Revista TPM

Blog Eu lia tu lias

Me manda pra PQP, mas não me diz pra pisar em ovos!

Se é pra pisar em ovos, que seja sentindo o perfurar das cascas em nossas solas, amém.
29.04.2015 | 20:04 | Lia Bock

Ah, arte de pisar em ovos. Você toma todo cuidado do mundo, mede as palavras, engole o choro, reescreve a mensagem duzentas vezes – todo cuidado é pouco. Rói as unhas, come a bochecha, mas não diz o que gostaria. Dorme mal, acorda mal, dirige mal, mas não manda aquele e-mail entalado na garganta. Você sorri e aceita, quando queria mesmo é negar e berrar umas verdades. Entra no carro e chora, sai do trabalho e chora, dá uma garfada e chora lágrimas com conteúdo pulsante e nunca dito. São ovos inteiros nos quais pisamos com muita parcimônia. Ovos intactos sem nem uma fissura se quer, todos encalacrados no peito ou em algum lugar entre o esôfago e o palato. Pra quê? Pra não ferir ninguém? Para não fazer feio ou não ficar mal visto?

Pisar em ovos é pisar em si mesmo. Se há cascas em baixo de nossos pés, pisemos firme, certeiro, sentindo o estilhaçar que nos livra de uma úlcera póstuma. Se é pra pisar em ovos, que seja sentindo o perfurar das cascas em nossas solas e a explosão que meleca e liberta.

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Toda trabalhada no peso na consciência!

Da onde vem essa imensa necessidade de fazer o que não devemos? E porque raios achamos que não devemos se sabemos que vamos fazer?
17.03.2015 | 19:03 | Lia Bock

Camila Fudissaku: aguatonica.me

Sim, sabemos que é errado. Não, não conseguimos (podemos, queremos) deixar de fazer. Mas por que? Da onde vem essa imensa necessidade de fazer o que não devemos? E porque raios achamos que não devemos se sabemos que vamos fazer?? A desculpa que o proibido tem um gostinho especial colava na adolescência, hoje, alguns proibidos salivam a mais pura burrice mesmo. E torna a chorar no banho, torna a marcar uma seção de confissão com a melhor amiga, torna a jurar que daqui pra frente vai ser diferente. E enquanto isso a consciência vai sendo moldada – pra não dizer picotada. Retalhos do que acreditamos e fazemos (nesta ordem) viram bastiões de algo que queremos ser. Mentimos pra nós mesmos tentando permanecer em pé diante do espelho. “Nunca se repetirá!”. Sei.

Não sabe do que eu tô falando? Meus sinceros parabéns! A maioria de nós vive equilibrando os pratos entre o que acreditamos e o que conseguimos, de fato, fazer. Das pequenas coisas às grandes causas, ninguém está a salvo do maldito arrependimento. Que por certo, não mata, mas pode fazer um estrago danado. 

Categoria peso-pena:

* Fingir que não recebeu uma mensagem
* Dizer “to chegando!”, quando se está, na verdade, saindo
* Dizer “meu filho come superbem, só hoje é que tá encrespando”
* Odiar alguém só porque não teve a paquera correspondida
* Recorrer a velha e boa enxaqueca e... partir pra outra balada
* Responder que conhece, sim, uma coisa enquanto dá um google express pra descobrir o que é
* Chorar porque não aguenta mais chorar
* Beber e postar

 

Categoria peso-mosca:

* Desmarcar um encontro com a justificativa de que “tô atolada de trabalho” e sair com outra pessoa
* Fugir mesmo tendo dito que já voltava
* Apresentar um boy pra amiga mas omitir que já teve um lance com ele
* Abaixar ou se esconder para não ser vista por fulano
* Fazer uma dieta para perder três quilos que só você vê
* Concordar com alguém que você detesta
* Aproveitar a bebedeira pra dizer o que pensa
* Gastar uma grana em produtos de beleza que juram a juventude eterna
* Ceder àquele pedido: “depila tudo, vai?!”
* Perguntar: “no que você tá pensando?”
* Testar o poder de sedução e... vazar.


Categoria peso-médio:

* Mandar um e-mail cobrando atenção de alguém com quem você saiu poucas vezes
* Dizer umas boas verdades pro ex da amiga mesmo sabendo que eles vão voltar
* Sentar numa privada imunda
* Contar o segredo de alguém para um terceiro e emendar: “mas não conta pra ninguém!”
* Beber a quarta (a quinta, sexta) dose
* Fazer algo por amor e depois jogar na cara como um grande feito
* Odiar a mãe quando ela vem ditar suas regras

 

Categoria peso-pesado:

* Beber e dirigir
* Desencanar da camisinha
* Digitar ao volante
* Exigir monogamia sabendo que não vai cumprir
* Assinar algo sem ler
* Desistir do casamento, mas, mesmo assim, marcar a data
* Pedir pra empregada chegar antes das 8h para colocar a mesa do café da manhã
* Desejar matar as lindas
* Bradar contra o Faustão e assistir a dança dos famosos

 

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Não seja um cuzão!

''The opposite to a feminist is an arsehole'', Sarah Maple.
06.03.2015 | 20:03 | Lia Bock

Sarah Maple é uma artista britânica de 30 anos.Filha de mãe iraniana muçulmana e de pai inglês, ela costuma usar sua arte para denunciar os abusos do mundo machista. Quer mais: sarahmaple.com por um mundo com menos cuzões!

Sarah Maple

Sarah Maple por Sarah Maple

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Elas não usam sutiã, e daí?

