Bazar
sexta-feira, 25 de julho de 2008.

Puxão de orelha

Chega de viver no vermelho. Faça suas contas, dê um passo pra trás antes de comprar e respire fundo. É mais fácil do que parece
por Daniel Balaban

Uma das coisas mais chatas que existem é se preocupar com dinheiro. Quando as coisas vão bem e ele sobra, queremos melhorar de vida, trocar de carro, de casa, de guarda-roupa, de celular. Quando as coisas estão mais difíceis e o dinheiro é curto, aí é que nem paramos pra pensar nele, afinal nunca sobra nada no fim do mês mesmo. Enquanto isso, nosso cheque especial está com cifras mais altas do que o próprio salário, e o cartão de crédito idem.

Agora vamos tentar enxergar a vida financeira como ela realmente é: a taxa média de juros do cheque especial, em abril de 2008, estava em 7,70% ao mês ou 143,55% ao ano. Isso significa que, se você deixar um saldo médio devedor na sua conta de R$ 1 mil, ao longo de um ano você terá gasto R$ 924 só com juros.

Para mim é bastante frustrante esclarecer dúvidas sobre qual ação vai subir nos próximos meses, ou se o dólar não caiu demais, ou de menos, para depois descobrir que essas mesmas pessoas que me perguntam estão constantemente devendo dinheiro no cheque especial ou no cartão de crédito.

Já pro banco!
Não adianta tentar aplicar o seu dinheiro para receber uma rentabilidade de 11,75% ao ano e pagar 143,55%, também ao ano, na sua dívida de cheque especial. Certamente, essa conta não pode dar certo. Quer saber qual a melhor aplicação nesses casos? PAGUE SUAS DÍVIDAS!

Cheque especial e cartão de crédito são instrumentos excelentes em situações de emergência. Quando algum imprevisto ocorre, é fundamental poder contar com crédito rápido e fácil. Mas cuidado, se você sempre estiver utilizando esses fundos, converse com o seu gerente, faça um empréstimo pessoal e pague o que deve – os juros são bem menores.

Ocupe-se de seu dinheiro. Gaste 30 minutos do seu dia organizando suas contas. Se as suas finanças estiverem bagunçadas, puxe o freio de mão. Dê um passo pra trás antes de comprar e respire fundo, faça um orçamento e diminua os gastos. É mais fácil do que parece.

Brasileiros passaram R$ 83,4 bilhões de cheques sem fundo entre março de 2007 e fevereiro de 2008 segundo a Fecomercio (Federação do Comércio do Estado de São Paulo). Já pensou no tamanho do prejuízo?
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sexta-feira, 25 de julho de 2008.

Tarefa de casa

Durante cinco anos, o escritor inglês Graham Rawle recortou e colou frases de revistas femininas dos anos 50 e 60. Tudo para contar a história de um travesti que sonha em ser uma mulher do lar

Por Filipe Luna

Para Graham Rawle, definitivamente não é fácil ser uma mulher. Ou melhor, fazer do seu personagem uma. Na fronteira do genial e da loucura, o escritor inglês juntou uma pilha de revistas femininas dos anos 50 e 60, picotou os melhores pedaços e colou tudo para contar a história de Norma (Roy, durante o dia) – travesti que aspira ser a mulher perfeita que as revistas idealizam.

As coisas complicam quando Norma/ Roy decide mostrar na rua o que aprendeu nas revistas. Atrai o afeto de um homem enquanto Norma; e o de uma garota enquanto Roy. A guerra dos sexos em um só ser humano é o que pontua a história de Woman’s World, lançado recentemente nos Estados Unidos. O livro demorou cinco anos para ficar pronto, tamanho o trabalho de Graham para colar seus recortes numa narrativa coerente. A labuta, digna de uma Amélia das letras, rendeu resultados admiráveis. Tanto visuais – a colagem é a mesma que Graham fez na sua casa, apenas escaneada e minimamente retocada – como literários, principalmente pelas metáforas dos textos de revista empregadas com estilo pelo autor.

