Revista TPM

 
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Postado em 23.04.2012 | 00:04 | Mariana Perroni
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Rafaela Justus

Rafaela Justus

Ok. Esqueçam a biologia. Esqueçam a bagunça da mitose e da meiose. Imagino que o cursinho/colegial já tenha ficado no passado (assim como falar "colegial"). Vou tentar explicar de um jeito bem simples:
 
Assim como no início de A Hora da Estrela, a vida começa quando uma célula diz "sim" à outra. O óvulo diz sim para o espermatozóide e ocorre a união dos 23 cromossomos de cada um deles, pareando-se e formando a primeira célula de um ser humano. Desde então, ocorre uma sucessão exponencial de SIMs de uma célula para dar origem à  outra... formam-se duas, quatro, oito, dezesseis células... E assim por diante. Daí, tudo começa a ficar um pouco mais complexo. Chega a hora de se diferenciar. Aquilo que era só um sim, incorpora um gigantesco jogo de telefone-sem-fio, em que a mensagem é ditada pelo código genético: cada célula diz o que ativar e o que desativar de forma a dar origem às outras que vão constituir os diferentes órgãos e sistemas do corpo humano. Um processo que se repete até chegar nos 100 trilhões de células, de diferentes tipos, que formam, em média, uma pessoa. E que garante que continuemos vivos.
 
Quem ainda lembra que foi criança e brincou de telefone-sem-fio sabe que erros ocorrem e naturalmente a mensagem acaba chegando com, pelo menos, alguma alteração ao fim da brincadeira. Algo análogo ao que ocorre com tarefas delegadas a muita gente ou trocas muito longas de emails corporativos. Afinal, se a gente consegue fazer besteira em um dia corrido no emprego, imagine um organismo composto de 100 trilhões de células. E isso é normal. Erros são esperados. São as consequências deles no organismo que variam para os dois extremos: do mesmo jeito que eles podem resultar em uma pinta/manchinha feia ou num nariz "forte" para os padrões estéticos, também podem acarretar em alguma alteração incompatível com a vida, como a anencefalia que foi alvo de uma exaustiva e nauseante discussão na semana passada. No caso da filha do Roberto Justus, um desses erros acarretou em uma alteração no desenvolvimento dos ossos do crânio. 
 
Não sei se ela tem síndrome alguma e, honestamente, não importa. Ela é, sim, uma criança normal, com um desenvolvimento cognitivo e motor compatíveis com sua idade, como seu pai precisou atestar à imprensa ontem, numa tentativa de acabar com tanta especulação. Talvez ela só não seja comum, por conta de sua malformação crânio-facial. Malformação essa que tem correção, ao contrário da estupidez e falta de conhecimento/sensibilidade demonstradas pela mídia, que fomenta a discussão sobre a "normalidade" da filha do Justus, e por quem criou um perfil no Twitter para tirar sarro dela. E pelas quase 35 mil pessoas que, seja pelo motivo que for, seguem-no, acham graça e fazem a menina virar assunto, de rede social a mesa de bar. Infelizmente, pra isso ainda não tem remédio. Nem com pílula, nem com cirurgia.
 
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Postado em 17.04.2012 | 13:04 | Mariana Perroni
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Lembro-me de, há alguns anos, ter assistido a um episódio de House em que a ex-mulher dele fez uma das comparações mais geniais para defini-lo e ilustrar a dinâmica do relacionamento que os dois tinham. Se não me engano, após alguns segundos de silêncio durante uma conversa, ela olhava para ele e dizia que ele era como: curry. Ao notar sua expressão de interrogação perfeitamente misturada com sarcasmo, ela continuava: 

 "Você é abrasivo, irritante e áspero demais na hora em que quer se aproximar... que nem curry. Isso é legal quando se está morrendo de vontade de comer curry. Mas não importa o quanto você ame o molho, se você comer demais, machuca a boca e até faz mal. Daí a gente fica sem querer comer curry de novo por um bom tempo... até aquele dia em que você acorda e pensa 'nossa, que vontade de curry!'" 
 
