapete de sol. Faz 13 anos que vendo tapetes com esse desenho e todo ano mudo um pouco as cores porque a luz não pode ser sempre igual.”

 

Por do sol na Escandinávia

Por do sol na Escandinávia

Tapete de sol

Tapete de sol


Ou ele estava falando sério ou eu acredito em tudo que me contam.

- “A lua é bordada em tecidos menores e criei as estrelas de papel porque o sol precisa da lua e das estrelas. Exporto para vários países. Patenteei a idéia mas tem um monte de gente que copia, até os chineses, você sabe, tem muita competição entre China e Índia. Como aqui na Índia não existe lei para proteger a criação do artista, não recebo royalties. Todo esse trabalho é feito pela minha família que vem de Srinagar, na Caxemira. Sou da terceira geração de artistas, minha avó faz pachiminas.

- “Nossa, que legal. E você vai ensinar como fazer o céu para os seus filhos?”

- “Não, madddammmmm , eu vou mandar eles para a faculdade para estudar comércio exterior. Quero que eles tenham educação, vida de artista é muito difícil.”

- “Entendi. E quanto você vai me dar de desconto pela estrela?”

 

Não sei se foi ter passado a manhã com o Karmapa em uma audiência privada, a tarde do lado do Dalai Lama ouvindo a voz dele no microfone dando ensinamentos, ou efeito colateral do remédio de alergia, mas acho que a Índia tá batendo. Shaaaaannnntiiiiii para vocês também.

Hilal e eu na sua loja em Macleod Ganji

Hilal e eu na sua loja em Macleod Ganji

 

Hilal Groora tem 28 anos e ganha a vida explorando o céu. Se você gostou do trabalho dele, escreva para sfe786@hotmail.com.

divisão
  • Avaliar:(+6)  avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (3)comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
icone postado
Postado em 20.07.2009 | 13:07 | por Elka Andrello
divisão

O Marião sempre foi o mais animado de todos. No natal arrasava dançando tango com a tia Celinha, já era uma tradição, depois da troca de presentes, som na caixa e o presente do Marião para toda família, seu tango e sua alegria! Perfeito nono italiano, nunca perdeu uma piada, eu particularmente gosto de ouvir as histórias das piadas que ele contava em velórios, na minha opinião uma pessoa que expressa alegria num velório merece respeito. Mandou bem no futebol também, fez história como dirigente do Juventus. Entre suas memórias e relíquias, guardou o ingresso do jogo Palmeiras x Coritiba, que inaugurou o Pacambú em 1940.

 

juventus

O charmoso Juventus e o Marião

ingresso

Ingresso do jogo de inauguração do Pacambú, em 1940

 

 

O que eu achava muito impressionante era a sua habilidade para consertar relógios. Podia ser antigo, com cuco, de pulso, Cartier ou paraguaiao, ele acertava os ponteiros de qualquer um. E eu acho que o Marião sempre entendeu bem como o tempo funciona. Ele não perdia tempo com tristezas e sempre se adiantava em levar alegria para quem estivesse perto dele. E quando chegou a hora de ele se despedir dessa vida, fez com precisão e elegância digna de um Rolex, sem sofrer, em paz com a família.

 

marios natal

Mário Previato e Mário Previato Jr, Marião e Marinho.

O nono conta piada na festa de Natal.

 

 

O Mário Previato é pai do meu padrasto, que casou com a minha mãe quando eu era bem pequena e escolheu ser meu pai. Então posso dizer que ele era meu avô também. Sempre que me encontrava, me dava um abraço e falava com jeitão de italiano: “Oi Érrrrca, tudo bem lindaaa!!” De todos que me chamaram de “Érrrcaa”, ele foi o único que eu nunca fiquei brava. A alegria do Marião sempre me conquistou. Essa manhã quando recebi a notícia da sua morte comecei a chorar e fiquei muito triste por estar na Índia tão longe da minha família. Meu pai falou que ele pediu para ninguém ficar triste. Tudo bem Marião, a "Érrrca" aqui vai lembrar que a vida passa e aproveitar o tempo aqui com alegria!

Vídeo do Marião dançando tango com minha mãe e a Dedê tocando acordeão

divisão
  • Avaliar:(0)  avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (13)comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
icone postado
Postado em 24.06.2009 | 18:07 | por Elka Andrello
divisão
Como paulistana bem nascida, nunca tive problemas, vantagens ou desvantagens por ser mulher, e sempre achei essa conversa de feminismo chata e fora de moda. Bom, tinha essa opinião porque não tinha olhado além do meu umbigo furado com piercing. Não quero levantar nenhuma bandeira, honestamente não acredito que reclamar seja a melhor solução, prefiro Keep Going e mão na massa, mas viver aqui na Índia me fez repensar nas delícias e dores de ser mulher.

