Tpm. Em um momento do filme, um dos sambistas conta que, caso o samba não caísse no gosto das tias, não emplacava. Qual a importância dessas mulheres para a Velha Guarda?
Marisa. Apesar de a maioria absoluta dos compositores ser homens, elas eram inspiração e co-autoras da existência de todos eles. Quando um samba novo chegava à quadra, se fosse cantado pelas mulheres logo no primeiro momento, as vozes femininas davam vida e as eternizavam como clássicos. Toda a comunidade aprenderia. Músicas que falavam da mulher de forma indelicada não tinham vez. Os homens sabiam disso.
No filme fica claro o quanto você é respeitada pela Velha Guarda. Por exemplo, quando entra sem cerimônia na casa de uma das tias. Como conquistou essa proximidade?
Desde 1993, fizemos muitos shows juntos. Os sambistas gravaram comigo músicas como“Ensaboa” [no álbum Mais] e “Essa Melodia” [em Cor de Rosa e Carvão]. Já produzi um álbum deles [Tudo Azul] e o álbum do Argemiro Patrocínio [em 2002].Desde 1999, estou envolvida com o documentário O Mistério do Samba. São muitas horas de vôo. Essa intimidade e confiança só acontecem com o tempo.
O que aprendeu de mais legal – de música e de vida – com
essas mulheres?
São mulheres guerreiras, que encaram as dificuldades com graça e poesia. São exemplos de força e poder feminino. O convívio com elas é um
deleite para qualquer mortal.
Conte um “causo” que tenha ficado guardado pra sempre na sua memória.
Quando meu filho nasceu, dona Doca veio de ônibus, trazendo um enxoval de presente. Fiquei muito comovida com o carinho e com a visita. Nunca vou esquecer. Uma conversa com ela, Surica, Áurea ou dona Eunice é uma aula. É pra ser vivido, não dá pra explicar.
Essas mulheres fizeram tanto pelo samba e hoje são tão pouco reconhecidas. Por quê?
É o mistério do samba. |