Revista TPM

icone postado
Postado em 07.05.2013 | 12:05 | Mariana Perroni

 

Já tem um considerável tempo que me incomodo (e até tiro sarro na página do meu blog no Facebook) com os absurdos médicos veiculados pela mídia de diversos portais grandes, sem que os responsáveis por redigí-las dignem-se a, ao menos, pesquisar se os termos que citam em suas matérias existem.
 
São "paradas estomacais", "meningites benignas" e "mortes por parada cardíaca" dentre diversas outras pérolas capazes de fazer qualquer médico, ou mesmo qualquer pessoa com acesso ao botão de busca do Google dar boas risadas. Até aí, tudo bem. Isso acaba gerando divertidas discussões em minha página e, indiretamente, esclarecimentos. Evitando que conceitos errados sejam propagados.
 
Entretanto, minhas risadas acabam se transformando em bode e irritação consideráveis quando ultrapassa-se o limite do senso crítico. Quando são jogadas ao vento (des)informações que podem impactar direta e negativamente na saúde e qualidade de vida de um ser humano. 
 
Há um motivo pelo qual estou falando isso. Hoje, tanto no Twitter como no Facebook, diversas pessoas me mostraram uma matéria de uma famosa revista de moda que prega o jejum como método revolucionário de emagrecimento e "detox"do organismo. Antes que eu prossiga, é necessário dizer que o texto até já até sofreu algumas edições desde a primeira vez que o li (ontem de manhã), visando, provavelmente, limitar o absurdo veiculado e aplacar a repercussão nas mídias sociais. Por conta disso, pode haver quem ache que meus argumentos não condizem com o que está escrito (agora) lá.
 
Confesso que não sei nem por onde começar a expressar minha opinião. Não sei se rebato evolutiva e historicamente, argumentando que todo o desenvolvimento da humanidade acabou ocorrendo exatamente para garantir o acesso cada vez mais fácil ao alimento, a necessidade primária de qualquer ser vivo. E que os nossos ancestrais das cavernas devem estar rolando de rir ao ouvir algo desse tipo em 2013.
 
Também não sei se critico o fato de uma matéria usar como embasamento para a "prática" as  experiências e relatos de personalidades famosas ao invés de ciência, com resultados de trabalhosas metanálises e ensaios clínicos randomizados.
 
Tampouco sei se abordo a apologia à anorexia e a utopia do inatingível corpo perfeito, magro e lisinho, e as consequências psicológicas (e psiquiátricas até) disso. Ou o desrespeito com o problema da fome em diversas nações.
 
Dessa forma, vou me limitar a falar o que sei: a parte médica da coisa. E ela é bem simples: Para cada sistema que compõe o organismo funcionar, é necessário glicose. A glicose vem de onde? Da alimentação. Seja ela com carboidratos, gorduras ou proteínas. 
 
O jejum, em sua definição clássica e absoluta, consiste em não ingerir nada por um período determinado de tempo. Nem água, nem líquidos. Se você não ingere nada, seu organismo vai arrumar um jeito de tirar a glicose que necessita de outros lugares. Primeiro, ele vai diminuir as taxas de seu metabolismo, de forma a precisar de menos energia. Se, nesse meio tempo, você ainda não ingerir nada, ele irá atrás de três depósitos: o glicogênio, as proteínas e as gorduras. Isso mesmo, lamento informar mas ele não vai de cara atrás das gorduras. Demora. 
 
Se uma pessoa saudável tem a abençoada idéia de fazer jejum por um ou dois dias, ela vai sentir náuseas, mal-estar, visão turva e pode até desmaiar em nome de cumprir seu jejum (afinal, com ele vem a hipoglicemia). Mas pouca coisa vai ocorrer além de uma perda considerável de água e irrisória de peso. Entretanto, se alguém com problemas cardíacos, nos rins, fígado, imunidade comprometida ou diabetes tentar isso, as consequências podem ser bastante graves. 
 
E o poder de desintoxicação do jejum? Bom, isso não tem base científica alguma. Por quê? Porque os centros de detox do organismo são o fígado e os rins. São eles que jogam fora todas as porcarias circulantes. Só que, infelizmente, eles são incapazes de funcionar adequadamente sem combustível (glicose).
 