Provavelmente, nada disso fez sentido para ninguém que está lendo até agora. Mas, como o show está ficando próximo e preciso decidir se pagarei o extorsivo preço para vê-lo, pensei que minha relação com o Bob Dylan é exatamente assim. Apesar das músicas dele terem marcado importantes épocas da minha vida, tem dias que sinto como se ouvir sua voz correspondesse a pegar meus tímpanos com uma pinça e raspá-los no asfalto. E dias em que o "folk de protesto" dele me parece irritante e exagerado. Já, algum tempo depois, simplesmente tenho uma vontade incontrolável de dirigir em direção à praia ao som de Freewheelin' ou me flagro assoviando "I Shall Be Released" após tomar alguma porrada da vida.
 
Talvez tenha sido por isso que me incomodei tanto ao me deparar com essa reportagem em que um médico especialista afirma que ele "sofre de fadiga na voz e precisa reaprender a cantar". Segundo o médico do Zezé Di Camargo e do Galvão Bueno, depois de anos  cantando "sem técnica", o Sr. Dylan, o segundo maior artista de todos os tempos, ganhador de Grammy, Golden Globe, Oscar e lugar no Rock and Roll Hall Of Fame precisaria "reaprender a cantar em um intensivão de pelo menos três meses" se quiser melhorar sua voz. E ilustrou isso com os casos dos outros dois famosos acima, que já foram seus pacientes e autorizaram (espero) que seus nomes e diagnósticos (e até fungos) fossem expostos num portal de notícias dessa magnitude.
 
Como a própria reportagem diz, o debate em torno da voz do Bob Dylan é tão antigo quanto aquele em torno de suas letras de protesto. "lixa cantando", "mistura de cola e areia", "nasal"... foram inúmeras as tentativas de caracterização. Sempre sem sucesso. Até porque, na minha opinião, a única definição que cabe é voz-de-bob-dylan. Goste ou não. Ouça ou fuja dela. Ou, como no meu caso, ouça E fuja dela. Em momentos diferentes.
 
Sendo assim, por mais graduado, famoso e especializado que se possa ser, não consigo entender como é possível propor um "conserto" para a voz de alguém que já influenciou (e continua a influenciar) incontáveis músicos, movimentos políticos e gerações utilizando-se exatamente de suas particularidades. E, o pior, que não pediu opinião médica. Na minha cabeça, não deixa de ser uma versão um pouco mais sofisticada daquele costume dos senhores de meia-idade e circunferência abdominal gigantesca se juntarem com o copo de cerveja na mão para debater como o craque de 23 anos deveria ter chutado a bola ou feito o drible para não perder o gol. 
 
De qualquer forma, sei que sou só uma médica de 29 anos, de uma especialidade que pode até prejudicar vozes (ah, os tubos orotraqueais...) e que ainda precisa de "muita experiência nessa vida". Mesmo assim, eu também tenho a minha cópia do Juramento de Hipócrates, a qual leio com uma certa frequência. E quando ele insiste em caracterizar a medicina como uma arte, sempre me pergunto se, salvo em caso de urgência/emergência, mais do que fazer diagnósticos e propor tratamentos, essa "arte" não seria a capacidade de ficar na sua e respeitar a vontade do paciente, estando sempre pronto e disposto a ajudar com todo o conhecimento disponível. Quando solicitado.
 