Nem todas conseguem. Mas nenhuma se arrepende!
26.02.2015 | 00:02 | Lia Bock

   Kate Moss <3

Kate Moss <3

Apesar da overdose de silicones e dos bojos afins, elas estão por toda parte. Insistem em exibir seus minipeitos mirando o céu sob tecidos leves. Ostentam a marquinha do biquíni em tomara-que-caias indecentes e frente-únicas escandalosas. Biquinhos, contornos, uma pinta mais saliente está tudo à mostra desafiando o pudor da sociedade. Sim, elas não usam sutiã, e daí?

   Nasceram com seios diminutos e em vez de se renderem a 250 ml de prótese ou camadas do mais moderno bojo desenvolvido pela Nasa, optaram por deixar os seus peitinhos gritarem na cara dos recalcados. Pais zelosos e seres indignados no geral: Peitinho sem sutiã é vida. Peitinho sem sutiã é amor! 

   Nem todas (acham que) podem. Só algumas conseguem. Mas nenhuma se arrepende. Libertar os seios é um exercício de desapego. Desapego do ferro, desapego do aperto, desapego do que os outros vão pensar. E depois, diante de alguns olhares espantados, se torna um exercício de poder. Porque, sim, o biquinho choca. Duas bolas duras e de formato padrão saltando de forma desproporcional de um corpinho esmirrado é normal. Um sutiã recheado de gel que precisa ser transportado numa embalagem especial na mala de viagem é básico. E peitinho balançando é falta de vergonha na cara? Peitinho sem sutiã é leveza, liberdade, independência. Peitinho balançando é 0% silicone e 100% humanidade da veia.
Vem! Deixa o bojo em cada e saia vestida de si mesma!

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Shame on you

Vergonha, algo pessoal e intransferível!
09.01.2015 | 18:01 | Lia Bock

Rita Lee, diva, em show em 2012

Rita Lee, diva, em show em 2012

Vergonha é uma coisa bem pessoal – apesar de o termo ser usado de forma genérica, como se tivesse o mesmo significado pra todo mundo. “Tal coisa é uma vergonha!” Eu, por exemplo, morro de vergonha de falar besteira, de trocar o nome das pessoas ou postar um texto em que há um CH no lugar de X. Morro. Choro. Às vezes, acontece. Porque, claro, só temos vergonha de coisas que, mesmo desejando profundamente que não, acontecem. Tirar a roupa não me envergonha. Não entendo muito bem esse negócio de que bunda é algo muito pessoal e que só deva ser visto pelo núcleo duro – e olhe lá. Bunda, braço, pés, nuca, região lombar. Partes do corpo que todo mundo tem e que podem ser usadas para viver, simplesmente; ou, em alguns casos, para sensualizar, protestar, quebrar o gelo, brincar. (Viva!) Não entendo, de verdade, o tamanho da vergonha das pessoas em mostrar bunda. No Rio, parece, o constrangimento é menor. Em São Paulo, não. Mesmo durante o Carnaval, quando o festival de bundas invade a mídia, se você fizer um bundalelê no bloco haverá um cristo que vai se ofender, dizer que tem crianças no recinto e questionar: você não tem vergonha? Hum... não. (Parênteses: criança assistindo brutalidades na TV pode, observando uma bundinha alheia, não? Difícil de entender.)
    Tenho vergonha, aí sim, dessa sua camisa com um logo gigante de uma marca escrota que cobra caro e usa trabalho escravo. Tenho vergonha da colega que defendeu a pena de morte numa conversa de bar. Tenho vergonha de morar numa cidade que reelegeu um governador da Opus Dei que não nos ajudou a evitar o fim da água pra não prejudicar sua vitória no primeiro turno. Tenho vergonha de ter batido o carro (de leve) porque estava mandando uma mensagem no celular. Mas de mostrar a bunda, não. E nem de subir na mesa e dublar Alanis Morissette loucamente na festa da firma. Jura??? Juro. Ah, sim, também não tenho vergonha de gostar de Alanis.
    Isso não faz com que eu tire a roupa em qualquer ocasião. E nem me venha com aquele argumento 5ª b “se você não tem vergonha, então tira, agora!”. Tsk, tsk. Deixa eu explicar, amor: tirar a roupa é um ato de liberdade e como todo ato de liberdade precisa ser, primordialmente, espontâneo. Pode ser premeditado também, mas premeditado com espontaneidade. E sempre me pego pensando, puxa, será que algumas pessoas vão passar por esta vida sem, jamais, tirar a roupa em público? Triste. Levantar a blusa inesperadamente numa foto de família é bem divertido. Mas levantar a saia e exibir a bunda é meu preferido. É rápido e pode ser tanto um ato de amor (você vira de costas para alguém que ama e tchum, levanta a saia exibindo a calcinha de renda fio dental premeditadamente vestida), como pode ser um ato de protesto, como se fosse um xingamento. Carinha para em cima da faixa de pedestre, atrapalha a passagem e não faz aquele gesto universal de desculpa em que você dá uma abaixadinha na cabeça e levanta a mão ao mesmo tempo? Vira de costas, levanta a saia e mostra a bunda. É, praticamente, um vai tomar no cu desenhado. Libertador.
    Sei que é difícil para algumas pessoas e que anos de opressão da igreja dificultam a libertação do que chamamos corpo. Mas não dói e é a expressão plena e absoluta de que “o corpo é meu e faço dele o que quiser”. Tristes dos que jamais entenderão.

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Lia Bock

Por Lia Bock

Um blog para quem desliga o celular, chora no banho e rói as unhas

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