Samba de berço

Filha de um dos fundadores da Portela, Neide cresceu entre pernas e saias de bambas. Há cinco anos, atravessou a fronteira das gerações para se tornar a caçula da Velha Guarda da escola

Neide Sant'Anna, 55, já estava com a fantasia pronta quando tia Doca sentenciou: “Você é filha de Chico Sant'Anna [um dos fundadores da Portela, falecido há 20 anos] e tem direito de desfilar na Velha Guarda”. O grupo carioca estava com show marcado em São Paulo, e tia Doca com calo nas cordas vocais. Neide nunca foi de conviver muito com o pai nas rodas porque sabia que ele implicava que ela, uma garota, se misturasse com os bambas. Talvez por isso a idéia de fazer parte da turma dele nunca tenha passado pela sua cabeça. A herdeira só viu que o papo era sério quando foi aplaudida pelos veteranos que a ouviam cantar, ao lado das novas companheiras, o hino da Portela, na tradicional feijoada de domingo. Isso foi há cinco anos, e, desde então, deixou o cargo de encarregada de serviços gerais no Tribunal Regional Eleitoral para ser sustentada pela música. “É difícil um patrão aceitar o funcionário cantando samba e se balançando”, diz ela, com sua voz grave. Cria da Portela, como se define, desfila desde os 15 anos e já foi bordadeira da escola. Além disso, trabalhou como copeira e empregada doméstica até virar “cantora popular” e fazer show até na França. Neide atendeu à reportagem da Tpm às oito da noite de um dia útil. “Já jantei, não tenho mais nada para fazer hoje.” Mãe de dois filhos adultos e duas vezes ex-casada, ela já deixou o primeiro marido, que não gostava de samba, voltar sozinho para casa. De perna de fora, continuou na avenida com o filho, ainda de colo. Hoje, não quer saber de homem. “A gente tem é que achar solução para a nossa vida”, fala com muito tempo pela frente. E nenhuma pressa.

 

Assista a trechos do filme Mistérios do Samba
 
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