Um pênis bonito é um pênis bonito
Segundo a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins, autora do sucesso A Cama na Varanda e de Amor a Três (ed. Best Seller), lançado este mês, na década de 50 mulher e prazer eram palavras incompatíveis. A repressão vigente implicava inibir o gosto pelo sexo. Se ela demonstrasse algum apreço, eles não se casavam. Com a chegada da pílula anticoncepcional, pôde-se dissociar o sexo da procriação e, então, aliá-lo ao prazer. “Ainda assim, a mulher sempre procura juntar o prazer ao amor; já o homem nunca foi cobrado a transar com amor. ”Ela afirma que hoje o número de mulheres se iguala ao dos homens nas relações extraconjugais por uma razão simples: elas têm o mesmo prazer sexual.“ Um dos motivos de a mulher gostar de canal erótico é que ver o ato sexual é excitante para as duas partes. Acho que esses 30% de audiência feminina daqui a pouco vão ser 50%”, aposta Regina. E completa: “Os homens sempre puderam ver corpos nus, as mulheres não, mas hoje elas já começam a achar que um pênis bonito é um pênis bonito sim. Com o tempo, mais mulheres vão se libertar da idéia de que sexo só é bom com amor. E não vão se estranhar quando sentirem que o prazer pelo prazer pode ser tão bom quanto”, acredita.

Se as mulheres estão consumindo mais sexo, estão também produzindo. Ao contrário do que se podia pensar, por trás de cada programa, sinopse, título e break do canal Sexy Hot não estão homens barbados, mas quatro mulheres entre 26 e 27 anos. Antônia Canto, responsável pelo site no qual edita os contos eróticos enviados pelos internautas e pelo marketing, é a veterana da equipe, com cinco anos de casa. Foi parar nos “canais adultos” quando, ainda estudante de jornalismo da PUC-RJ, aos 21, inscreveu-se no banco de talentos da Globosat e, chamada para teste no SporTV, não passou na prova de esportes.“Mas para o Sexy Hot não teve prova de conhecimentos específicos não”, lembra, rindo. Ainda no ensino médio, Antônia estagiou no laboratório de esquistossomose na Fundação Oswaldo Cruz, porque gostava de biologia. Por dois anos, observou ratos e cuidou de caramujos. Descobriu depois que isso a ajudou a conseguir a vaga, já que de fresca não tinha nada. Importante para a convivência diária com o sexo explícito.

No início, por causa do “conteúdo adulto”, seu turno nas ilhas de edição da Globosat era da meia-noite às seis da manhã. Não demorou a ouvir de seu pai: “Como você vai trabalhar num canal pornô de madrugada?”. A saída foi uma inspeção no local: aprovado. Não fosse pelos monitores ligados nos cinco canais de sexo, pelas persianas nas janelas (para afastar curiosos) e pelo famoso coelho da Playboy estampado na porta, não daria para dizer que ali é montada a grade de programação do Sexy Hot – os outros canais, Playboy TV, Venus e Private, são produzidos em Miami e em Buenos Aires.

Em casa, no escritório...
Lá não tem nada de estúdio, sofás ou câmeras. Tampouco as profissionais são atrizes pornôs, como pensam alguns desinformados. Marcela Leone, 27, dispensou um paquera que mudou seu discurso quando soube que ela cuidava da programação do canal.“Ele começou todo fofo e, quando soube que eu trabalhava aqui, chegou me chamando de gostosa e criando fantasias”, conta a flamenguista roxa. Filha única de mãe superprotetora e de pai evangélico, Marcela não se lembra mais do medo que sentia de encarar o sexo de forma natural. “Ficou mais fácil aceitar as diversas formas de prazer que as pessoas buscam”, conta. Porém, encarar cenas de sexo explícito logo cedo às vezes embrulha o estômago: “Cansei de ligar a TV e estar passando uma cena esdrúxula, o cara abrindo a mulher às nove da manhã...”. Há pouco mais de um ano, a rotina de Marcela inclui supervisionar, pelo menos por nove horas diárias, se o que está no ar bate com a grade de programação. Quando chega em casa, onde mora sozinha, sempre dá uma conferida. “Independentemente do conteúdo, temos muito cuidado com o que fazemos. Muita gente diz ‘filme de sexo é de qualquer jeito’, mas não, tudo é bem pensado”, explica a jornalista, que também cuida da edição do Zona Quente – programa de comportamento sexual que mostra making of de filmes pornôs, clubes de swing, festas temáticas, entrevistas com famosos – e do Boa de Cama – que apresenta dicas sexuais, incluindo aí saúde e posições, num tom bem didático –, ambos criados focando a audiência feminina.

Marcela já trabalhava nos canais Premiere quando foi convidada pelo diretor da Playboy do Brasil, Maurício Paletta, que tem preferência clara por trabalhar com mulheres. “É para manter um certo respeito. Senão, teria que ficar policiando os homens para não deixar virar papo de bar”, diz. Se precisa de algum pré-requisito para trabalhar no Sexy Hot? Ele garante que não: “Os requisitos são os mesmos de uma profissional do Telecine, por exemplo. Você compra o filme, faz a grade de programação, as chamadas, a publicidade”, complementa o diretor.

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