Revista TPM

 
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Postado em 26.07.2010 | 21:07 | por Leonor Macedo
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Fui surpreendida por uma visita inesperada de Chico e não tinha nenhum O.B. na bolsa. Cheguei em casa sem respirar e fui correndo até o banheiro para a vida não virar uma tremenda meleca. Mas no meio do caminho, Lucas meteu a cabeça no móvel da televisão e abriu o berreiro. Na hora fez um baita galo. Dei beijinho para sarar, abracinho e passei arnica.

- Lu, quer que a mamãe coloque gelo?

- Não, mãe. Não quero.

- Então tá, Lu. Vou colocar absorvente. Já venho.

- AH NÃO! ABSORVENTE NÃO. COLOCA O GELO ENTÃO!

Tags: Lucas
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Postado em 16.07.2010 | 18:07 | por Leonor Macedo
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Amanhã é aniversário do Rafa, mas quando ele me disse que não gostava de aniversário, metade do meu namoro morreu. A outra metade ainda é bem forte, é verdade, mas talvez seja difícil conviver com essa revelação. Porque eu acredito piamente que Deus marca àqueles em que não devemos confiar: ou eles não gostam de chocolate, ou eles não gostam de aniversário. E se eles não gostam nem de chocolate nem de aniversário, podiscrê que logo mais você estará com suas partes sendo devoradas por cachorros na casa de um sujeito chamado Bola.

**

Penso que tudo bem não gostar de Natal ou de Carnaval, embora eu me esforce para entender esses dois casos também. Como não gostar de uma data onde você morre de tanto comer e ganha presente? Mesmo que você tenha que encontrar aquela parte da família que você detesta e só vê uma vez por ano (não é o meu caso, ok?! Amo meus tios e primos e nos vemos sempre). Acho até que esse é um preço bem pequeno a pagar e justamente por isso a Globo faz um especial da Xuxa e exibe no dia 24 de dezembro todo ano.

Do mesmo jeito que ouvir axé no carnaval é um preço baixo por três dias de feriado. Nesse caso, Deus fez a Leci Brandão, o Maurício Kubrulsy e a Renata Ceribelli para tentar foder com tudo e ainda assim não conseguiu.

Mas, gente, aniversário?! Qual é o problema com o aniversário? Leavem o aniversário alone!

Ainda que eu esteja perto dos 30 anos, eu amo fazer aniversário. Mais do que isso, eu adoro os aniversários dos outros. Do filho, da mãe, do pai, do irmão, do namorado e dos amigos. Adoro dar presente, mesmo que seja uma besteirinha, mesmo que eu erre tremendamente na cor, no tamanho e no gosto da pessoa.

Um dia antes do meu aniversário, eu costumo ficar com aquela sensação que eu tinha na véspera de uma excursão escolar quando eu era criança. Fico acordada até a meia noite do dia 7 de outubro só para dar as boas vindas ao meu dia. Aí durmo um pouquinho e acordo com as galinhas, lá pelas seis da matina. Recebo o abraço apertado e o beijo molhado da Dona Rose bem na minha testa, depois o Lucas pula no meu pescoço. Por último é meu pai quem me dá outro beijo molhado, e eu fico assim, meio de lado, já saindo, porque meu pai me aperta demais.

Meu irmão me liga, minha tia me liga, meu tio me liga do escritório, meus primos me ligam daqui de São Paulo e do interior. Meus amigos mais próximos me ligam, o povo que estudou na terceira série comigo me manda os cumprimentos no Orkut, as pessoas do trabalho descobrem meio sem-graças que é o dia do meu aniversário e vem uma por uma me dar um abraço, comigo ainda sentada na cadeira de rodinhas.

A mamãe cozinha a minha comida preferida no meio da semana e eu armo uma bebedeira mais tarde com todo mundo que eu gosto. E sempre acho que não vai ninguém, mas aparece uma pancada de gente. Então, no fim de semana seguinte, meus parentes vão em casa e eu morro de tanto comer os quitutes da Dona Rose. Todos os anos eu ganho exatamente os mesmos presentes. Os melhores vêm sempre do meu irmão, meus pais e o Lucas me dão roupas que eu mesma escolhi (e, no caso do Lucas, eu mesma paguei), meus primos me dão DVD e a Silvinha sempre me dá uma bolsa. Vez ou outra os amigos aparecem com presentes legais, como o Júlio, o Junior, o Maurício e o Wandeko.

Como não gostar de tudo isso? Sei que nem todos os aniversários são como os meus, divertidos e nada surpreendentes, mas sei também que TODO MUNDO, absolutamente TODO MUNDO é importante para alguém, nem que seja só uma pessoa. E se essa pessoa está feliz com o fato de ser o seu aniversário, de algum dia você ter nascido, por que caraleos você não pode estar feliz com isso também?

Claro que Deus fez o “Parabéns pra você” e momento mais constrangedor não há. É o equivalente a ir para a escola com um furo na calça bem no meio da bunda, ou usar um sutiã mais largo e acabar sem querer com o peito de fora na festa de formatura. Mas, ainda assim, o “Parabéns pra você” é um preço barato demais por tudo aquilo.