Pela impossibilidade de reproduzir a obra como foi criada (tanto na sua concepção visual como literária) em outro idioma, dificilmente o livro deve ser lançado por aqui – restando ler no inglês original ou aguardar o filme, que ainda está em pré-produção. Para saber um pouco mais sobre a história de Norma, ou Roy, Tpm conversou por telefone com o criador de sua personalidade dividida.


A edição inglesa, de 2006, do livro-manual pra ser mulher; e a edição americana, deste ano


Tpm. O que havia de tão interessante nas revistas femininas dessa época para usá-las como matéria-prima para o livro?
Graham. Elas eram um manual de instruções para as mulheres da época: ensinavam como se comportar, ser uma boa dona de casa, limpar e fazer praticamente tudo. Também tinham uma alegria que soa um pouco louca – eram otimistas e espalhafatosas. Achei a linguagem muito interessante e, quando decidi que minha história seria sobre um travesti, ou seja, um homem que se veste de mulher, achei que ele poderia ler as revistas com a mesma idéia em mente: aprender a ser mulher.

Por que um travesti como personagem principal?
A história foi meio que sugerida pelo método de criação. Escrevi o personagem como mulher no começo, mas, aos poucos, a voz dela me parecia mais e mais estranha, como se houvesse algo forçado demais. Depois pensei que, se fosse um homem, explicaria por que esse personagem escreveria um livro cortando um monte de pedacinhos de texto e colando. Usando as palavras das revistas, ele fabrica sua própria personagem.

Qual a maior diferença entre as revistas dos anos 50 e 60 e as de hoje?
Na época, elas queriam ter como leitoras mulheres que eram donas de casa, que não trabalhavam nem pretendiam. As revistas diziam para as mulheres como conseguir um homem e o que fazer para segurá-lo. A filosofia delas é fazer tudo perfeito para o marido. Imagino também que na Inglaterra pós-Segunda Guerra não havia empregos suficientes para todos e ninguém iria gostar muito se as mulheres resolvessem sair para procurar trabalho.

Mas muitas revistas femininas hoje não continuam falando como conseguir um homem e segurá-lo?
É verdade. Tem algumas semelhanças, mas a diferença importante é que as revistas hoje estão direcionadas para uma mulher independente, que talvez não coloque a idéia de cuidar da casa e do marido como prioridade.

Essa experiência te fez entender melhor as mulheres? Ou os travestis?
Os dois, acho. É um pouco estranho porque não me visto de mulher e nunca tinha pensado muito nisso. Travestis não se vestem necessariamente como uma gatinha sexy ou uma drag queen escandalosa, mas como sua contraparte feminina. Se forem muito reservados é provável que o feminino deles também seja reservado. É interessante que a vontade de se vestir é quase uma droga. Eles vão fazer o máximo para se vestir de mulher, precisam fazer isso.

Você pensava em se vestir de mulher enquanto escrevia o livro?

Tem uma cena em que Norma anda pelas ruas num dia de chuva descalça e de meia-calça. Eu tinha que descrever como seus pés estavam quando ela chegou em casa. Não sabia se as meias iam se desintegrar, se ficariam furadas, se os pés molhariam. Pensei em colocar uma meia e andar pelo meu bairro para saber como é, mas no fim não fiz. Preferi perguntar para um monte de mulheres.
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sexta-feira, 25 de julho de 2008.