JETSUNMA TENZIN PALMO

Acabei de ler um livro incrível, daqueles que você fica com saudades quando termina de ler. “Cave in the snow”, da autora inglesa Vicki Mackenzie, conta a história da inglesa Diane Perry, fã de Bob Dylan, sapato de salto agulha e tiramissu, uma mulher incrível que mora aqui perto, na Índia, e eu estou contando os dias para conhecer. Diane foi a segunda ocidental na história a se tornar monja budista recebendo o nome de Tenzin Palmo. Mudou para a Índia no começo dos anos 60 e foi barrada para receber os mesmos ensinamentos que os monges com o argumento que o corpo da mulher era inferior ao do homem e por isso ela não teria acesso aos ensinamentos mais elevados. Ela engoliu sapo por 6 anos, se mandou para uma caverna no Himalaia a 4 mil metros de altitude e fez 12 ANOS de retiro solitário, sobrevivendo a uma avalanche, frio e fome. Saiu linda e forte para mudar a história, o Dalai Lama é um dos seus admiradores hoje. Ela é a maior feminista que eu conheço, uma espécie de ativista espiritual, e fez o voto de alcançar a iluminação na forma de mulher. Posso até soar empolgada com a Jetsunma Tenzin Palmo, mas a história dela é demais mesmo.

 

Dalai Lama e Jetsunma Tenzin Palmo

Dalai Lama e Jetsunma Tenzin Palmo

 

 

 

Tenzin Palmo na frente da caverna, há 4 mil metros de altura, onde fez retiro solitário por 12 anos.

Tenzin Palmo na frente da caverna no Himalaia, a 4 mil metros de altitude, onde fez retiro solitário por 12 anos


 

 MINHAS VIZINHAS MONJAS

Sou vizinha de um monastério de monjas, a nunnery Dolma Ling. Do quintal daqui de casa dá para ver o quintal das monjas e sempre passo para uma visita. A vibe é muito feminina, tem uma leveza no ar, é uma delícia ficar perto delas. As monjas do Dolma Ling são umas das mulheres pioneiras no debate, prática tradicional entre os monges homens budistas. Infelizmente, não é incomum ser reservado para as mulheres o trabalho na cozinha, sentar atrás dos monges, receber alimento só depois que os homens são servidos. Já as minhas vizinhas monjas mandam ver no debate, prática tradicinal onde um monge(a) pergunta e o(a) outro(a) responde. Começa com suavidade e vai esquentando até virar uma gritaria. Quem vê de fora, pensa que elas estão brigando. O debate é uma prática de alto nível intelectual e serve para deixar a mente e a língua afiada.

 

Vista do monastério Dolma Lingdo quintal de casa

Vista do monastério Dolma Ling daqui do quintal de casa

 

 

 

Monjas debatem em monastério em Siddhpur, Índia

Monjas debatem em monastério, Siddhpur, Índia

 

 

 

Monjas debatem em monastério em Siddhpur, Índia

Monjas debatem em monastério em Siddhpur, Índia

 

MULHERES INDIANAS

Aqui na Índia a situação das mulheres é dramática. Para começar existem campanhas para evitar o fetocídio feminino. Sim, as famílias preferem abortar as menininhas para não ter de desembolsar o dote para a infeliz casar com alguém que a família escolher, geralmente um homem mais velho que faz ela de empregada. Além da campanha contra o fetocídio feminino, tem campanhas para ajudar as mulheres vítimas de ataque de ácido. Por mais bizarro e absurdo que isso possa soar, mulheres no sul da Ásia ficam deformadas depois de serem atacadas com ácido no rosto e no corpo (inclusive a mulher de um ex-primeiro ministro da Índia). Tem também as mulheres vítimas de ataques com gás. É assim, a sogra ou o marido, descontentes com a falta de dinheiro, ao invés de pedir um empréstimo no banco deixam o gás ligado para explodir na cara na nora quando ela vai cozinhar. Assim o feliz viúvo fica livre para embolsar o dote da futura esposa. As mulheres indianas são cidadãs de segunda classe, sem voz ou direitos. Ninguém me contou, eu vejo isso todo dia.

Haseena Hussain

Haseena Hussain foi atacada com ácido pelo ex-chefe por recusar seu pedido de casamento

Jayalakshmi

Jayalakshmi, mais uma mulher na Índia vítima de ataque de ácido

Por essas e outras, fico feliz quando topo com histórias de mulheres como a Tenzin Palmo e minhas vizinhas monjas, que conseguiram passar por cima das dificuldades, por mais gigantes que pareçam. Vida longa às mulheres carecas, de mullet, chapinha, oxigenadas, de sari, burka, peruca e descabeladas!

divisão
  • Avaliar:(+1)  avaliar mais   avaliar menos
  • favoritar
  • favoritar
  • ler depois
  • ler depois
  • imprimir
  • imprimir
  • comentários
  • (7)comentários
  • fechar janela
    Você precisa estar logado para realizar esta operação
    Entrar
CATEGORIAS

 


ARQUIVO
Páginas: 1 | 2 | 3  próximo »
TAGS