Talvez eu nunca chegue a uma resposta para essa pergunta. Mas, se eu pudesse chutar uma, certamente seria: the answer, my friend, is blowin' in the wind... the answer is blowin' in the wind...

meu Twitter: @mperroni
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Postado em 04.04.2012 | 19:04 | Mariana Perroni
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Domingo eu acordei com uma grávida me solicitando uma receita de isotretinoína, o princípio ativo do Accutane/Roacutan, porque seus comprimidos haviam acabado e, segundo ela, "grávida espinhenta não dá, né?". Instantaneamente, tive que buscar meus olhos no chão, porque eles já tinham pulado das órbitas ao terminar de ler esse pedido numa DM no meu Twitter. Não sou obstetra, nem dermatologista, mas é de conhecimento praticamente geral (nunca dá pra falar q algo é 100% quando envolve pessoas) que a isotretinoína é uma das substâncias mais teratogênicas (mediquês para tudo aquilo capaz de causar dano ao feto durante a gestação) que existem.

Enquanto ela tentava me convencer de que tomar só um comprimido por dia não devia ter problema e que a amiga que indicou o remédio para ela nunca teria coragem de sugerir algo que fizesse mal, tentando contrapor qualquer argumento que eu dava, eu sentia uma vontade cada vez maior de golpear a parede com minha cabeça numa tentativa de fazer passar a cefaléia que a conversa estava me causando. Quando eu estava praticamente me levantando para colocar isso em prática, com a graça dos céus, ela me mandou um link para provar o que estava dizendo. O mesmo me direcionava a uma página me lembrando de que era 1o de abril. *suspiro aliviado*
 
Ao mesmo tempo em que ri de mim mesma e me senti naquele programa da MTV que o Ashton Kutcher apresentava, o Punkd, eu lembrei de uma palestra que vi no TED. Sobre mentiras e como detectá-las. Lembrei que ouvimos de 10 a 200 mentiras ao longo de um dia. Que, pelo menos, três mentiras são contadas nos primeiros 10 minutos em que duas pessoas estão se conhecendo. Lembrei-me de que extrovertidos mentem mais que introvertidos. E que homens mentem mais sobre si mesmos. Enquanto as mulheres mentem mais para proteger alguém. E, o mais alarmante: quem tem um relacionamento sério mente para seu/sua cônjuge em uma a cada dez interações. Quem é solteiro, mente em uma a cada três.
 
Ok. Eu sei  que a maioria das mentiras são bobas... algo como responder "tudo", automaticamente, quando alguém vem no sentido oposto ao seu no corredor e, ao te ver, lança um "Oi, tudo bem?". Só por convenção social mesmo, porque imagino que 95% das pessoas (mãe e amigos excluídos aqui) não estejam realmente interessadas na sua resposta quando fazem a pergunta. Ou se diz "tudo bem" quando um chefe solicita que você fique no trabalho até mais tarde para terminar um relatório que, na verdade, ele(a) deveria ter feito. Sei que tudo isso é feito em nome de um convívio em sociedade harmônico, pelo menos na superfície. Ainda assim, nesse último primeiro de abril foi impossível deixar de questionar o porquê de termos um dia da mentira quando já vivemos os 365 (ou 366) dias do ano com elas.
 
Que fique claro: Não estou sugerindo que ninguém comece a viver como es estivesse no (ótimo, por sinal) filme The Invention of Lying, muito menos fazendo apologia à grosseria gratuita e ao egoísmo. Ninguém tem que dissecar e expor tudo o que incomoda em cada pessoa que cruza seu caminho, nem fazer oversharing no twitter (ou ao vivo). Só acho que todos devíamos ter, pelo menos, um Dia da Verdade Particular. Para que, ao menos uma vez, pudéssemos parar com o "tudo bem" internalizado e encarássemos nossas próprias realidades. Só assim é possível fugir de dois dos cinco arrependimentos mais agoniantes e comuns do leito de morte: o "Eu gostaria de ter tido a coragem de expressar meus sentimentos" e o "Eu queria ter vivido uma vida que me satisfizesse, ao invés daquela que as pessoas esperavam de mim".
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Postado em 29.03.2012 | 10:03 | Mariana Perroni
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Sempre que chega aquele momento em que eu preciso dar uma notícia ruim a familiares de um paciente, eu tenho a mesma impressão. Não importa se é sobre o comprometimento agudo que os rins sofreram ou a limitação do pulmão em oxigenar o sangue. A partir do momento em que aquelas pessoas, ansiosas por informações, constatam que o que preciso dizer não é bom, acontece sempre a mesma coisa: eu simplesmente deixo de existir.
 
