Vibrante e sossegada
Impiedosa no inverno, Zagreb é maravilhosa na primavera. Cheia de parques,
numa simples caminhada dá pra ouvir passarinhos, deitar entre margaridinhas,
respirar um ar fresco delicioso e ver muita gente na rua. A pé, de bicicleta,
tomando sorvete ou bebericando nos cafés das calçadas, os croatas
aproveitam. Gente alegre, os homens bonitos te olham nos olhos e te paqueram
de um jeito nada agressivo. Uma vida ao mesmo tempo vibrante e sossegada, onde
os muitos velhinhos têm
espaço pra passear nos bondes e nos mercados.
Fomos acomodadas pelo festival em apartamentos
simpáticos em prédios residenciais.
Deu pra ouvir vizinha tocando piano, dar de cara
com senhorinha vendendo queijo caseiro na porta de
casa, conhecer a moça
da padaria da esquina. Aliás, as pekarnicas
estão em toda parte, vendem folheados e pães,
alguns deles maravilhosamente integrais, herança
dos austríacos que por ali passaram.
Tiros de canhão e poetas amados
Ficamos
perto de Ilica, a rua mais longa da cidade, que dá na
praça principal, Josipa Jelacica,
a famosa “praça do cavalo”. Lá, é o
centro vital de Zagreb, onde tudo acontece. Dali,
passando pelo mercado de Dolac, pode-se subir para
Kaptol e Gornji Grad, a Cidade Alta. Foi sobre esses
dois morros que Zagreb foi fundada e lá estão
os prédios mais antigos, as ruazinhas
mais estreitas e a famosa catedral, cuja torre pode
ser vista de toda a cidade. Dizem que, no início
do século, um poeta escalou o alto da torre
só pra ficar lendo, apreciando a vista. Causou
um dos maiores tumultos de que os antigos têm
notícia. Mas não deve ter feito metade
do barulho que se ouve todos os dias às seis
da tarde: um tiro de canhão
é disparado pontualmente desde tempos esquecidos. Atrás de Gornji
Grad, fica o parque de Tuskanac, uma caminhada imperdível pela zona
mais rica da cidade, com luxuosas casas antigas e muitas estátuas de
poetas.
Na Croácia, como em outros países
eslavos, os poetas e escritores são muito
amados e dá uma peninha pensar que a gente
nunca vai compreender aquela língua de sonoridade
tão bonita. Croata e sérvio são
a mesma língua com pouquíssimas diferenças.
Mesmo assim, os croatas ligam reclamando se a televisão
ousa passar algum filme com legendas sérvias.
Minha amiga Janja, filha de pai croata e mãe
sérvia, só utiliza o sobrenome croata
e não conta a origem da mãe. Herança
de uma guerra que não atingiu Zagreb e da
qual não se fala mais. Os únicos a
comentarem sobre ela por livre e espontânea
vontade são os taxistas, mas nenhuma conversa
compensa os preços caríssimos que eles
cobram. Melhor ir de bonde ou a pé, já queé tudo
muito perto.
Vale a pena sair do centro e atravessar o rio Sava
para conhecer Novi Zagreb, área construída
durante o regime comunista. Na arquitetura, fica
visível o modelo de sociedade: grandes prédios
residenciais, muita área de lazer e muitas
escolas. No meio dos brinquedos dos jardins-de-infância,
estão mais de 90 bunkers bandonados à espera
de que as autoridades resolvam o que fazer com eles.
Enquanto isso, bandas de rock usam o espaço
para ensaios clandestinos. Vivemos 15 dias de uma
vida cultural agitada. O festival, uma bienal de
artes gráficas com direito a balada no museu,
exposições e lançamentos todas
as noites.
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| Dos eventos em Jelacica, a feira tradicional
foi o mais bacana; bunker no jardim-de-infância:
o lugar mereceu uma porta fixa |
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