Além do mais, por que a gente quer se desintoxicar das gorduras insaturadas, corantes, carcinógenos e carboidratos complexos que ingerimos? Não faz mais sentido trocá-los por alimentos mais saudáveis e, dessa forma, evitar que a gordura se acumule dentro de nossas artérias e tenhamos AVCs, infartos e cânceres?
 
Enfim, o que realmente tem que ficar desse meu desabafo vai além do esclarecimento fisiopatológico. Eu defendo a necessidade de pesquisa em fontes adequadas de informação ou consultoria com especialistas antes de veicular informações com potencial de impactar diretamente na saúde de leitores mais influenciáveis e de causar diversos desentendimentos no pronto-socorro ("mas eu li na revista/ vi no Fantástico").
 
Enquanto a mídia não parar de tratar temas médicos com a mesma abordagem que usada para divulgar o lançamento da nova coleção do Jimmy Choo, não vão ser apenas as barrigas que se tornarão negativas: a repercussão também. 
 
**Mariana Perroni é médica clínica e intensivista. Atua em consultório e UTIs de São Paulo-SP
 
Página do blog no Facebook
twitter: @mperroni
divisão
icone postado
Postado em 08.02.2013 | 12:02 | Mariana Perroni

 

 
Sei que essa época é mais uma daquelas do ano em que a felicidade é compulsória. É obrigatório estar feliz, empolgado e postando foto de sambódromo ou bloquinho  de rua no Instagram (não tem graça ser feliz se não der para mostrar para os outros) e curtir como se não houvesse amanhã. Afinal, não me leve a mal, hoje é carnaval. Nesse contexto, o álcool acaba tendo papel importante. Seus efeitos de euforia acabam sendo o recurso utilizado para que as pessoas se empolguem, mantenham-se empolgadas ou combatam o tédio gerado pela obrigação de curtir.  Só que o amanhã sempre chega. E, particularmente no caso do Carnaval, geralmente acompanhado de uma terrível ressaca. Moral ou de bebedeira.
 
Da moral, eu não tenho formação para falar. Sendo assim, vou me limitar a discutir a que estudei, que é aquela decorrente da ingestão abusiva de álcool. Porque eu sei que, particularmente nesse feriado, surgem os mitos e receitas absurdas de amigos/conhecidos para combater ou evitar a ressaca. Assim, o texto de hoje vai ser um pouco diferente. Vai ser uma espécie de Guia Eterno de Manejo da Ressaca Sem Fim. Comecemos: 
 
Dica INFALÍVEL para evitar ressaca no carnaval: Não beba em excesso
 
Isso mesmo: não tem mágica. Abusou? Infelizmente, seu organismo vai sentir. Especialmente o fígado, estômago, intestino e cabeça.
Dessa forma, as únicas coisa que eu posso recomendar para "prevenir" (coloco o verbo entre aspas porque isso só vai funcionar se você não abusar) a ressaca são: 
 
-Ir para a festa bastante hidratada e, entre um drink e outro, ingerir água ou um suco. Porque o álcool desidrata (pense em quantas vezes você vai ao banheiro quando bebe...) e é exatamente essa desidratação que causa a terrível dor de cabeça do dia seguinte.
 
-Consumir comidas gordurosas antes de sair ou no mesmo momento em que estiver bebendo. Pois elas diminuem a velocidade de absorção do álcool pelo organismo e, consequentemente, seus efeitos maléficos. Mas daí fica a seu critério: elas podem ajudar na ressaca mas não na cintura e no culote. Ainda mais se você considerar que já estará ingerindo o álcool (que, sozinho, já é extremamente calórico) e o açúcar que adoça as caipirinhas que você vai beber.
 
Não teve jeito: abusou e está de ressaca?
 
Antes de qualquer coisa, não existe "remédio para ressaca", apenas para combater os sintomas dela enquanto o fígado se encarrega de limpar a bagunça que você fez e metabolizar tudo o que você ingeriu.
 

