- Estou ficando velha.
Inevitável ter esse tipo de pensamento na festa em que eu tive que dar uma assadeira antiaderente de presente para o Raphael.
Aí tem gente que vai vir aqui falar:
- Se liga! Você não tem nem 27 anos e está se sentindo velha. E eu com [insira a idade da Glória Maria aqui]? Me sinto como?
Minha mãe sempre diz que a idade está na cabeça das pessoas e, embora eu desconfie que essa seja uma desculpa de quem não está muito a fim de envelhecer, acho que ela tem razão.
De modo geral, eu me sinto como uma menina na flor da idade. Quem anda envelhecendo em ritmo acelerado é o Lucas e acho que as crianças de hoje em dia crescem tão rápido que ele ainda vai me passar. Serei uma mãe de 35 anos com um filho de 50.
Mas ali; em meio a panelas, vassouras, copos, talheres e convites de casamento; a sensação de estar a milhares de quilômetros da minha adolescência me fez digna do meu nome de senhora de 100 anos.
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Fiz o meu colegial em uma escola pública lá da Vila Mariana. Nem sei o porquê de estudar tão longe de casa. Sei que todos os dias eu descia até a Avenida Sumaré, pegava o ônibus Vila Mariana - Lapa às 5h30 da matina e ia até o ponto final. Durante três anos, vi os dias amanhecerem atrás dos prédios da Avenida Paulista. O ônibus enchia e esvaziava três ou quatro vezes durante o trajeto e às vezes eu descia sozinha no metrô Vila Mariana.
Poderia ter estudado a cinco quarteirões de casa, em uma escola para onde tinham ido todos os meus amigos de ginásio. Teria sido legal também, mas ainda bem que não fui. Porque foi no Brasílio Machado que fiz aqueles amigos das mensagens de contracapa de caderno: "Te curto pra KCT! Espero que nossa amizade dure para sempre!" E durou.
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Eu andei tanto nesses 12 anos de amizade com o Raphael, e por tantos caminhos, que parece que há um abismo secular entre a minha vida de hoje e aquelas tardes em que passávamos fazendo trabalho de escola e tomando o chá com leite da Dona Odete.
A sensação é de que nossas histórias daquela época estão em outra encarnação. O Leandro quebrando a cadeira da casa do Rapha e espatifando a bunda no chão; a Flávia mostrando o peito sem querer na comemoração de um gol no campeonato de futebol; o gosto daquele croissant de frango no intervalo da escola; a gente enrolando mato em uma folha de papel e entregando para a Daniela dizendo que era maconha (e ela ficou loucona); as cervejinhas geladas às 7h30 da manhã (IC!); as minhas paixonites pelos irmãos mais velhos dos meus amigos; os aniversários e os churrascos na casa do Rapha; os filminhos lá na Batcaverna depois dos trabalhos de escola; a união da classe para infernizar a vida dos professores; as primeiras baladas; os primeiros porres; as andanças do metrô Clínicas até em casa para comer macarrão. Uma adolescência pra lá de feliz.
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Quando o Toreli entrou no chá bar com dois filhos grandes, a mais velha da idade do Lucas, quase que a minha dentadura caiu no chão e o reumatismo me impediu de pegá-la. Tenho certeza de que ali, naquele salão cheio de histórias, a sensação de velhice não era só minha.
E é só uma sensação porque a essência daquilo que a gente viveu continua toda ali. A Dona Odete ainda está lá, com seus quase 92 anos. O Cacá, pai do Rapha, namora a Denise há 16 anos. A minha mãe ainda faz macarrão com o mesmo tempero todos os domingos. O Rapha continua são-paulino (e o irmão dele também). O Leo aposentou recentemente a calça de moletom que usava no colegial. A Tati, se bobear, é virgem de novo. A Eliane continua japonesa. O Leandro namorando a mesma menina que estudou com a gente há 12 anos. A Flávia, mesmo com marido e filho, exatamente a mesma moleca.
Mas o melhor é sentir que, se tudo aquilo que a gente passou parece ter ficado uma vida pra trás, eu e o Raphael conseguimos mesmo transpor nossa amizade para essa vida de cá, com o Lucas como filho e a Camila como companheira, com responsabilidades, contas pra pagar, porres pra esquecer e porres pra lembrar, controle de colesterol, lei da gravidade e panças.
Talvez tenha sido isso que tenha me rendido um convite para ser madrinha da união do Rapha e da Camila. Corre todo dia uma vida empurrando a gente pra frente. Só que quando a gente faz tudo direitinho, olha pra trás e tudo ainda está lá, intacto, inabalável e ainda divertido. Serei uma velhinha bem feliz.