A dona da vila

A plaquinha “Cafofo da Surica” sinaliza que estamos na casa da maior figura da Velha Guarda da Portela. “Minha avó dizia que suriquinha era um objeto pequeno e roliço”, fala, com voz vigorosa, a mulher de 1,47 metro que quer chegar aos 80 quilos depois de atingir 92. Para isso, Iranette Ferreira Barcellos, 67, parou de beber. Na Velha Guarda desde 1980, 14 anos depois de cantar o samba-enredo campeão “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Paulinho da Viola, ela já foi lavadeira, operária e vendeu churrasquinho na frente da escola de samba. Desfilou na Portela pela primeira vez aos 4 anos, presa à cintura da mãe e protegida pelo pai. Áurea, filha do líder Manacéa e colega de banda de Surica, destaca o temperamento “espontâneo e espoleta” da sambista, com quem seu pai tinha bastante intimidade.“Quando qualquer uma das tias ia pro boteco antes do show, ele ralhava só com ela, como se fosse seu pai”, conta. Criada pelos avós depois de perder a mãe soterrada em casa, e pensionista do pai, que era ferroviário, Surica mora com uma irmã e o cachorro, Pink, que morde as visitas que o acariciam. Em 2004, ela lançou seu primeiro CD solo.Nunca fez questão de marido, apesar de ter namorado muito. “Homem nenhum agüentou ficar do meu lado por causa do samba. Agora procuro um companheiro, mas não aparece um cristão que preste”, desabafa, enquanto frita salgadinhos para a reportagem da Tpm, que resolve ficar mais um pouquinho.

Ela sabe o que diz

Áurea cresceu vendo o pai, o consagrado compositor Manacéa, escrever músicas no quintal de casa. Nascida de um casamento que só acabou quando ele morreu, coisa rara nesse meio, a garota aprendeu a cantar as músicas no terreiro, onde era levada pela mãe, dona Neném.“Papai achava que samba era coisa pra homem”, lembra. E há 20 anos provou que ele estava errado ao assinarem juntos “Volta Meu Amor”. Aos 56, Áurea reproduz a timidez do pai e transparece no discurso pausado e articulado a educação que teve. E agora entende a preocupação de Manacéa. “Ele tinha medo que a gente se encantasse pelo samba e não quisesse trabalhar.” Para a tranqüilidade do patriarca, as três filhas estudaram enfermagem. E, para seu orgulho, há dez anos Áurea faz parte da Velha Guarda. Integrante da Portela desde a década de 60, ela acredita que as mulheres cada vez menos vestidas na avenida são conseqüência da comercialização do samba. “Na época em que era marginalizado, havia mais decência. Pelo menos na Portela, o samba era digno, seguro e tinha moral.” Casada há 11 anos, ela nunca quis ter filhos, mas se diz avó dos sobrinhos- netos. Desde que Manacéa morreu, Áurea nunca mais compôs. “Ele dava opiniões nas músicas. Sem esse apoio, me desestimulei.”Agora, que acaba de se aposentar como assistente social e passar o posto de mais nova componente da Velha Guarda para Neide Sant’Anna de Albuquerque, ela quer retomar a vocação.

Mãe do pagode

Foi Jilçária Cruz Costa, a Doca, e seu ex-marido, Altair, que, há 34 anos, inventaram o pagode: ensaio da escola fora da quadra, com direito a cerveja e comida. Zeca Pagodinho, então com 17 anos, era um dos freqüentadores e descobriu a vocação no quintal da vila em que morava o casal, no subúrbio carioca de Madureira. Única filha mulher de dona Albertina, Doca seguiu o exemplo da mãe e nunca pediu pensão a Altair, quando ele a abandonou com seis filhos. A sambista nascida no morro da Serrinha, em Madureira, trabalhou como tecelã, empregada doméstica e vendeu sopa. Hoje, com apenas três filhos vivos, ela não perde o humor. “Quando encontro um homem, falo logo na mulher e na mãe, aí ele não vem com conversa fiada.” Foi com Beth Carvalho que fez coro pela primeira vez, num disco de 1978. Desde então, Doca já trabalhou com Clara Nunes, Marisa Monte e o próprio Zeca Pagodinho. Entrou para a Velha Guarda nos anos 70 e comemora as visitas a França, Itália e Estados Unidos. No apartamento em Madureira que financiou em 2002, caminha com dificuldade até o telefone, que anuncia mais um dos muitos convites para comparecer em pagodes. Raramente ela aparece. Há 20 anos parou de fumar, e, agora, com uma doença que chama de “coração grande” (miocardia), largou a bebida e o jantar. Mas não perdeu o jeito malandro de contar “causos”. Sem se abalar com os 75 anos completos, ela ainda solta a voz e o samba nos pés em ocasiões especiais.

  home | 01 | 02 | 03 | TPM+ | 01 |
comente