-Se for tomar alguma coisa para a clássica dor de cabeça, evite aspirina e analgésicos à base de paracetamol. A aspirina, porque ela é irritante para a mucosa do estômago, que já foi agredido pelo álcool. O raciocínio para o paracetamol é parecido. Ele é um medicamento que, apesar de excelente para tratar dor, agride o fígado. E o seu já vai estar agredido em decorrência do abuso de álcool na noite anterior. Só o sobrecarregaria.

 
- Tome grande quantidade de líquidos. De preferência, os que contenham frutose. Tanto porque, como falei anteriormente, a dor de cabeça da ressaca é predominantemente causada por desidratação, quanto pelo fato da frutose facilitar a degradação do álcool.
 
Agora, duas dúvidas clássicas: 
 
- Beber melhora os sintomas da ressaca? Você pode até achar que os sintomas melhoraram, se beber um pouco quando estiver de ressaca. Entretanto, isso é apenas decorrente do efeito de euforia que o álcool causa no sistema nervoso central. E, quando ele passar, você vai se sentir pior ainda.
 
- É melhor beber a mesma coisa a noite inteira do que misturar? Não faz a menor diferença se você tomou só caipirinha ou se misturou cerveja, vodka e tequila. O que causa a ressaca é a quantidade de álcool que você tomou. Não os tipos de bebida. O que acontece é que, misturando, a chance de você ficar bêbado e ultrapassar seu limite de ingestão é muito maior. 
 
E, uma última coisa: cuidado combinação de vodka com energético. Essa é uma combinação que potencializa muito a ocorrência de arritmias no coração. Tenho recebido inúmeros casos desse tipo na UTI, naquelas horas pós-festa: nos feriados, sábados e domingos de manhã. E isso é extremamente perigoso, pois aumenta a chance de formação de coágulos e embolia pulmonar.
 
Fora isso, curta o feriado! Com ou sem samba, com ou sem desfile, com ou sem álcool: a escolha é sua e ninguém tem que ditar seu roteiro.
 
Mariana Perroni é médica clínica e intensivista. Atua em consultório e UTIs de São Paulo-SP.
 
Página do blog no Facebook
 twitter: @mperroni
divisão
icone postado
Postado em 20.01.2013 | 07:01 | Mariana Perroni

 

 
Um dia desses, ao entrar numa loja, presenciei uma funcionária comentando que iria embora mais cedo pois tinha a primeira consulta no médico e queria ter tempo para tomar um banho e se arrumar. É engraçado perceber como há semelhanças no processo da busca de um parceiro e um médico: ambas se iniciam com o primeiro encontro com um potencial parceiro(a), passando por conhecê-lo(a), estabelecer uma relação e, eventualmente, passar pela dor do fim dela. Já é consenso em toda mesa de bar e assunto em muita copa de escritório que arrumar alguém para um relacionamento está cada vez mais difícil. Mas será que acontece o mesmo ao se procurar um médico(a) para cuidar de nós?
 
Se você já achava a busca pelo amor difícil o suficiente, tenho algo não muito legal para contar: não está fácil entregar o coração para ninguém. Em nenhum dos sentidos. Uma pesquisa grande realizada no mês passado nos EUA (novidade...) demonstrou que, para 14 milhões de americanos, é mais difícil achar um médico que os satisfaça do que um namorado(a), marido ou esposa. E, mesmo para os que já encontraram um, o filme também não tem um roteiro tão romântico e colorido a ponto de ser estrelado pela Zoey Deschannel ou o Jake Gyllenhaal: só 21% acham que ele é o "médico de sua vida" (figurativa e literalmente. afinal, a gente cuida de vidas mesmo), 31% acham que a relação é simplesmente ok e todo o resto está considerando procurar um novo médico "parceiro" para se relacionarem. 
 
Outros dados interessantes foram verificados:
 
- Entre um médico detentor da mais avançada tecnologia e currículo mais brilhante mas com tempo muito limitado para interagir com o paciente e outro com menos tecnologia, mas com tempo disponível para o olho-no-olho, quem ganha? O último (71% de preferência). Não só isso: 78% preferem ser atendidos num consultório menor e mais íntimo por um profissional que realmente os ouça a serem vistos numa clínica grande, por um médico absolutamente gabaritado, com pressa e que mal se preocupa de saber o nome de quem está atendendo.
 
