xótica,
esquisita e extravagante. Esses três “es” soaram
pela primeira vez nos ouvidos de Ingrid Guimarães
quando seus pezinhos teimavam em não se equilibrar
na ponta das sapatilhas de balé. Pela segunda
vez, ao perceber que suas mãos não
serviam para dedilhar o piano. Por inúmeras
vezes, quando os pais insistiam para a menina largar
o guarda-roupa da mãe e ganhar o calor de
Goiânia. A atriz cresceu e os “es” seguiram
seus passos: ela nunca ganhou o papel da gostosa
ou da mocinha, tampouco o da vilã. Afinal,
ela não convenceria: não é esbelta
demais, delicada demais nem séria demais.
Porque a TV pede mais. Só que ela nunca quis
ser mais. Quis ser apenas Ingrid: aquela que trocava
o maiô
pelos figurinos, que faltava à escola quando atores apareciam na agência
de publicidade do pai (“tenho uma foto no colo do Tony Ramos. Outro dia
encontrei com ele e perguntei: ‘Divulgo ou não?’”) e
que recusava papéis estereotipados na TV mesmo sem ter emprego. “Minha
carreira foi feita em cima das minhas esquisitices”, reflete. “Faço
comédia sobre fraqueza humana: as mal-amadas, as confusas...
Por isso as pessoas se identificam tanto com os meus personagens.”
Satirizando a vida real, Ingrid ganhou espaço
nos palcos. Nos anos 90, foi uma das responsáveis
pela febre que arrastava milhares de meninas para
a platéia de Confissões de Adolescente,
posteriormente adaptada para a série de TV,
em 1994, na Cultura. Embora crua de vivência,
Ingrid foi, dos 16 aos 21 anos, referência
de uma geração. Por causa da peça,
que rodou o Brasil quatro vezes, passava meses longe
dos pais – um jornalista e uma advogada –,
vivenciando com as outras atrizes aquilo que não
demoraria a apresentar no palco. Com elas, dividiu
quartos, choros e alegrias, como sempre fez com as
irmãs, Astrid, 37, e Sigrid, 34 (nomes definidos
na lua-de-mel dos pais, inspirados em antigas rainhas
suecas). E o mesmo ela fez mais tarde, com a comediante
Heloísa Perissé, a Lolô, que
conheceu na fila de um teste para um dos programas
de Chico Anysio. Embora já tivessem enfrentado
filas e filas, dessa vez o encontro renderia um sem-número
de gargalhadas. O espetáculo Cócegas,
escrito e interpretado por ela e a amiga Lolô,
já dura sete anos e é um estrondo,
assim como seu derivado infantil, Cosquinhas.
A parceria ainda rendeu quatro anos de Sob Nova
Direção, na Globo, aos domingos. “Foi
quando entrei na TV pela porta da frente.”
Top Ingrid
Hoje, aos 36 anos, as portas se abrem para ela. E
Ingrid abre portas de mulheres famosas e anônimas
no programa de sua autoria, Mulheres Possíveis,
no GNT, já em sua segunda temporada. Aos
domingos, no Fantástico, a atriz
encarna a top model Leandra Borges, inspirada em
Gisele Bündchen, e encara o “povão”,
como diz. Ela adora. Com esse povão, constatou
algo em que sempre acreditou: “É assim,
no anonimato, que se é mais feliz”.
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