Revista TPM

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Eu quero sangue!

Você odeia o namorado, o chefe, a Sabesp, as amigas, o garçom
17.12.2014 | 22:12 | Lia Bock

   

tara mc

hey we all die somentimes, de tara mcpherson

  

  Nada pior do que acordar com ódio no coração. Olhar pela janela, ver o sol e só conseguir pensar no suor e nas coisas que não poderemos fazer porque estaremos no trabalho. O café fica fraco. O pão torra demais e todo e qualquer pensamento que venha à cabeça é negativo, imoral ou engorda. A correia se instala e se você não estava atrasada, agora está. O anel cai no chão e quebra. O preferido. Toca a campainha e são as testemunhas de Jeová. Tudo está programado para dar errado.
    Atrasada, com o rímel para passar e três telefonemas para fazer, você chega. Mas não há vaga para estacionar. Na correria o telefone cai no chão e, claro, quebra. Uma lágrima corre pelo rosto e vem a certeza de que ela é de sangue. Você checa, não é. Ainda. Você se recompõe e mentaliza um mantra da ioga. A telefonia não coopera e a ligação para Net cai duas vezes. “Vou cancela a Net, hoje”, você jura, mais uma vez. O nariz escorre e novamente a certeza de que é sangue. Deixa sair, mas não é, ainda.
    Na rua, é natal, as pessoas estão felizes e o verão chega em poucos dias. Mas, hoje, tudo isso é hipocrisia. Papai noel é o caralho e as luzinhas na varanda são o inferno piscante. Traz a bebida que pisca. Traz o gim, o rivotril.
    Você morde a boca, vem o gosto de ferro. Agora é sangue, certeza. Mas não basta ser sangue, é preciso transbordar sangue, é preciso jorrar. As pessoas com sacolas irritam, você só pensa nas mazelas humanas e em como somos egoístas e consumistas.
    De frente para o computador os posts no Facebook exalam felicidade. Seu cu, que vocês são tão felizes assim! A única coisa que vem em mente é “como essas pessoas são falsas”, quanta gente infeliz arrotando coisas boas. Você entra em todas as brigas que pode e responde da pior maneira possível. Se hoje é pra dar errado, que seja errado com pompa. Então, resolve tirar uma pelinha do canto da unha, que não estão feitas, claro, e sangra. Quase jorra. Na intenção de estancar você se suja e vocifera contra si mesma por dentro. A culpa tem que ser de alguém. Você odeia o namorado, o chefe, a Sabesp, as amigas, o garçom.
    Anoitece. E daí você se arrepende. Chora os feitos e os defeitos. Se chora toda. Soluça e se contorce até que uma pontada na barriga serve de aviso. A menstruação explode. Enfim, sangue.

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Hoje eu acordei gorda

Meu Deus do céu, onde eu estava que não percebi este corpo inflando?
12.11.2014 | 17:11 | Lia Bock

ilustração: mistystuffer

Hoje eu acordei gorda. Levantei da cama, passei rapidamente na frente do espelho e vi um volume de pessoa que parecia maior que a de ontem. Durante o café observei minhas ancas aboletadas na cadeira e vi que ocupavam toda sua área. Cobri com o jornal. No banho tive certeza de que demorei mais tempo para passar o sabonete pelo corpo. Da onde veio tanta pele? Olhei no espelho e vi uma cara redonda. Balancei a cabeça e bati três vezes na têmpora direita, como que pra pegar no tranco. “Isso não sou eu. Isso é minha imaginação.” Num ato de autodestruição coloquei minha calça mais justa, ou melhor, não coloquei. Como acontece há meses ela para um pouco acima do joelho. Quase chorei. “Isso não sou eu. Isso sou eu-tentando-me-boicotar.”
   Neste momento eu já estava me sentindo a mãe da Peppa Pig, mas rapidamente o cenário mudou. Sobre a minha mesa uma revista com a mocinha magrela e sorridente da novela me transformou imediatamente na Charlene, a filha do Dino da Silva Sauro e logo depois eu já era o próprio Dino, imensamente descabido e redondo. “Isso não sou eu. Isso é a mídia.” Ergui a coluna, sentei nos ísquios, mentalizei uma pluma e meti a cara no trabalho.
   À tarde, dando uma sapeada nos sites de notícia me deparei fotos do São Paulo Fashion Week, que apelidei carinhosamente de São Paulo Fucking Week. Voltei à imagem do Dino que agora se alternava com um Teletube vermelho. Eu. Minha colega chegou e a primeira coisa que eu disse quando ela sentou ao meu lado e sorriu um bom dia sincero foi: “Estou gorda! Gorda, não, estou um elefante. Como você não me avisa?”. “Você está louca, isso sim”, ela devolveu. Olhei para as minhas mãos e até meus dedos estavam acima do peso. Meu Deus do céu, onde eu estava que não percebi este corpo inflando? Bati mais duas vezes na têmpora tentando mudar o assunto do meu cérebro. Mas foi impossível. “Isso não sou eu. Isso é a sociedade.”
   Durante o dia só consegui pensar em comida generosas. A coisa mais magra que passou pela minha cabeça foi um merengue forrado de suspiro, morango e chantilly. Desejei aqueles frangos do KFC para os quais nunca dei muita bola. Lembrei de todas as melhores coxinhas que comi da vida e virei imediatamente o monstro de Marshmallow! Pulei o almoço na certeza de que meu cérebro me alimentaria. Prometi a mim mesma que começaria a correr e nunca mais comeria pastel.
   “Isso não sou eu. Isso é o mundo.” Na rua, vagando como um hipopótamo deprimido passei por um caminhão de mudanças. Depois de um tradicional e afinado fiu-fiu escutei “Ô Vila Madalena! Obrigada Meu Deus”. Era pra mim. Levantei a cabeça, bufei o mau agouro cerebral, comprei um bombom e falei baixinho: “Foda-se o mundo”. E a sociedade. E a mídia. E a minha imaginação.