Se eu pudesse escolher, faria aniversário duas vezes por ano, mesmo que isso significasse viver a metade do tempo.

**

Falei tudo isso para o Rafa e ele prometeu reconsiderar o gosto por aniversários. Me abraçou apertado e disse que não se lembra de nenhum aniversário anterior, mas que tem certeza que esse será o primeiro que se recordará por muitos anos.

Eu olhei de canto de olho, meio desconfiada com aquele blá blá blá todo sobre a marcação de Deus e estou reconsiderando amá-lo por inteiro. Como um presente de aniversário que, apesar dos pesares, todo mundo sempre merece.

Tags: Rafa
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Postado em 08.07.2010 | 17:07 | por Leonor Macedo
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Durante toda a minha vida, eu morri de medo de ir a qualquer banco. Não só por medo de pagar as contas e levar uma vida miserável, mas pânico dessa gente que me mataria para roubar meu salário na saída de uma agência (e estou falando de apenas três dígitos).

A culpa é toda da minha mãe. Quando eu e meu irmão éramos pequenos, ela não gostava de nos levar junto ao banco porque se impressionava com histórias de assalto. Vivia contando para nós dois histórias terríveis de crianças assassinadas, bebês que tomaram tiro na cabeça porque não paravam de chorar, menininhas que foram feitas reféns por quadrilhas.Tudo dentro de bancos.

Eu e o Rodrigo não tínhamos o menor medo de bruxa, homem do saco e bicho papão. Os pesadelos eram com o Bradesco, Itaú, Bamerindus, Caixa Econômica, Excel, etc etc etc. E conto nos dedos de uma mão todas as vezes que fui a um banco na infância, me borrando nas calças.

**

Acontece que a gente cresceu e o trauma continuou. Nem eu nem meu irmão vamos ao banco sem suar frio e olhar para os lados 500 vezes em menos de cinco minutos. Demorei dois anos para fechar uma conta inativa no Banespa só para não ter que ir até a agência (e quando fui o rombo era de R$ 2000 só de taxas).

É meu pai quem costuma ir ao banco todos os meses para pagar as contas, fazer depósitos, retirar saldo e extrato, sacar o dinheiro. E como ele foi viajar com minha mãe e Luquinhas, eu me fodi. Sobrou pra mim enfrentar a fila no começo do mês, em pânico, para ficar mais pobre.

Quando acontece esse tipo de coisa, meu trauma só cresce. Não, eu nunca morri na saída de um banco, mas eu tenho meus motivos.

Antes de ontem eu fui até o Bradesco para descontar um cheque da firma, retirar o dinheiro do meu irmão da conta e pagar todas as dívidas do mês. Nossa agência parece ser a menor e mais freqüentada do País, ou seja, havia só um caixa funcionando para umas trinta pessoas. Não tinha uma só senhora-gestante-deficiente na fila. Até que apareceu outro funcionário para abrir o caixa preferencial e eu pensei que tudo andaria mais rápido. Tinha esquecido meu radinho e meu livro, porque, veja bem, eu não tenho experiência. Assim que o homem abriu o caixa preferencial, centenas de idosos, deficientes e gestantes apareceram sei lá de onde e entupiram o que seria a minha salvação.

Duas horas depois, era a minha vez. Entreguei o cheque para o caixa e ele me disse:

-Por favor, o seu RG.

E eu tinha esquecido o RG porque, veja bem, eu não tenho experiência.

- Tudo bem, volto amanhã para descontar o cheque. Vou só pagar as contas.

Aí quando eu cheguei em casa percebi que tinha pagado duas vezes a mesma conta porque levei a primeira e a segunda via da dita cuja. Eu quis chorar, mas respirei fundo e voltei para o trabalho. O calvário dos bancos ainda não tinha acabado e eu teria que voltar ao Bradesco no dia seguinte.

**

Enquanto isso, no dia seguinte…

… o bicho estava pegando no trabalho, tinha 150 pessoas na fila do Bradesco, um só caixa funcionando e eu novamente tinha deixado meu radinho em casa. Então deixei o serviço para hoje.

**

E hoje…

… eu fui munida de um livro e muita paciência, mas quando cheguei vi que apenas seis pessoas estavam na fila. SEIS. Considerei esse o dia mais feliz da minha vida e por uns instantes eu esqueci o medo de tomar um tiro na cabeça e manchar as páginas de Juliet Nua e Crua, o livro do Nick Hornby, com meus miolos.

Eu precisava descontar um cheque de 3 mil reais e o caixa disse:

- Não temos esse dinheiro aqui.

Oi?! Eu estou num banco ou numa Casa do Pão de Queijo pedindo R$ 3 mil de troco?

- Como assim?

- Vai demorar uns 20 minutos para pegarmos no cofre. Você espera?

Eu não queria esperar 20 minutos porque isso significaria o fim do meu dia de sorte:

- Não tem outro jeito?

- Só se você aceitar tudo em nota de vinte.

