David, de tio coruja com a sobrinha, Sol, em 1979; Simão, criador da Yes Brazil e do biquíni jeans, e David, que, da idéia do irmão, fez nascer a Blue Man
 


Você tem uma família unida, então?
Sim, graças a Deus. Todas as sextas-feiras fazemos o shabat lá em casa, meus sobrinhos estão sempre aqui comigo e são também muito ligados a minha filha, a Sharon, apesar da diferença de idade. A Sol tem 28 e ela, 16.

Vocês nasceram em Belém. Vieram para cá por causa do trabalho dos seus pais? Não. Quem decidiu fomos nós, os filhos. Eu com 12 anos e o Simão com 16. Ele veio morar na casa da minha avó e eu com uma tia. Depois deu uma confusão, eu briguei com a minha tia e o Simão tomou meu partido. Aí nossos pais acabaram vindo atrás. O meu pai disse que a gente teria tudo em Belém e que no Rio ele não garantia nada. A gente nem pensou duas vezes em vir. Eles vieram uns quatro anos depois, quando alugamos um apartamento que eu e meu irmão bancávamos. Aí começou essa coisa de “borda, pinta, costura”.

Eram bicos? Não. Era business já, porque rolava. Lembro que uma vez o Simão fez uma calça jeans incrível e a Gledson [marca paulista dos anos 70] pediu mil calças, uma coisa absurda. Nessa época a gente brigava tanto que ele decidiu arrumar outro sócio. A gente saía no pau já na porta de casa. Era assim: “Vamos lá comprar tecido”. Aí ele dizia: “Como é que é? Você vai assim? Coloca uma roupa decente!”. Eu, me achando lindo, dizia: “Eu vou de chinelo sim”. Aí nenhum dos dois ia. Foi quando eu decidi que ia fazer biquíni. Um dia ele chegou com o sócio e me disse: “Ainda bem que você não foi. Fui numa fábrica grande de jeans, uma coisa séria, imagina se você chegasse lá com essa cara”. Não pensei duas vezes. Acordei cedo, roubei a chave do carro dele, entrei lá para pegar o endereço da fábrica e fui lá comprar jeans para fazer o tal biquíni.

E ele te apoiou quando você resolveu fazer o biquíni de jeans? Como não ia apoiar? A idéia foi dele! Mas o Simão não gostou porque, quando vi o biquíni, achei bem louco. Então aproveitei uma hora em que ele não estava e saí correndo com a peça pelas butiques de Copacabana. Voltei cheio de pedidos. Ele ficou puto, mas acabou concordando em fazer. O problema foi quando o biquíni chegou às lojas. Eu voltei para casa todo contente e as mulheres começaram a me ligar xingando, porque o biquíni não tinha elasticidade e não passava nem na perna. Foi aí que eu resolvi cortar e amarrar. Acabei criando o biquíni de lacinho.

Suas brigas com o Simão eram sérias? Nunca brigamos, por exemplo, por causa de dinheiro. Mas ele tinha ciúme da minha independência, porque percebi que tinha que me virar comercialmente e então resolvi fazer biquíni. Se eu fosse fazer roupa, estava ferrado. Nunca ia ser tão bom como ele. A gente tinha uma competição e o meu maior orgulho era poder chegar para ele e falar: “Esse mês eu faturei mais que você”.

Era uma competição saudável? Totalmente. Tanto que, quando ele morreu, perdi o tesão pela marca. A Blue Man quase faliu. Eu não tinha mais tesão para nada porque não tinha com quem competir, perdi o meu maior estímulo.

 
 
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