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Ele não quer me comer...

Tem outra. CERTEZA!
29.09.2014 | 18:09 | Lia Bock

   

Os dias vão passando e aquele marasmo sexual toma conta da casa. Entram os amigos para um porre, entra a família para uma pizza, entra o encanador para consertar a pia, entra o Fabinho para contar as fofocas da semana. Tudo parece normal não fosse pelo vão sexual que se instala. Tem bejinho, tem eu te amo, tem gargalhada no jantar, tem dormir abraçadinho e seriado religiosamente às terças. Mas sexo que é bom nada. Onde foi parar? “Na casa de alguma vagabunda. Certeza!” A culpa, entendam, é sempre da outra. A outra mulher que seduziu o maridinho, que levou ele no papo, trepou com ele loucamente e não sobrou nada pra esposa querida. Mesmo que o cônjuge em questão vá do trabalho pra casa e de casa pro trabalho, a culpa é de alguma outra. Porque, se ainda não comeu, comerá em breve. Certeza!
    Odiar é fácil. Arrumar uma piriguete pra colocar a culpa também. Porque “se está tudo bem, só pode haver uma outra!”. O “tudo bem” é que mata! Os dez anos de vida conjugal nas costas nem passam pela cabeça da mulher que quer ser corna. A mesmice sexual que se instalou também não preocupa a mulher que quer ser corna. A sua própria falta de vontade e iniciativa também não estão em jogo, porque, afinal, ela QUER ser corna. Ser a vítima é mais fácil do que dar as mãos e com olho no olho encarar a realidade: “não estamos trepando. E agora?!”.

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I´m so FUCKING sorry!

O problema não é só o que você diz, mas como e quando você diz
11.08.2014 | 16:08 | Lia Bock

Desculpa, fiquei trabalhando até tarde, não deu pra ir.
Desculpa, acabou minha bateria, só consegui uma tomada agora.
Desculpa, eu não estou bem hoje, coisa minha.
Desculpa, eu bebi demais e falei mais do que o necessário.
Desculpa, precisei sair correndo. Mesmo.
Desculpa, não tem nada a ver com você, são traumas que a vida me trouxe.
Desculpa, não liguei porque não sabia o que dizer.
Desculpa, não disse nada porque achei que você estava na sua.
Desculpa, esqueci de te apresentar, essa é Amanda.
Desculpa, eu achei que você sabia.
Desculpa, só estou dizendo a verdade.

O problema não é só o que você diz, mas como e quando você diz.
Homens que precisam se desculpar, não se aproximem. Obrigada.

 

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Mulheres que limpam

Você nem tinha reparado nela, até que... ela aparece com um rodo
05.08.2014 | 17:08 | Lia Bock

Todo mundo sabe que há gosto pra tudo e aquele seu defeito, execrado pelo ex, pode ser o fetiche do seu novo amor. Nessa linha, você, mulher com mania de limpeza, não perca as esperanças. Nem todos os Homer Simpson são como o Homer Simpson. Dizem por aí que o novo homem – aquele que rega as plantas e e discute a relação – gosta da casa um brinco e não resiste a uma gata empunhando um Perfex.
    Alguns seres do sexo masculino são loucos por uma dona com um pano de chão em mãos. Acredite. Uber-feministas e apedrejadores, respirem fundo, por favor! Não estou pregando a volta da Amélia, aquela que era mulher de verdade e que não tinha menor vaidade. Não! A mulher carrega uma vassoura mas está com uma pulseira linda, o cabelo bem cuidado, roupa sexy, sorriso no rosto e as unhas recém tingidas de carmim. Feliz. Elas limpam porque gostam. E gostam porque puderam escolher.
    Não estou falando de faxina de domingo ou da louca do VAP, mas daquela mulher que no meio da festinha encara a lavagem dos copos acumulados na pia, de batom vermelho recebendo pitadas de cigarro na boca pela mão da amiga. Falo da gata que não desce do salto, mas se curva num movimento gentil para secar a cerveja que caiu no chão da pista. Mulheres que não se importam em dar um trato e, ao contrário, precisam disso e o fazem com graça, estilo e bom humor. No geral elas são levemente neuróticas, mas gargalham de si enquanto vestem as luvas de borracha para não estragar as unhas.
    Mulheres que limpam, repare nelas!

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Lia Bock

Por Lia Bock

Um blog para quem desliga o celular, chora no banho e rói as unhas

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Edição 239
Trip #239

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