- Houve o tempo em que as pessoas preferissem um médico homem e mais velho. Hoje em dia, em geral, tendem a escolher alguém do mesmo gênero. Entretanto, isso se altera conforme a faixa etária: Mais da metade dos pacientes de 18-34 anos preferem médicas, o que diminui para 44% naqueles com idade superior a 55 anos (resquício de tempos de preconceito, talvez. Eu mesma já sofri com isso).
 
Aqui no Brasil, imagino que o processo de achar o "médico da sua vida" seja mais difícil ainda. Com as peculiaridades do nosso sistema de saúde, pulamos de especialista em especialista. Afinal, aqui é um dos pouco lugares do mundo em que vc acorda com uma dor de cabeça e marca consulta em um neurologista, ao invés de procurar um clínico, que provavelmente resolveria o problema. Com isso, os consultórios de especialistas ficam lotados de casos simples e com espera de 3 meses para uma consulta.
 
Eu sou a favor de que todos tenham um médico clínico bom. Ele, provavelmente, resolverá 85% dos seus problemas e saberá a que profissional te direcionar naquilo que ele não for capaz de resolver, evitando perda de tempo e dinheiro. E, antes que comece o apedrejamento gratuito, tem clínico bom no SUS sim, especialmente nos locais ligados a programas de residência em Clínica Médica. Mas não vou me alongar nesse tema, pois isso é assunto para outro texto. 
 
O que importa é que a analogia com a vida sentimental é válida: pular de bar em bar ou festa em festa pode até te arrumar companhias e resolver suas necessidades mais imediatas. Se é exatamente isso que você quer, tudo certo... porque dificilmente vai ser possível estabelecer relacionamentos ricos, profundos e sinceros com todos eles. Guardadas as devidas proporções, com médicos, acontece a mesma coisa se você pular de consultório em consultório, dependendo do sintoma. Eleja um e confie nele. (Cabe, aqui, esclarecer que me refiro a pular de médico em médico dentro da mesma grande área. Porque não vai adiantar você pedir para o ortopedista investigar sua anemia ou para o ginecologista tratar sua miopia, nem chegar no meu consultório e pedir que eu opere suas pedras na vesícula).
 
Bom, esse texto não tem conclusão. Assim como não existe a fórmula que define o "médico encantado". Homem ou Mulher? Gabaritado ou Low-profile? Mais novo ou mais velho? Sinceramente, não sei. A boa notícia é que pode existir o médico ideal para você. E, se minha experiência permite dizer algo, não vai ser o currículo dele(a) que vai te conquistar ou te manter fiel ao relacionamento. Você pode errar na escolha? Claro. Somos todos humanos, antes de tudo. O importante é continuar tentando. Porque nada é mais importante do que sua saúde. Ainda mais porque é só com ela íntegra que você vai sentir frio na barriga de encontrar alguém especial e que te fará bem na vida. Seja no campo que for. 
 
**Se interessar, já escrevi sobre cinco razões que acho dignas para você "terminar" com seu médico aqui na Tpm.**
 
Página do blog no Facebook
 
meu twitter: @mperroni
divisão
icone postado
Postado em 26.12.2012 | 17:12 | Mariana Perroni
 

 

 
Nessa época do ano, não importa em que latitude e longitude do planeta se esteja, sempre surge aquele papo de que as taxas de suicídio se tornam muito maiores no período que vai do Natal ao Ano Novo. Holiday blues é o termo usado para justificar a "tendência". E as pessoas suspiram aliviadas enquanto sorriem para o parente com quem passaram o ano inteiro sem falar direito ou dar atenção.
 
Por mais que isso vire tema de reportagens na TV e até de livros (a propósito, Uma Longa Queda, do Nick Hornby, é uma super dica para as férias), eu preciso contar para vocês que isso é lenda. Há diversos levantamentos que demonstram que, na realidade, os suicídios diminuem consideravelmente nessas datas (e -pasmem- aumentam na primavera e no verão). Provavelmente porque, nesses dias, as pessoas costumam ter mais proximidade da família, o que, por sua vez, inibe as ideações suicidas.
 