Andando nas nuvens

Achou um bonitão digno de “Ô, lá em casa”? Escreva para cartas@revistatpm.com.br e, se for publicado, você ganha um ano de assinatura da Tpm

Se as mulheres são mesmo apaixonadas por sapatos, então Miqueas Piller está na profissão certa. Aos 38 anos ele cuida do negócio da família, a Oficina Poppy, onde conserta bolsas e sapatos. Sua ascendência alemã já derreteu corações até mesmo de clientes homens, mas foi uma mulher quem fez a proposta mais ousada: ofereceu uma viagem a Paris. “Dizem que tenho lindos olhos”, conta, com um vozeirão que já lhe rendeu convite para ser locutor de rádio. De sua terra natal – Maringá, PR – veio o gosto pelo sertanejo, evidente em suas botas de caubói. Antes de você procurar aquela mala de fecho quebrado, saiba que ele vive muito bem acompanhado. (Por Paula Rothman)

Vai lá: Oficina Poppy, chaveiro e sapateiro – al. Lorena, 1.826, Jardim América, São Paulo, (11) 3083-4663
| 16h38 | comente |
sexta-feira, 18 de julho de 2008.

Ensaio sobre a cegueira

“Vocês devem ser famosos”, disse um passante ajoelhado numa das ruas de Cannes... Confira esse e outros micos do maior festival de cinema do mundo
Por Andrea Barata Ribeiro

Dez dias antes do início do Festival de Cannes, no mês de maio, soubemos que Ensaio sobre a Cegueira, dirigido pelo meu sócio Fernando Meirelles, abriria o evento e também entraria na competição. Depois de uma polêmica sobre o filme ser ou não adequado para a abertura – e de sermos convidados e quase desconvidados –, finalmente estávamos lá. Começava então a contagem regressiva, e uma das coisas que me atormentavam era o figurino. Então, como num conto de fadas, apareceu na minha vida a estilista Isabela Capeto. Tipo fada madrinha, com vestido para o baile e tudo mais. Ela foi sensacional, me vestiu não só para a grande noite do tapete vermelho, mas também para os eventos importantes. Sucesso total, roupas lindas, acessórios incríveis, tudo pronto.

E, de dentro do limusine...

O filme foi exibido dia 14, dois dias depois da minha chegada à cidade e de um vôo de quase 20 horas entre aviões e aeroportos. “Que maravilha, hotel, banho e cama”, era o que eu pensava. Mas não foi bem assim. Fui chamada para uma reunião emergencial no escritório da Pathe, que distribuirá o filme na França e que organizou sua exibição em Cannes. O problema: muitos convidados, poucos convites. Tivemos que cortar a lista sem ofender ninguém ou privilegiar nenhum distribuidor internacional – o que pode ser um problema para o resto da vida de um produtor. Se um deles tivesse convite para a fileira C do lado esquerdo, o outro deveria ter para a fileira C do lado direito. Incrível como um simples lugar num cinema pode gerar tanto conflito. Cinco horas depois, tudo resolvido – e a torcida para não termos comido nenhuma bola.

Chega o grande dia e tudo começa pela manhã, com a foto oficial. Todos os filmes em competição passam por esse ritual muito louco. Saímos, elenco e equipe, rumo ao Palácio do Festival nos limusines oficiais. Nas ruas, dezenas de curiosos tentam ver as celebridades pelo vidro escuro dos carros. Muitos tiram fotos de qualquer um que esteja dentro desses veículos, na esperança de que seja alguém famoso. Alice Braga, que tem um humor incrível, abaixou o vidro do carro para um fã ajoelhado que implorava por uma foto e perguntou: “Você sabe quem somos nós?”. “Não, mas quero uma foto!” De fato, estávamos em um circo.

Na foto oficial, centenas de fotógrafos fazem as imagens que vão se espalhar por jornais, revistas e sites do mundo inteiro. É infernal, todos gritam ao mesmo tempo tentando conseguir o melhor close da Julianne Moore, do Gael García, do Danny Glover. Os reles mortais, como eu, são ignorados e a melhor coisa a fazer é se manter longe do caminho dos famosos. Mas é divertido olhar tudo aquilo de camarote.


Preparar, apontar e clic! Centenas de fotógrafos insanos pelos closes que vão se espalhar pelo mundo

Quando o salto se faz sentir
Depois da foto, a primeira coletiva de imprensa. Perguntas razoáveis, nem parecia que tomaríamos o pau que tomamos da crítica. Na verdade não foi só pau, a crítica ficou dividida. Muitos veículos importantes, como o inglês The Guardian, adoraram. Porém, não deixa de ser doído ler as críticas.