Sinto que, para eles, minha voz vai ficando progressivamente mais baixa e distante, até desaparecer. Que nem a gente vê naquelas clássicas cenas de filme, quando o personagem ouve ou presencia algo perturbador e a boca do interlocutor, instantaneamente, passar a se mover em câmera lenta, sem que som algum saia dela. Ou então me torno algo como a professora do Charlie Brown. Por mais que eu tente explicar tudo com a maior clareza, cronologia e objetividade possíveis, a pessoa não está mais ouvindo.
 
Tentei contornar isso com várias estratégias: ir contando gradativamente os eventos que se sucederam até chegar no ápice da piora (algo meio "o gato subiu no telhado/ o gato chegou perto da borda do telhado/ o gato perdeu o equilíbrio") já provou não funcionar. Os familiares ficam tão ansiosos para que você chegue logo no desfecho, que não se concentram. Foram frequentes as vezes em que fui interrompida por um "fala logo o que aconteceu, doutora!" ou então "Ai meu Deus,  isso quer dizer que ele piorou?!". Também já tentei começar pelo desfecho e, em seguida, contar como ele ocorreu. Também sem sucesso. Depois que você disse que ele parou de respirar e teve que ser entubado, não adianta querer explicar o que levou a isso. A gravidade e a chance enorme de "acontecer o pior" já estão definidas. Pouco importa, naqueles segundos, explicar como ocorreu. Pedir para a pessoa sentar antes que eu comece a falar? Também já testei. Catastrófico. Além da pessoa se recusar prontamente a sentar, aumenta a ansiedade, gerando o "Por quê?! Ele tá ruim? O que houve? Fala logo, por favor!".
 
Confesso que ainda não achei a forma ideal. Afinal, o que pode haver de ideal em se comunicar algo que marcará negativamente a vida de toda uma família? Mas cheguei num meio-termo. Tenho optado por começar essas conversas dizendo que, infelizmente, a notícia que preciso dar não é boa. Isso me compra alguns segundos para dizer algumas palavras-chave, antes que minha voz suma de vez para eles. E das quais se lembrarão quando a negação diminuir, começarem a processar o ocorrido e voltarem para falar comigo de novo durante o próximo horário de visita.
 
Engraçado como, durante a formação médica, ninguém fala sobre isso, muito menos sobre o quão frequente é. Não me levem a mal, eu tive aulas de psicologia médica e aprendi direitinho os cinco estágios do luto que a Elizabeth Kubler-Ross descreveu. Só que, em seis anos de faculdade, dois de residência de clínica médica e, principalmente, dois de residência de Terapia Intensiva, ninguém me falou daqueles segundos que são o gatilho para início de toda essa cascata. Ninguém chegou do meu lado e perguntou se eu tinha alguma idéia ou o savoir-faire de como dar notícias ruins a alguém. Falha da formação? Talvez sim. Talvez não. Talvez nenhum de nós tenha uma receita. Médicos são silenciosamente doutrinados a acreditar que complicações são falhas e a morte é derrota. 
 
Para familiares e amigos de pacientes, o desconforto é ainda maior. Mesmo que a certeza do fim seja a única que temos desde o nascimento, a morte e/ou eventos que podem levar a ela são invariavelmente chocantes. Sempre vêm como surpresa. Com 21 ou 93 anos, por mais que pareça clichê, todo mundo acha que sempre terá mais tempo, seja para o que for: fazer as pazes, concretizar a viagem sobre a qual sempre se falou, telefonar mais... não importa. E não há palavra ou estratégia capaz de amenizar o desalento que a constatação do contrário causa. 
 