Entre uma mordida e outra num pedaço de chocottone, eu comecei a pensar sobre o assunto. Pensei no que costumo ver na UTI no período e resolvi cruzar isso com uma uma pesquisa na literatura médica atual para verificar se há algum grupo populacional que tenha mortalidade aumentada no Natal e Ano Novo. 
 
Para a minha surpresa, são as mortes por causas naturais que aumentam nesse período. O que são mortes por causas naturais? Comer tigela de açaí com mosquito barbeiro ou palmito com bactéria do botulismo? Não. São aquelas que são resultado direto do trabalho da mãe natureza, as que são consequência direta de um processo de doença: Infartos, cânceres, pneumonias, AVCs, etc. Ou seja, a imensa maioria das mortes.
 
Verifiquei que o maior e mais recente estudo acerca do tema Morte no Natal e Ano novo é americano e foi publicado em 2010. Os investigadores examinaram os atestados de óbito dos EUA num período de 25 anos, totalizando algo como 58 milhões (!) de mortes. E perceberam que as mortes por todas as causas naturais (com exceção dos cânceres) aumentaram de forma significativa nesse período. Ou seja, aumentaram as mortes em decorrência de infartos, AVCs, arritmias, doenças respiratórias, diabetes e quase tudo que vocês imaginarem.
 
Os motivos não foram investigados. Mas, se isso coubesse a mim, eu especularia que o fato é decorrente de um mix composto por ausência do médico do consultório (afinal, também precisamos de uns dias livres para ver a família nessas datas, quando conseguimos), demora para procurar atendimento em pronto-socorro (quem quer ir para o hospital nessa época?!) e, principalmente, expectativas irreais em relação à data.
 
Eu vou explicar. Desde novembro, já aparece panettone no supermercado e a publicidade começa um bombardeio desleal de imagens enfiando a definição de natal (e família) ideal goela abaixo, como se fôssemos frango para abate: são casas extravagantemente decoradas, mesa fartíssima, pessoas bem vestidas e felizes, risos sem fim rodeadas da família e amigos, todos unidos, com barriga negativa e em sintonia. Só que, como não há filtro de instagram na vida real, o que acaba realmente acontecendo na ceia de Natal são indiretas e cobranças em cima de quem não segue o protocolo social e cutucadas motivadas por rancor de algum fato do passado. A frustração é inevitável. E, se adicionarmos à equação  álcool em excesso e comida gordurosa em quantidades glutônicas (uma refeição típica de natal contém as calorias necessárias para um dia inteiro), temos, literalmente, um prato cheio para arritmias e anginas. 
 
Não esqueço de um caso que recebi na UTI no Natal, há uns dois anos: um senhor aposentado obeso e hipertenso, de barba macia e branca e aparência doce como seu sangue (era diabético também), que tirava grande parte de sua renda fazendo bicos de papai noel em dezembro. Ele se queixava de uma dor no peito que descrevia como "a pisada de um elefante", que tinha começado depois de uma discussão com o filho. Estava infartando. Depois de prescrever medicação para aliviar seus sintomas, perguntei se ele havia melhorado. E a resposta foi um sonoro "PRA C*RALHO". Saído da boca do papai noel e contrariando todas as regras de como o Natal deve ser.
 
Sou contra as festas de fim de ano? De forma alguma. Só fico um pouco incomodada com a felicidade obrigatória e com hora marcada que vêm com elas. A ansiedade que isso gera não tem como ser boa para a cabeça nem para as coronárias. Hora marcada, pra mim, só em consulta médica. Não sei dizer se minha postura é certa ou errada. Sei que é a que funciona para mim. Sem expectativas irreais, aproveito a companhia das pessoas reais. #nofilter mesmo. Não faz o menor sentido a gente se matar para ser feliz.
 

meu Twitter: @mperroni

E, se você quiser mais conteúdo, o blog tem até uma página no Facebook. Curte lá :) 

divisão
icone postado
Postado em 25.11.2012 | 16:11 | Mariana Perroni

 

 

Não importa se é segunda-feira ou sábado. Não importa se a pessoa é novata ou veterana. Nem se é homem ou mulher. Todos os dias, incontáveis seres humanos ao redor do globo passam pela nobre e digna situação de se encontrarem sentados no chão do banheiro, passando mal, com cabeça apoiada no frio vaso sanitário. Naqueles segundos antes de vomitar, você diz duas palavras: “Nunca… mais“ . E, no fim de semana, na noite, ou mesmo no dia seguinte, lá está você. De copinho na mão, sneaker no pé e maxicolar no pescoço, bebendo e rindo com amigos, como se nem lembrasse da promessa feita com devoção a si mesmo(a) há tão pouco tempo.