Voltando ao grande dia, o próximo desafio seria colocar as 70 pessoas da nossa comitiva dentro dos carros oficiais. Quem vai com quem? Quem sai primeiro? Devíamos todos estar no tapete vermelho às 19h em ponto. Antes da função, ainda passei num cabeleireiro para uma escova básica. Voltei correndo para o hotel e, vestido a postos, saltão e maquiagem, segui e fiquei despachando o povo nos carros. O percurso do hotel ao Palácio do Festival é de 5 minutos. Mas, como a multidão toma conta das ruas, leva uns 20. Nessa hora o coração está na boca e o saltão se faz sentir.

No fim, uma enxurrada de palmas por oito minutos compensou a saudade das filhas, os contratos, as noites de insônia. Uma experiência bacana e engraçada ao mesmo tempo. Bacana ver o reconhecimento do trabalho e engraçado como as pessoas se transformam quando vêem uma celebridade. Ficam desarranjadas.

Agora era ir para a festa que os distribuidores organizaram e tomar um prosecco com os amigos na Côte d’Azur. E, como festa boa é festa boa em qualquer lugar, até mesmo na fina França toda a mulherada voltou andando sem sapatos para o hotel. Ninguém mais agüentava os saltões. Descalças mas felizes.

P.S. O grande José Saramago, que escreveu o livro em que o filme é baseado e verdadeiro responsável por toda essa loucura, não pôde ir a Cannes por problemas de saúde. Três dias depois, o Meirelles apresentou o filme a ele em Lisboa. Vale conferir o resultado no YouTube!
segunda-feira, 07 de julho de 2008.

Quanto tira?

Os salários alheios te interessam? A Tpm sai perguntando e publica a resposta em números

Raul Gil, apresentador do Programa Raul Gil, na Band: R$ 300 mil por mês
Arquiteto recém-formado: R$ 2.873 por mês, em média
Estagiário de arquitetura: R$ 908 por mês, em média
Bruno Gagliasso: R$ 30 mil pela presença VIP em festas
Camila Rodrigues, atriz e ex-mulher de Bruno Gagliasso: R$ 10 mil a R$ 15 mil pela presença VIP em festas
Modelo de cabelo para propaganda de xampu: R$ 2 mil por propaganda, em média
Professor de kitesurf em Ilhabela (SP): R$ 130 por aula
Vendedor de paçoca na av. Paulista: de R$ 15 a R$ 20 por dia (quatro unidades por R$ 1)
(Por Ana Cabral e Karina Tambellini)
segunda-feira, 07 de julho de 2008.

Projeto tupiniquim

Por Paula Rothman

Ela é responsável pela produção de filmes como Cidade de Deus e Blindness – Ensaio sobre a Cegueira. Aos 45 anos, Bel Berlinck trocou, por quatro dias, sua sala na O2 Filmes para viver a rotina dos índios na Reserva do Xingu



“Saímos de São Paulo – eu e uma equipe da O2 – em direção a Goiânia. De lá pegamos um aviãozinho até o Posto Leonardo, no Xingu. No caminho, às 9h, a vista aérea da aldeia Yawalapiti, que visitamos para conhecer a preparação do quarup – festa anual em homenagem aos mortos importantes. O almoço local, às 12h, teve biju – uma panqueca de farinha de mandioca – e peixe moqueado [feito na brasa com sal de uma planta e pimenta moída]. Às 15h, um passeio de barco pelos rios Coluene e Xingu. Como os índios, tomamos banho lá mesmo. A melhor parte da viagem, que serviu como pesquisa para um novo filme, foi viver a rotina sem pressa da aldeia. Senti falta mesmo da minha cama – apesar de a oca ser fresquinha, dormir na rede é muito desconfortável.”