Ok. Foi assim que eu saí do Bradesco, olhando mil vezes para o lado a cada cinco minutos, carregando 150 notas de vinte reais. Eu precisava depositá-las todas para o meu irmão, que tem conta no Itaú e há uma agência desse banco dentro do Shopping Bourbon.

Na esquina da Pompéia com a Turiassu tinha alguns pivetes e eu me imaginei tendo que defender com a minha vida um dinheiro que nem era meu. Mas não foi dessa vez.

Entrei no Itaú do Bourbon e a fila era incrível. Parecia que no fim dela tinha uma montanha russa do Hopi Hari, mas não era. Aí eu decidi fazer o depósito no caixa eletrônico e cada pacotinho de depósito aceita apenas 50 cédulas. Ou seja, fiquei lá no meio do shopping separando três montinhos de 50 cédulas e me cagando de pavor porque logicamente todo mundo olhava para a minha cara. Eu suava tanto que o segurança do Itaú começou a desconfiar que eu era integrante de uma quadrilha.

- Moça, está com algum problema?

Nesse momento eu tentava enfiar um pacotinho cheio de notas pelo buraco errado da máquina.

- Não estou conseguindo, não estou conseguindo. Me ajuda, por favor?

E acho que ele ficou com pena e me ensinou. O primeiro pacotinho foi bonitinho, mas no segundo, assim que eu apertei o OK final, surgiu uma mensagem na tela:

“O depósito não pôde ser concluído. Chame um funcionário”.

O pacotinho com as 50 notas de R$ 20 tinha sumido. Eu imaginei que a profecia da minha mãe seria finalmente cumprida e eu seria assassinada por conta de uma ida ao banco, já que o meu irmão ia me matar. Aí percebi que o caixa eletrônico emitia uma sirene, como se eu fosse a milionésima cliente, embora só na fila o Itaú tivesse muito mais de um milhão de clientes. Então eu olhei direito e vi que o pacotinho estava encalacrado na máquina. Chamei o segurança, que acionou um funcionário e eu esperei por 40 minutos ele retirar o chumaço de dinheiro entalado.

Quando isso aconteceu, respirei aliviada por escapar da fúria de Marimar do meu irmão, mas quase fui linchada pelas centenas de milhares de pessoas da fila do Itaú que não estavam no espírito feliz de quem vai para uma montanha russa. Tudo porque o caixa me fez passar na frente de todos para concluir o depósito.

**

Voltei para a minha casa tremendo e tive que tomar um copo de água com açúcar. Só depois me dei conta de que namoro um motoboy com larga experiência bancária e não precisaria ter passado por nada disso.

FIM.

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Postado em 07.07.2010 | 19:07 | por Leonor Macedo
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Eu tive um namorado que já tinha feito tudo na vida. Tudo. Quer dizer, quase tudo. Não tinha feito um filho nem escrito um livro. E nem perguntei se ele chegou a plantar uma árvore, mas desconfio que seja ele o responsável pelo reflorestamento da nossa querida Amazônia.

Hoje em dia ele deve ter quatro filhos e 36 livros publicados porque nunca mais soube dele, mas o nosso namoro era assim:

- Amor, vamos fazer dança de salão?

- Já fiz.

- Passar férias em São Tomé e Príncipe?

- Já fui.

- Aprender a tocar gaita?

- Já sei.

- Curso de manicure?

- Sou pós-graduado em curso de manicure. E pedicure.

Era um saco. Nada do que eu propunha era inédito. Ele já tinha feito tudo, comido de tudo, conhecido todos os restaurantes, países, praticado todos os esportes radicais, era formado em tudo quanto era curso. E não, ele não tinha 190 anos. Só tinha 27.

**

Nessa época, eu tinha uns 24 anos, não sabia nadar, não tinha saído do País nenhuma vez, mal sabia amarrar os sapatos e tinha aprendido a andar de bicicleta há uns quatro anos só. Mas também não passei a minha infância cortando peixes na transversal em um curso de sushi.

Aliás, odeio quando me perguntam “O QUE VOCÊ FAZIA NA INFÂNCIA?????”, quando eu digo que não sabia nadar até um mês atrás. Ser criança não significa ter escamas e guelras, uma coisa não está relacionada a outra. Eu não sabia nadar, mas isso não quer dizer que eu não freqüentava piscinas, cachoeiras, praias e riachos, pelo contrário. Só não sou autodidata. Não bastava simplesmente me colocar para tomar um banho de banheira e dez minutos depois eu já saía dando minhas braçadas.

Minha infância foi absolutamente feliz, brincando com meu irmão e com meus primos, jogando futebol na rua, indo aos jogos do Corinthians, pulando o muro para ir à casa dos vizinhos, aprontando as minhas artes. E usando bóias de braço quando necessário.

**

De uns tempos para cá, eu comecei a realizar algumas vontades que eu já tinha. Resolvi aprender aquilo que eu não sabia. Não tudo, como esse ex-namorado meu, porque não sinto vontade de saber tudo. Eu quero ser a mais completa ignorante em medicina, tabela periódica, sapateado, fertilização de elefantes e rinha de galo.

