a boquinha bem desenhada jorram palavras. Um discurso redondo, bem articulado, auto-explicativo. Só o que é correto é dito. Mas quem se importa? A paisagem é linda: olhos verdes, rosto másculo, voz aveludada, com o sotaque lisboeta já bem domado saltando aqui e acolá. Benza-o, Deus! Ricardo Pereira, o ator português da novela global das seis, Negócio da China, acreditem, dispensaria o palavreado. Tão bom exercitar a contemplação. Ele fala sério. Eu pratico o olhar.

“Acho que a vida tem que ter um pouco de tudo. Para existir equilíbrio. Não acho legal dizer: ‘Sou só assim’. Gosto de ir à praia, conversar com as pessoas, viajar, ler, namorar”, explica o moço bonito. “Não se pode ficar preso. Tem que ouvir, tem que se chocar, tem que se questionar a própria postura. O desafio é todos os dias ser surpreendido com uma matéria-prima, textos de novela, roteiros, coisas que sejam difíceis de superar. O sotaque é uma superação diária para um dia eu fazer o papel de um brasileiro. Você tem que mostrar versatilidade. Eu não sou só o menino galã”, garante.

Meio-dia, quinta-feira, estamos no Celeiro, na Dias Ferreira, uma rua do Leblon onde as celebridades circulam aos borbotões para depois reclamarem dos paparazzi. Ricardo pede um suco de laranja e conta que já pedalou até o Arpoador, jogou uma hora de frescobol e planeja uma tarde de frente para o mar lendo o livro Mafaldisses, crônicas de uma amiga da terrinha, Mafalda Ribeiro. No fim do dia, vai cozinhar. Depois quer pegar um cinema, ver Última Parada 174, filme de Bruno Barreto, um dos dois diretores com quem Ricardo adoraria trabalhar no Brasil. O outro é Walter Salles. O programa de fim de noite será encontrar os amigos. Alguns deles, diga-se. Ele tem muitos. E tomar um vinho. O rapaz diz entender do assunto.

“Eu sou o cara do bom vinho. Entendo bem. Chope, eu bebo um, dois e fico pesado. Gosto de vinho alentejano, argentino, chileno. Sou aquela pessoa que adora reunir pessoas, abrir uma garrafa”, diz. “Sou reservado, mas não tímido. Sou de falar, um comunicador. Se estiver surfando, converso com o cara do lado. No meu prédio, falo com o porteiro. Você não deve deixar de experimentar a vida. Na sexta estou com uma galera. No sábado, com outra. E no domingo, com uma que nem conheço.”

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