Todo mundo adorava atribuir o comportamento exclusivamente à falta de vergonha na cara. Até a Universidade de Washington publicar um estudo que parece explicar a tendência das pessoas em fazer isso. As conclusões basearam-se na análise dos hábitos de 500 estudantes universitários (amostra essa que eu considero bem adequada) durante o período de um ano. Então vamos lá. Segundo os autores, isso acontece por duas razões:

1 - Retrospectivamente, as pessoas tendem a se lembrar das risadas histéricas, de dançar como se estivessem num ritual de exorcismo, dos “te amo muito, amigaaaa” e até mesmo de eventais conquistas sexuais da noite anterior considerando-as muito mais divertidas do que, na realidade, foram.

2 - Toda aquela parte chata de gritar nas conversas, brigar à toa, derrubar copos (sempre na roupa dos outros, não na própria, claro), ser desagradável com garçons, passar mal no carro do amigo e terminar a noite com a testa no vaso sanitário de casa são racionalizadas como “ah, nem foi tão chato assim, vai... tanta gente já passou por isso."

Cientificamente falando, a capacidade da memória de superestimar os momentos divertidos de uma noite de bebedeira é chamada de viés da memória positiva. Enquanto que a habilidade da mente em se convencer de que as partes chatas foram “coisa de bêbado”, que “todo mundo entende” e que "não vai acontecer mais" é conhecido como dissonância cognitiva.

Simplificando mais ainda, a bebida parece causar um Efeito Pollyana em nossa memória, no qual cada dose parece ir progressivamente nos brindando com óculos com lentes cor-de-rosa. E tudo acaba sendo lembrado como mais bonito e colorido do que realmente foi.

Quando li isso, não pude deixar de lembrar do Bukowski, quando ele diz que "Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom, bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconteça algo". Por mais engraçadinha e descoladamente intelectualóide para proferir em rodas de amigos, a frase se torna preocupante quando lembramos que, para nós mulheres, basta o consumo de uma dose de destilado, uma taça de vinho ou uma lata de cerveja (40 gramas de álcool) diariamente para que se desenvolva algo que eu tenho visto cada vez mais no consultório: a Esteatose Hepática (a "gordura no fígado"), condição que, por sua vez, se mantida, leva à cirrose, que, por sua vez leva a tudo que eu tenho certeza que você não gostaria de sentir/viver. Isso sem mencionar o aumento no risco de câncer de mama e de órgãos do trato digestivo, hipertensão e diabetes.

Se tem algo que minha profissão permite generalizar sem medo é que NINGUÉM nem cogitaria chegar perto da cirrose se visse um caso na sua frente (ou vivesse a sensação de impotência de alguém com o diagnóstico morrer em suas mãos, sem que você tivesse o que fazer). Deixando a questão do risco à saúde de lado e o baixo-astral do começo desse parágrado de lado, se apenas considerarmos o preço do vallet, de cada caipirinha, das porções de fritura, da lavagem do carro do seu amigo, do remédio para náuseas e do mal-estar no trabalho no dia seguinte, eu acho que beber seguindo os limites que citei acima, se apaixonar ou comprar um óculos de lente colorida na 25 de Março tornam-se alternativas bem mais atraentes para quem está querendo ver a vida em tons de cor-de-rosa.

 

meu Twitter: @mperroni

E, se você quiser mais conteúdo, o blog tem até uma página no Facebook. Curte lá :) 

divisão

//Palpitação

Por Mariana Perroni

Médica. Contraria a fama da classe e gosta de escrever palavras legíveis. Quem sabe em...

Rss

Saiba mais

/ARQUIVO


Páginas: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9  próximo »