Me matriculei no Kung Fu aos 25 anos, comprei uma bicicleta (e aprendi a andar) aos 17, tirei carteira de motorista aos 24, estou aprendendo a nadar aos 27 (e hoje o professor disse que posso sair da piscina infantil para ir para a de gente grande). Já tenho um filho quase adolescente, estou começando a escrever um livro, plantei muitos feijões em algodão quando eu era criança. Mas ainda falta muita coisa.

**

1 – Ser faixa preta de Kung Fu

2 – Aprender a falar inglês e melhorar o espanhol

3 – Fazer um curso de roteiro

4 – Aperfeiçoar a amarração dos cadarços (ainda sou ruinzinha)

5 – Fazer um curso de gastronomia junto com a minha mãe (ela não chegou a se formar na universidade, então queria dar esse curso para ela)

6 – Abrir uma livraria/café

7 – Conhecer a Espanha

8 – Ter um sobrinho ou um afilhado (não depende de mim)

9 – Publicar um livro (não depende de mim)

10 – Ganhar uma medalha

**

Enfim, tudo a seu tempo. Quando eu tiver 80 anos, serei a Dona Leonor, velhinha faixa preta de kung fu, que sabe nadar os quatro estilos, fala três idiomas, é roteirista, jornalista e chef de cozinha, dona de uma livraria/café, tia e madrinha de vários pentelhos, autora de um ou mais livros, que amarra um cadarço como ninguém e passou suas últimas férias com a família na Espanha. Espero merecer uma medalha por tudo isto.

**

NOTA: Quando terminei este texto, fiquei imaginando meu ex-namorado com 80 anos. Terá passado suas últimas férias na lua? Descoberto a cura do câncer? O primeiro homem a engravidar? Faço votos que sim porque saber tudo aos 27 anos deve tornar a vida muito chata.

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Postado em 05.07.2010 | 15:07 | por Leonor Macedo
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Sempre gostei de cachorros. E de gatos também, mas gosto mais de cachorros. O primeiro animal de estimação que tive foi um gato. Na verdade, foram dezenas de peixinhos, mas eu era neném e sentei em cima do aquário. Morreram todos.

Aí depois eu tive um passarinho chamado Arquibaldo. Quando ele voou, mamãe arranjou o Arquibaldo Junior (e eu acho que ele também voou).

Me lembro que eu tinha uns 4 ou 5 anos, meu pai foi até a padaria e na volta uma gata de rua o seguiu. Acho que sentiu o cheiro do café. Eu me apaixonei e durante alguns dias ela morou no quintal de casa. A batizei de Sônia Lima, mesmo nome da jurada do Show de Calouros, porque as duas tinham olhos verdes.

A gata era minha. Então no ano seguinte meu irmão ganhou uma cachorrinha, que recebeu  o nome de Bruna Lombardi e viveu conosco por 17 anos. Quando ela morreu, o Lucas tinha pouco mais de três anos.

A gata, não. Ela viveu conosco até eu completar uns 7 anos. Um dia eu fui viajar com minha família e quando voltei a carcaça dela estava jogada em frente de casa. Morreu atropelada. Caí doente.

Depois que minha cachorra morreu, minha mãe jurou que nunca mais queria nenhum animal. Porque ela sofreu muito com a morte da Bruna. A gente também. Mas aí um belo dia uma moça do prédio ligou lá em casa e disse:

- Olá, soube que vocês acabaram de perder um cachorrinho. Não querem outro? Comprei um llasa apso para o meu filho, mas ele e meu marido judiam muito do bichinho. Vai morrer logo logo.

Ela tinha pagado R$ 700 pelo cachorro e queria vendê-lo para nossa família. Minha mãe logo explicou que não comprava bicho de estimação. Disse que aceitaria, só que de graça.

De noite fui buscar o Tobby, que já veio com esse nome sem-graça. Ele era uma bola de pêlos bem pequenininha. Tanto é que nem percebemos a coleira anti-pulgas ao redor de seu pescoço. Durante dois dias, achamos que ele fosse morrer porque passava o tempo todo vomitando, totalmente intoxicado.

Pudera, ele não tinha nem dois meses e já usava a tal coleira. Além disso, todas as coisas que tinham vindo com ele da casa da mulher estavam lotadas de talco contra pulgas. Considerando que o Tobby nunca havia passeado, só o marido, o filho e a própria moça poderiam lhe passar pulgas e carrapatos.

Enfim, ele viveu. Tomou banho, passou dias no soro e no meu colo e já está conosco há quase 5 anos. Saudável, feliz e ranzinza, latindo para todo mundo que entra e sai do meu apartamento.

**

Morri de fofice!Há 10 dias, a Ilacilda (isso mesmo: I-LA-CIL-DA! Mas considerando que me chamo Leonor, nem vou zoar) entrou na minha sala do serviço perguntando se nós sabíamos de alguém que pudesse doar um cachorrinho para os filhos dela. Por coincidência, o Wandeko tinha compartilhado um link no twitter sobre filhotinhos que o primo dele estava doando. Mistura de cocker com poodle.

