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A título de ilustração, um outro amolador
Quarta feira da semana passada eu pude desfrutar deste maravilhoso e escasso advento da vida laboral moderna: home office. O dia estava lindo, eu acordei de bom humor, peguei o liquidificador e fiz uma vitamina de banana, morango e laranja. Depois sentei na escrivaninha e comecei a trabalhar, feliz da vida, escutando os passarinhos que piam na minha varanda.
Pra ficar tudo ainda mais bucólico e naïf, eis que escuto aquela gaitinha e cinco notas agudas do amolador que, em bicicleta, transita pela cidade grande fazendo com que nós lembrássemos dos tempos de outrora. Nisso eu também lembrei que o meu alicate de cutícula estava cego de dar dó e não hesitei em descer os sete andares que me conduzem à rua.
Com um sorriso de orelha a orelha e totalmente contaminada pelo clima bucólico do dia, pedi para o rapaz executar o serviço sem antes perguntar o preço. Pensei que, no máximo, a operação me custaria entre 10 e 20 pesos argentinos (4 a 8 reais) – tendo em vista que durou 7 minutos e que ambas as superfícies de filamento do meu alicate não passavam de 2,5 cm.
E não bastasse estar contaminada pelo clima bucólico, tive que externalizar. E o amolador, que conseguia falar mais do que eu, contou que herdou o ofício do seu pai, que herdou do seu avô etc. Também disse que, assim como eu, muitas pessoas – jovens ou idosas – sempre comentam que o som característico da gaitinha os remetem a tempos de outrora. E blá blá blá.
Terminados os 7 minutos e, logo, a operação, com a maior naturalidade do mundo eu abro a minha carteira e pergunto quanto é.
Amolador diz: São 30 pesos por amolar.
Ana pensa: Me ferrei.
Amolador diz: E mais 30 pesos do polimento.
Ana pensa: @#$&##@!!%¨%
Ou seja, um total de SESSENTA PESOS (25 reais) para amolar o tal do alicatinho. Sendo que, com esse dinheiro, poderia ter comprado um novinho em folha. Não que eu goste de pensar assim, já que tento não ser tão consumista e talz... mas POHÃN, foi ou não foi um assalto à mão armada?
Segundo minha mãe, eu sou bocuda pra c******, mas nesse caso eu fiquei tão chocada que não consegui reagir. E também pensei que seria bacana deixar o cara pensar que é esperto e que eu sou trouxa. Sobretudo porque, depois de tanta conversa, ele sabia não somente o edifício onde eu morava como o apartamento. “Em que andar você está? Sétimo? Nossa... Incrível que o som da gaitinha chegue até lá”.
Pois é.
Só sei que eu peguei o elevador de volta com um misto de resignação e ódio e, com razão, fui pensando na música Fé cega, faca amolada do Milton Nascimento e do Ronaldo Bastos – no link, a cosmiquíssima interpretação dos Doces Bárbaros.
Tudo isso pra dizer que eu NÃO recomendo amolar faca, tesoura e alicatinho em Buenos Aires. Fica a dica ;-)
Divulgação

Espalhe por aí!
Galeria Converse

Claudio Prado em sua casa em SP
Olha só que bacana: sábado e domingo acontece a 4ª edição do “Fábrica de Fallas”, um festival de cultura livre e copyleft que vai rolar aqui em Buenos Aires na sede da FM La Tribu – rádio comunitária argentina que está há 22 anos no ar e que vale a pena conhecer.
Já que estamos falando de cultura livre e intercâmbio, é claro que contaríamos com a presença de um brasileiro no evento, Claudio Prado, quem dará a palestra “Todo software é político” ao lado de Enrique Chaparro e Verónica Xhardez.
Pra quem não sabe, Claudio é produtor cultural e teórico da contracultura e da cultura digital. Nos anos 60 e 70 ele fez parte do movimento hippie e se envolveu com a produção de shows e festivais de música: co-fundou o Festival de Glastonbury e produziu o primeiro Festival de Águas Claras, em 1975, o “woodstock brasileiro”.
Também produziu shows dos Mutantes e dos Novos Baianos nos anos 70 e sempre esteve ligado a Gilberto Gil e Caetano Veloso, desde a época em que os recebeu no exílio, em Londres.
É um dos fundadores da Casa de Cultura Digital e foi coordenador da ação de Cultura Digital da Secretaria de Programas e Projetos do Ministério da Cultura entre 2004 e 2008, e hoje coordena a ONG Laboratório Brasileiro de Cultura Digital.
Massa!
E além de palestras, quem for ao evento poderá assistir a shows e apresentações teatrais – além de participar de diferentes oficinas. Também há propostas variadas como “Comida Migrante”, um intercâmbio de receitas fronteiriças e “Consultório Militante”, onde se tratarão de temas como a descriminalização do aborto.
Vai lá:
Fábrica de Fallas
Dias 26 e 27 de novembro das 12 às 23h
La Tribu: Lambaré 873, Almagro
Consulte a programação completa aqui
Ps.: (1) Claudio Prado foi indicado ao Prêmios Transformadores promovido pela Trip em 2009.
Ps.: (2) "Atacarei de" intérprete na palestra :-)
Divulgação