Duvido muito que, algum dia, eu vá encontrar uma receita mágica para essas conversas decisivas ou mesmo me acostumar com elas. Afinal, além de médica, sou filha, irmã, amiga e namorada também. E essas coisas não desaparecem quando se veste um jaleco. Na verdade, falei isso tudo porque, quanto mais penso sobre o assunto, chego à conclusão de que eu não salvo vidas. Honestamente, não sei se alguém é capaz disso (os bombeiros, quem sabe...). A cada dia, fica mais claro  que o tento fazer, utilizando-me de todo meu conhecimento e empenho, é prolongar sua vida o máximo que eu puder. Para que você mesmo possa salvá-la, sendo fiel às suas convicções, ao que/quem ama e ao que te faz bem, antes que as cortinas se fechem de vez.
 
-meu Twitter: @mperroni
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Postado em 20.03.2012 | 13:03 | Mariana Perroni
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Vi hoje, aqui na Tpm, a artista plástica paulistana Alessandra Cestac comentar sobre um de seus trabalho, que espalha imagens com temática de loucura pelas ruas de São Paulo e dizer que “Você acha que a cidade não te faz mal, mas começa a ficar estressado, sua mente se debilita. E ninguém fala sobre isso. Não há preocupação com a saúde mental”. 

 

Preciso dizer que eu já partilho da mesma opinião que ela há muito tempo. Apesar de ser apaixonada por tudo o que São Paulo oferece em termos de cultura, gastronomia e entretenimento, sempre achei impossível que o fato de viver nesse formigueiro caótico pudesse ser algo saudável.Entretanto, como fui criada em uma cidade pequena (mas de nome grande) que pára quando o trem passa ou quando alguma vaca ou cavalo perdidos decidem cruzar uma rua, meu ponto de vista sempre foi meio suspeito... Até a metade do ano passado. Foi quando a Nature publicou os resultados nada surpreendentes (pelo menos para mim e para a Alessandra) de um estudo alemão. O que esse estudo dizia? Que viver em grandes centros urbanos, como São Paulo e Nova Iorque, é prejudicial à saúde mental.

A pesquisa revelou que pessoas que passaram a infância em cidades grandes têm chance três vezes maior de desenvolverem esquizofrenia. E, só para ajudar, mesmo que, assim como eu, você não tenha sido criado em cidades como essas,  só o  fato de morar em grandes centros aumenta em 21% o risco de distúrbios de ansiedade e em 39% o risco de distúrbios do humor, em comparação à vida no campo.

Posso estar errada, mas, sinceramente, duvido que qualquer pessoa que tenha lido meu texto até aqui esteja procurando o próprio queixo caído no chão. Não consigo imaginar que algum ser humano considere saudável acordar às 4h30 da manhã, tomar café na barraquinha da rua, perder de três a quatro horas diariamente no trânsito, degladiar-se no ambiente de trabalho com 357 outros que querem sua vaga (mesmo que com um salário questionável), não ter tempo pra se exercitar ou comer direito e voltar para casa escutando o Datena falar de marido escalpelando mulher e bêbado atropelando idosos na rua. Tudo para dormir umas 5 horas por noite, acordar e fazer tudo de novo no dia seguinte, enquanto a Terra dá mais uma volta ao redor de si mesma.

Mesmo que a pesquisa tenha sido realizado com uma amostra pequena (apenas 32 indivíduos) e que novos estudos ainda sejam necessários para que se chegue a conclusões definitivas, já o considero extremamente válido ao apontar holofotes para esses comportamentos nada fisiológicos que, por conta das irreais necessidades da vida moderna, começaram a se tornar normas inquestionáveis e tácitas. Se não começarmos a repensar essas questões, logo o Criolo precisará atualizar seus versos e cantar que não existe amor nem sanidade em SP.

-meu Twitter: @mperroni

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