Na sexta-feira passada eles desmamaram e ontem fui buscar um machinho com o Wandeko. Pequenininho, caramelo, chegou em casa tremendo de frio. Brincou com o Lucas, rosnou para o Tobby, mordeu as calças da minha mãe, fez xixi no pé do meu pai. E passou a noite comigo, se aninhando debaixo do meu braço e chorando, acho que de saudade da mãe. Não dormi a noite toda e, verdade seja dita, Deus faz os filhotes tão bonitinhos porque senão a gente assava com tomates e pimentões bem no meio da madrugada.

Aí hoje, bem cedinho, eu trouxe ele para a Ilacilda. Respirei fundo, virei as costas e morri de chorar porque pouco mais de 12 horas juntos foram suficientes pra eu transformar-lhe em um Martin de Macedo.

O que importa é que agora ele tem uma casa, bem bem longe, lá em Carapicuíba. E vai ser o primeiro bichinho de estimação de duas crianças, exatamente como aconteceu comigo e meu irmão, bastante tempo atrás.

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Postado em 12.04.2010 | 13:04 | por Leonor Macedo
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Ultimamente só tenho frequentado lugares que me aceitem com minhas calças de moletom. Logo eu que a vida toda defini calças de moletom como vestimentas típicas de um birolho.

Birolho típico

Birolho típico

Tudo porque o moletom deixava aquele marca dos joelhos depois de passarmos a manhã toda sentados naquela cadeira dura de madeira da escola. Só não era pior do que quando nossas mães costuravam duas joelheiras de couro para não rasgarmos as calças na educação física.

Quem usava moletom com joelheira de couro era um candidato fortíssimo a apanhar no recreio. Mas a minha mãe não entendia isso porque só via o lado confortável da coisa e, apesar de eu ter uma personalidade descolada e popular morando dentro de mim, durante anos tive que me vestir feito uma birolha.

E, já que você usava calças de moletom para ir à escola, sua tia logo deduzia que você amava aquilo e te presenteava com conjuntinhos Marissol, de moletom que repetia a estampa em cima e embaixo.

Minha vida foi assim por bastante tempo, até eu ser salva pelas calças bailarinas. As calças de helanca viraram febre de Paris a Zona Leste, eram baratinhas, delineavam as minhas pernas finas e era impossível costurar uma tira de couro ali. Só que na primeira passada, mamãe esquecia-se de ajustar a temperatura do ferro e queimava a calça. Aí eu sofria preconceito porque, apesar de ser tendência, ninguém dizia nada na TV sobre o último grito da moda ser calças bailarinas com marcas de ferro na coxa.

**

Acho que o que marca mesmo o nosso envelhecimento nem é a vontade de ficar em casa e a falta de pique para vomitar na calçada depois de uma bebedeira em plena segunda-feira. Durante a minha adolescência, por muitas vezes eu quis ficar reclusa e jogada no sofá.

O que marca mesmo o nosso envelhecimento é o momento em que a gente começa a gostar de calça de moletom. Que a gente assume esse nosso lado birolho, veste uma dessas e vai para o shopping sem medo de tomar um tapa na cabeça no meio do corredor.

No sábado fui a uma loja e voltei com uma sacola de roupas que sofreriam um atentado há 15 anos caso aparecessem em cima da minha cama. Minhas calças jeans tem me dado claustrofobia e tudo que quero agora é minha família, um sofá velho, o colo do meu menino e uma calça que deixe meus joelhos em 3D.

Espero que vocês continuem me amando.

Tags: moda
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Postado em 30.03.2010 | 09:04 | por Leonor Macedo
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Eu namoro um motoboy. Às vezes quando digo essa frase para algumas pessoas, elas olham para mim como se eu tivesse dito que tenho câncer terminal. Quase tenho que consolá-las, dando-lhes tapinhas nas costas e dizendo:

- Vou ficar bem, não se preocupe. Eu vou ficar bem…

Acho que na cabeça média dessa gente de classe deve passar que uma jornalista formada merecia “coisa melhor”.

**

Noutro dia, aqui na sala do trabalho, alguém disse que fulana namorava um cara do suporte de informática:

- DO SUPORTE????? – gritaram, como se fosse uma aberração, e logo depois cairam na gargalhada como se a fulana tivesse se fodido na vida por arranjar alguém com essa situação profissional.

Acho que se eu tivesse aberto a boca e contado sobre o meu motoboy, teria perdido o meu emprego.

**

Já namorei muita gente diferente. Rico, pobre, magro, gordinho, baixo, alto. Esse é o meu primeiro motoboy (e espero que o último porque nunca encaixei tão bem no abraço de alguém).

Por trás daquele capacete, brilha o sorriso mais bonito do mundo. O colo quentinho quando eu chego em casa depois de um dia horroroso de trabalho em terra firme, bem menos emocionante do que andar de moto (e bem menos perigoso também, é verdade). Horas e horas de conversa sem perder a vontade de falar (nem de ouvir). Cafuné, cinema e jogo do Coringão de mãos dadas na arquibancada. Sem discussões eternas de relacionamento, stress, ou brigas intermináveis, só com o desejo de ser feliz sempre.

