Revista TPM

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Postado em 07.08.2010 | 09:12 | Karina Buhr

Ingrid Buhr

 

Um gosto salgado na boca
cai amarga líquida gota
e liquida a alegria do domingo.
De verdade.

Saudade grande arde
queima toda a cidade grande
o coração vira estômago
digerindo a morte longe
longe que já faz um ano
que me foi arrancado
um pedaço

Nervos de aço, cartilagem
tubarão mordendo meu leito
jeito não tinha nenhum
apenas chegou o dia
de você ir embora
e no meu peito trovão chorou
debulhou, estagnou

Vai fazer um ano
que meu avião caiu
Embora fosse sabido
que você se ia em breve
quando acontece nada vale
a antecedência, a prévia tese

Em dias de paz
tem pão repartido
em dias dos pais
corações partidos, orações
perfumes, pedidos.
Tem almoço, pizza
promoções

"Passe um dia com seu pai!"
disse o slogan.
Agora eu quero ver!

O meu já foi embora
mas faço o que puder
pra ele voltar pra passar o domingo

Devoro todo o universo comercial
Compro todas as pizzas
todas as passagens
pra todos os destinos de viagens
todas as meias e gravatas
as revistas de economia
todos cremes de barbear
invisto todos os porquinhos
vendo os desenhos
vendo meus disquinhos

boto o dinheiro que é do aluguel
a grana do estúdio pra ensaiar
não vou pro ensaio
vou fingir desmaio
só pra poder
planejar
como vai ser a operação
Erro não haverá nenhum
pra acertar a promoção
se tudo der certo a cidade pára
e eu vou poder lisa,
sem um puto,
beijar de novo sua cara

Vou fazer barricada na rua
não deixar passar caminhão
com o estoque do supermercado
cheio de caixas, um bocado
sequestro o motorista
grito na pista
ganho tempo pra achar
o bilhete premiado

Quero passar pro outro lado
só pra te dar bom dia
e um abraço apertado
perdido, sonhado
desenhado com minha caligrafia
copiada dos desenhos que você guardou
os tracinhos que devagar,
coloridos, pequena, eu fazia

Não sei bem onde
se escondeu
de repente desaparecido
você foi morar escondido
não sei que lugar escolheu

Na última noite
na véspera do seu aniversário
não sabia fazer nada
fraca pra caralho
eu era a criança do lado do pai e não consegui
fazer você ficar vivo não consegui!

Fiquei em pé do seu lado
sono pesado e culpado
te alisando e te cuidando
na noite que nunca acabou.
Não pode chutar, meu pai, senão o soro sai!
Você dizia que sabia, mas não aguentava mais

Eu quis cuidar do seu braço
que estava ferido
e tentei
mas a enfermeira disse que não tinha
e não me deu a gaze
porque você já ia morrer mesmo
questão de horas,
ou podia ser um dia quase.
Aquele lugar sem beleza
sem leveza e sem janela
você já ia morrer mesmo
o expediente estava acabando
que importava seu braço pra ela?

Dali a umas horas eu esmurraria
chutaria com dor furiosa
aquela parede de mármore horrorosa
e receberia olhares desaprovantes
de alguns funcionários semi pobres
do hospital de semi ricos
com hospitalidade semi nobre
medicando pacientes semi vivos
com a sorte de ter a mais alguns cobres

E meus chutes não estremeceriam nada
nem mudariam a ordem das coisas
as coisas que seguem ordem própria,
mórbida, fétida e petrificante
no leito e em torno dele
bolhas, cateteres desafiantes
rezas, preces agoniantes
choros, velas, as parcas comidas
os amargos semblantes
e também feições rosadas de visitantes
que aparecem nos horários que lhes convém
e a gente como sempre refém
da malfadada tonta e aparecida
coisa leve, pesada, desconhecida
que resolveram por chamar de vida

O bolero de Ravel
queria ver mais uma vez você ouvindo
bastava esse domingo!
Essa era uma música linda
mas você me explicou
um problema que ela tinha
"começa com o volume muito baixo
e termina muito alto"
e é um inferno levantar o tempo todo
pra gerenciar isso.
Mas no final você cria
um bolero em parceria
todo num volume só
que repetia, repetia, repetia
creative commons, sua garantia
com seu toque pessoal e arrojado no arranjo
batidas de asas de beija flores de alegria
executando debochados anjos

Mais açúcar no café do que você usava
era muito demais, você achava
menos açúcar era pouco demais
mas faz todo sentido, pai!
Prato grande no almoço merecia foto sua
pra mostrar pra todo mundo
a gula alheia na rua

Quando vi seu corpo inerte
naquela camisa vermelha
direito não consegui entender
você era tão mandão
que não aceitava morrer
pois morreu sem se despedir
não deu esse gostinho a ninguém
sem abraços de perdões e declarações

"manda esse povo parar de rezar junto de mim!"
Aqueles momentos pieguíssimos
aqueles choros novelísticos
nada disso você queria
e eu precisava tanto disso
no fundo do meu egoísmo!

Por que pareci forte?
Queria te abraçar e chorar
mas disso você não quis saber
e agora aqui escrevo
pra todo mundo ler,
talvez sem gostar ou se embevecer
mesmo quem eu não conheço
quem não pagaria nenhum preço,
vai pela internet, que você não usava.
Pra que isso? Não precisava.

Talvez por aqui você leia
vai saber onde as ondas da web vão dar!
vai que elas chegam onde você está!
vai que tem luz aí
e você consegue conectar!

E é isso minha gente
que tenho pra falar por hora
meus olhos ardem vermelhos
flamejam vapores agora
tanto os usei pra derramar
que eles já não conseguem olhar
como olhos felizes enxergam
e se esforçam pra apreciar
fecho-os com força, inchados
e ainda me enervam a transbordar.

Dia 15 de agosto
é aniversário de Augusto
que esperou o começo
do dia 16
pra ir embora de vez.

Isso aconteceu no ano passado
não sei se sobrevivi

Ele morava do lado do farol
ele morava no cartão postal
E com sua morte
adquiri um problema
de conjugação verbal
Pra falar do meu pai,
Augusto José,
alguns usam "era"
mas eu uso "é"!

 

 

ingrid buhr

 

Eu, meu pai e Xande, do surf para o surf

 

Eu e Ju

 

 

 

Eu e Mari

 

 

Pri

 

Esse texto escrevi há um ano atrás e ele sempre vai ser o meu dia dos pais.

Dedico ele a meu irmão amado Alexandre, minha irmã amada Priscilla, a Duda, Juliana e Mariana, Anelis e Serena, Natércia e Isadora, Ingrid Buhr e Irmgard Buhr.

Beijos e feliz dia dos pais!


Karina Buhr Magalhães

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