Cena do filme 'Elza'
Quem lê o Nos Ares já deve ter percebido que eu sempre falo de shows brasileiros que rolam por aqui. Só este ano eu vi Tulipa Ruiz, Céu, Tiê, Do Amor, Lucas Santtana, Moreno Veloso e outros artistas que eu não vou conseguir me lembrar agora. Tudo isso porque a música brasileira é super valorizada e bem recebida pelos argentos.
O mesmo acontece com o cinema. Os argentinos pagam pau pra produção made in Brazil – e chegam a menosprezar a deles, que é super valorizada no Brasil – mas, sabe-se lá porque, as distribuidoras trazem quase nada de películas nossas pra cá. Um exemplo é “Tropa de Elite”, que todo mundo baixou na internet ou assistiu na tevê mas que nunca chegou às salas daqui.
É por isso que eu estou super feliz de ter voltado do cinema e de ter visto “Elza”, documentário de Izabel Jaguaribe e Ernesto Baldan sobre a MUSA Elza Soares. Quem não viu, tem que ver. E quem viu vai entender porque eu fiquei tão tocada com a cena infinita na qual a personagem principal e Maria Bethânia (ambas filhas de Iansã) entram numa epifania danada.
Como eu pude vivenciar esse momento místico-musical? Oras, porque começou hoje a 4ª edição do Cine Fest Brasil Buenos Aires, festival promovido em oito países ao redor do mundo. A programação é ótima e inclui alguns filmes que eu queria muito ver como “Boca do Lixo”, “Bróder” e “Por el camino”.
Quer ver também?
Então vai lá:
4º Cine Fest Brasil Buenos Aires
De 24 a 30 de novembro
Village Cines Recoleta
Arquivo Pessoal

Taí o convite para o "Choque de planetas"
Arquivo Pessoal

Esse é o Martín e essa é a Jime
Semana passada meu tio esteve em casa com um amigo e eu comentei que havia perdido o casamento de um brother do trabalho porque não me sentia bem. Foi nessas que o amigo do meu tio, de 50 e poucos anos, perguntou:
- As pessoas ainda se casam?
Sim, Gabriel, as pessoas ainda se casam e eu não poderia deixar de falar do “Choque de planetas”, expressão encontrada por Martín – meu colega – e Jime, sua esposa, para nomear o enlace matrimonial que rolou no último sábado.
Além de um Tumblr com informações sobre o lugar, como chegar etc., eles fizeram um videozinho com fotos super amorosas dos dois. Mas o mais lindo mesmo é o convite: um amigo do Martín, designer como ele, fez uma ilustração cute-cute e imprimiu 75 cópias, que são numeradas e assinadas. É que eu ainda não achei uma moldura, mas a minha vai pra parede em breve!
Sem falar que a ilustração vinha embrulhada em uma folha de papel manteiga com um cartãozinho com o seguinte texto:
“Neste universo aleatório, dois planetas estão por entrar na mesma órbita e colidir entre si dando origem a uma nova era. Esta edição limitada de ilustrações representa um documento fundamental para presenciar este evento intergalático”.
Agora os dois planetas estão bem coladinhos flutuando pelos mares do Caribe.
Tem como não achar lindo?
Olivier France

Invadiu mesmo!
Arquivo pessoal

Esse é o Oli!
Olha só que bacana, gente: o Tangolomango, festival de circo, música e dança sobre o qual eu já falei aqui Nos Ares acontece hoje às 19h no parque de ciência e tecnologia Tecnópolis, em Buenos Aires, e está sendo divulgado através de stencils por toda a cidade.
Isso mesmo: além de contar com estratégias convencionais como spots publicitários em rádios, a organização do evento apostou nesta forma de street art que colore a capital portenha e que está sendo utilizada também por marcas como forma de divulgação.
Um exemplo foi a gravadora do grupo The Prodigy, que utilizou de stencils para promover o álbum Invaders Must Die em Buenos Aires e em diferentes capitais do mundo.
A obra – tanto do CD do Prodigy quanto do Tangolomango – é de autoria do designer gráfico e grafiteiro parisino Olivier France, de 29 anos. Ele morá há três na Argentina e causou frisson ao pintar a arte do festival nos bairros de San Telmo, Almagro e Palermo.
“Foi bem legal fazer o trabalho do Tangolomango porque as pessoas foram super receptivas. Muitas me perguntavam se se tratava de um festival de tango, e eu explicava que era uma proposta de conexão entre artistas de diferentes disciplinas do Brasil e da Argentina. E todo mundo curtia a ideia”, disse.
Pra ler a declaração do Olivier não tem nada melhor do que assistir a este vídeo. Porque além de vê-lo pintando a geladeira de uma marca de eletromésticos que convidou artistas para intervir em seus produtos, dá pra escutar o castelhano com sotaque francês do Oli. Bonitinho!