E com tudo isso vem de brinde o fato de eu nunca mais ter que ir ao banco fazer pagamento ou ter que ir a algum lugar levar um documento.

**

Esse texto não é para justificar pra ninguém que é legal namorar um motoboy. Não preciso. Muito menos para essas pessoas que trocariam um emprego estável e bem remunerado no Brasil para limpar privada em algum restaurante de Londres, só para dizer que mora fora do País.

O mesmo tipo de gente que achou um absurdo o Boris Casoy dizer que os lixeiros são o mais baixo grau da classe trabalhadora, mas que arregala o olho e arrepia os cabelos quando sabe que uma jornalista diplomada (?) namora um motoboy.

Esse texto é só porque me deu vontade de falar do meu menino. Eu mereço exatamente aquilo que eu tenho. E eu tenho mesmo o melhor.

Tags: Rafa
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Postado em 23.03.2010 | 16:03 | por Leonor Macedo
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Sempre soube que ódio e amor andam de mãos dadas e que o oposto dos dois é a completa indiferença. Veja bem, não que quem odeie é porque, na verdade, ame. Essa psicologia reversa não funciona nem na infância. Quem odeia, odeia. Quem ama, ama. Mas quem odeia, certamente, já amou.

Desci a rua de mãos dadas com o Lucas:

- Mãe, você não sabe quem nunca mais me olhou na cara.

Mas eu já sabia.

- Quem, Lucas?
- A Rebecca.
- Por que, Lucas?
- Não sei, mãe. Desde que ela terminou, ela nunca mais me deu nem “oi”.
- Pergunta para ela o que aconteceu, então. O porquê de vocês não poderem nem ser amigos.
- Aí que ela vai ficar ainda mais brava comigo.
- Olha, Lucas, eu sei que você já brigou comigo porque eu disse isso, mas não posso deixar de falar: ela é mesmo uma tontinha.
- Mãe, esse período já passou. Agora você pode xingá-la à vontade.

Tags: Lucas
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Postado em 10.03.2010 | 14:03 | por Leonor Macedo
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No capítulo anterior (e em todos os outros), a mãe da Rebecca, a Rebecca e a família toda da Rebecca pressionaram o Lucas para que ele fosse brincar na casa delas depois da aula. Não que ele precisasse ser pressionado para sentir vontade de brincar lá, porque para qualquer criança o lugar mais legal do mundo é a casa dos outros. Eu me lembro que quando eu tinha a idade do Lucas, felicidade era brincar na casa da vizinha, com os brinquedos da vizinha e, de preferência, sem a pentelha da vizinha. Felicidade plena era dormir na casa da vizinha ou de qualquer coleguinha da minha escola.

Na segunda-feira, combinei tudo com a mãe da Rebecca: ela o pegaria depois da aula na terça-feira e ele passaria a tarde toda lá. No fim do meu expediente, eu o buscaria, sem nenhum fio de cabelo na cabeça tamanha seria a minha preocupação de ter virado avó aos 27 anos.

No dia seguinte, cada uma de nós cumpriu a sua parte e às 18h30, pontualmente, eu toquei o interfone para chamá-lo. O prédio onde a Rebecca mora é bem próximo ao meu, mas bem diferente do meu. O dela é daqueles novinhos em folha, com o pé direito altíssimo (e o pé esquerdo mais alto ainda) e apartamentos com metros quadrados a perder de vista. Um prédio típico dos últimos anos aqui na Pompéia, que tem dividido o bairro em dois: os multimilionários da elite e os favelados da classe média. Eu estou no grupo dos jornalistas, logo abaixo.

Quando eu vi o prédio, até comecei a gostar da ideia daquele namoro porque eu tenho três opções de enriquecer:

a)      Casar com um homem rico;

b)      Ganhar na Mega Sena;

c)       Torcer para meu filho casar com uma mulher rica e generosa.

Considerando toda a sorte que eu tive em 27 anos e o fato de eu namorar um corinthiano-motoboy-da-ZL, quase subi para acertar o compromisso definitivo entre Lucas e Rebecca. Mas me lembrei que ela era de família judia praticante e enterrei meu sorriso no fundo da minha eterna pobreza.

Foi a Rebecca quem desceu até a entrada do prédio acompanhando o Lucas e ficou olhando-o até que ele se perdesse de vista.

**

A princípio, o Lucas não queria dar muitos detalhes de como tinha sido a tarde na casa dela. Até achei que ele tivesse descoberto o blog e nunca mais fosse me contar nada, mas ele acabou confessando:

- Foi legal…

Assim, meio xoxo, nada muito empolgante.

- Só legal?
- Ah, brincamos bastante. O prédio é bem legal: tem quadra, salão de jogos, piscina. Um menino chamado Lucas acertou uma bolada na minha cabeça que doeu muito.
- E a família dela? Conheceu o pai dela?
- Conheci. Ele foi bem legal e ele é corinthiano também.
- O que você almoçou? – minha mãe fez uma típica pergunta de avó.
- Arroz, feijão e carne.
- SÓ?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!? – minha mãe fez uma típica expressão de avó.

**

De noite, como faço todas as noites, li para ele antes de dormir e ele se queixou de uma dor na boca:

- Está sangrando, mãe?
- Não, Lucas! VOCÊ NÃO BEIJOU NA BOCA, NÉ?????????? – fui meio imbecil, confesso.
- Não, mãe. Tá louca?! Acho que machuquei a minha gengiva.

Depois da história do Capitão Cueca, ele me deu um beijo carinhoso e fez planos para voltar outras vezes na casa da Rebecca. E dormiu sorrindo.

**

Desde que esta história começou, no início de fevereiro, eu tenho pensado bastante em todos os relacionamentos que já tive e no meu atual também. Meus acertos e meus erros, principalmente, para procurar não repeti-los. No amor, a gente é bem feliz, mas a gente sofre e faz o outro sofrer.

Soa engraçado dizer que um namorico de crianças de 8 anos têm me feito refletir sobre o meu desempenho amoroso ao longo do tempo, mas é verdade. Deve ser porque fica tudo mais claro quando a gente vê de fora.

Quando um amigo ou uma amiga vem nos contar sobre seu relacionamento, procurando uma palavra de consolo, um conselho, um colo, quase sempre a gente sabe o que dizer. Porque a gente olha de longe, busca um dos nossos exemplos, daquilo que a gente já ouviu falar, de toda a nossa pouca ou vasta experiência. Mas aí quando o café acaba e a gente se despede, nós vamos embora para casa e continuamos a viver as nossas vidas, os nossos problemas, as nossas complicações, as nossas histórias. Nós até sofremos pelos nossos amigos, mas nós superamos bem rapidinho.

Com o filho é diferente. A gente acompanha tudo do começo, mesmo quando eles não contam para a gente. É um sorriso diferente que denuncia, um coração que bate mais forte a ponto da gente escutar, uma lágrima que marcou o travesseiro e ele nem percebeu. Quando o café acaba, a história continua ali dentro de casa. No começo, no meio e no fim. Se é feliz, é feliz. Se é triste, é triste. A gente supera na mesma intensidade e no mesmo tempo que eles (e estou preparada para viver assim todos os meus próximos anos de mãe do Lucas). E a gente quase nunca sabe o que dizer.

Deve ser isso o que nos faz pensar.

**

Se eu tivesse que apostar todas as minhas fichas em algo que eu acreditaria que fosse para sempre, certamente eu não teria apostado no relacionamento do Lucas e da Rebecca, por três motivos:

a)      Triste é aquele que só tem uma namorada em toda a vida;

b)      Se o Lucas puxou para mim, 98% dos relacionamentos dele durarão de 0 a 3 meses;

c)       Os capítulos 1, 2, 3, 4, 5, 6 e esse daqui.

Nestes sete capítulos, a Rebecca já ligou 17 vezes por dia em casa, já beijou o Enzo debaixo da escada, já ficou uma semana sem ligar, o Lucas já achou que tivesse terminado o namoro com o olhar, o Lucas voltou a namorar também com o olhar, enfim, não me parecia nada muito estável. As crianças não são muito estáveis. Ou melhor, o ser humano não é muito estável, mas as crianças me parecem um exemplo perfeito para isto: se naquele momento ela é muito feliz porque ganhou um chocolate, dali a cinco minutos ela será muito infeliz porque só vai poder comer o chocolate depois da sobremesa.

Mas as crianças também são muito intensas: quando ela ganha o chocolate, não há ninguém no mundo mais feliz do que ela.

Hoje, quando fui buscar o Lucas na escola, perguntei se ele não ia esperar pela Rebecca, pela Olga e pela mãe para caminharmos todos juntos, como sempre fazemos.

- Ela terminou comigo.

Como assim?

- Por que, Lu?
- Não sei. Ela não quis falar, mas acho que deve querer namorar outro.
- E você está bem?
- Estou.

Mas ele não estava. Estava confuso e triste porque ontem ele dormiu mais apaixonado e mais feliz depois de entrar um pouco mais na vida da Rebecca e hoje tudo aquilo parecia muito distante.

Eu estava ainda mais confusa. Como é que alguém era capaz de terminar com o Lucas? O menino mais lindo, mais inteligente e mais simpático da classe? Da escola? Do bairro? Da cidade? Do Brasil? Do Planeta? Ass: Mamãe.

- É uma tonta!

- Mãe, não fale assim dela! Ela é a minha ex-namorada e você tem que tratá-la bem!

Eles ficam sempre do lado delas e contra as mães, mesmo quando são pequeninos?

- Ué, eu estou te defendendo. Se ela terminou contigo que é lindo, inteligente e simpático, ela é tonta. Agora se você brigar com a mamãe para defendê-la, o tonto é você.

- Mãe, não me chama de tonto. Eu já estou muito triste.

Ok, a tonta sou eu. Foi bom eu ter aprendido cedo que se não tenho nada para dizer, é melhor ficar quieta.

Eu abaixei na rua e fiquei do tamanho dele. Abracei forte o Lucas e disse:

- Quer mudar de assunto ou quer conversar sobre isso?
- Como está tudo no seu trabalho?

E descemos conversando sobre jornalismo, terceiro setor, educação e tecnologia. Porque às vezes qualquer assunto é melhor do que pensar naquilo que dói.

**

No fim de cada um dos meus relacionamentos eu tive uma atitude diferente. Já quis mudar de assunto, já chorei até secar, já bebi até cair, já fui dura que nem pedra. Já me isolei e já procurei a ajuda de todos os amigos que eu tenho.

Mas era dentro da minha casa que as histórias nasciam e morriam. Este post é dedicado aos meus pais, que me deram colo independente dos meus acertos e dos meus erros. Mesmo quando também doía igualmente neles, mesmo quando não sabiam o que dizer.

Tags: Lucas
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Postado em 08.03.2010 | 08:03 | por Leonor Macedo
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O amor é enrolado em qualquer idade, qualquer época e qualquer lugar. Toda história renderia uma novela das oito, escrita pelo Manoel Carlos e adaptada para as areias do Leblon. A jornalista que tem a sua vida transformada quando conhece um motoboy. A mulher que namora o irmão mais velho, mas o trocaria pelo irmão mais novo. O palmeirense que se apaixona por uma corinthiana. A senhora que, depois de um casamento de 30 anos e três filhos, descobre que gosta de outras mulheres. O homem que namora outro homem que diz ser quem ele não é. O menininho que é ‘traído’ pela namoradinha na escola, termina o relacionamento com o olhar e volta com ela poucos dias depois porque quer brincar em sua casa depois da aula.

**

Lucas e Rebecca voltaram. No fim das contas, foi uma decisão acertada terminar com o olhar e não com palavras. Tomarei nota em minha mente para os meus relacionamentos, já que palavras costumam ser definitivas e olhares sempre deixam entrelinhas. Na hora de voltar com a Rebecca nada precisou ser verbalizado também. Eles simplesmente brincaram juntos, sorriram um para o outro e se divertiram juntos. Como todos os namorados deveriam fazer.

**

Na sexta-feira, fui buscar o Lucas na escola e ouvi um cochicho:

- Esta que é a mãe do Lucas…

Eu já me acostumei com esta história de perder a identidade e ser chamada de “A mãe do Lucas” por todo mundo. Quando olhei para o lado, vi a mãe da Rebecca comentando com a irmã mais velha da namoradinha do Lucas, que tem uns 18 anos. Dei um “oi” meio sem graça, de longe e esperei o Lucas voltar, desequilibrando com sua mochila pesadíssima e cheia de livros. Quando ele apareceu, ouvi um novo cochicho:

- Este que é o Lucas…
- Que alto que ele é. E que bonito! – a menina respondeu.

Lucas quis esperar pela Rebecca e por sua irmã gêmea, a Olga, para irmos todos juntos e conversando.

Falamos de coisas superficiais como o peso da mochila, a mensalidade da escola, a festinha do sorvete que aconteceria em outra escolinha do bairro (*), até que a sogra do Lucas voltou a convidá-lo para conhecer sua casa:

- Deixa ele ir na semana que vem?
- Combinaremos no começo da semana.
- Ela me enche o saco para o Lucas ir lá em casa.
- Ele me enche o saco para ir na sua casa também.

Enquanto tínhamos este papo, mais à frente caminhavam Lucas e Rebecca tagarelando e a rua se aproximava. Eu acelerei o passo para atravessar segurando na mão do meu filhote, que por sua vez segurou a mão da Rebecca.

Foi a primeira vez que pegaram nas mãos um do outro, meio porque são namorados, meio porque é perigoso atravessar a rua sem o apoio de um adulto. Ficamos ali os três de mãos dadas, em uma situação mais constrangedora para mim do que para qualquer um deles. Eu devo ter mudado de cor, mas não fui a única. A Rebecca também morreu de vergonha.

- Solta a minha mão – ela disse quando chegaram na calçada.

Ele soltou naturalmente. Eu continuei segurando na outra mão dele.

- Está com vergonha, Rebecca? – o Lucas perguntou.
- Não sei como você não morreu de vergonha, Lucas – eu disse.
- Não acho o Lucas tão envergonhado – observou a mãe de Rebecca. – Quando ele liga lá em casa, ele pede para falar com ela direitinho, pergunta como eu estou. Os outros meninos que ligam lá atrás da Rebecca não são assim…

PUTAQUEL, MEU! QUE OUTROS MENINOS LIGAM LÁ ATRÁS DA REBECCA, MEU CACETE????

**

Depois todas elas seguiram em frente e eu desci a Avenida Pompéia com o Lucas:

- Vocês estão firmes de novo, né?!
- Eu te disse que voltamos.
- Você até segurou na mão dela…
- … Pela primeira vez… – ele estava nas nuvens. – Sabe, mãe, a gente sempre vive dizendo um para o outro: “Te amo, Lucas”, “Te amo, Rebecca”…
- ÃHM? Mas ela morreu de vergonha só de pegar na sua mão!
- Ah, mãe. A gente fala que se ama pelo MSN. Pessoalmente a gente nem se conhece muito bem!

**

(*) Depois conto sobre a festa do sorvete!

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