À esq., David e o pai em frente à loja da Blue Man, em Miami, fechada em 1996; menino do Rio, aos 25 anos, clicado pelo amigo Márcio Madeira, responsável por uma das campanhas mais famosas da marca
   
 

Tpm. Você desfilava no Fashion Rio e este ano fez Fashion Week. Isso causou a maior polêmica e parte da imprensa carioca se comportou como se estivesse sendo traída. O que você achou disso?
David. Estou de saco cheio desse assunto... Já tinha feito seis anos de Fashion Rio e a gente estava acomodado. Achei que era bom para a Blue Man dar uma mexida. Essa mexida era voltar a desfilar em São Paulo. Mas antes eu tinha que fazer a Lapa [onde a marca desfilou em 2006] e o Copacabana Palace [2007]. Aí, encerrei um ciclo.

Você gosta, tem prazer em fazer desfile? Faço obrigadíssimo. Não gosto. Sei que é arriscado e o risco me apetece. Adoro colocar minha cara a tapa. Para mim desfile é um mal necessário. Mas tudo é chato, tem essa coisa de “ter que” chamar a Izabel Goulart ou uma modelo dessas. Você pergunta quanto é o cachê e é R$ 30 mil, que é uma coisa absurda. Depois tem que convidar celebridade, pensar em primeira fila. Não gosto.

Além de a moda estar na moda, vivemos uma época em que as celebridades têm papel de destaque no meio. O que você acha disso? Acho legal. Se aparecesse um monte de mulher famosa no meu desfile, ia adorar. O que eu não gosto é de paparicar. E essa coisa de celebridade não tem nada a ver com a Blue Man. Meu objetivo é fazer um desfile para que a imprensa fale bem e a imagem da grife circule. Adoraria ter gente que tem a ver, como um Pelé. Este ano decidi chamar o Cauã Reymond, mas porque ele faz showroom para a Blue Man desde que tinha 17 anos. Para mim ele não é uma celebridade e sim um menino que incorpora o Rickson [Gracie], o [Paulo] Zulu e o Alain Delon. É um surfista e um lutador que é bonito. Isso tem tudo a ver com a minha marca. Se fosse, por exemplo, um Wagner Moura, eu não ia querer. Porra, o cara é feio pra caralho. Tem uma voz maravilhosa e adoro ele como ator. Mas não tem nada a ver com minha marca.

Muitos estilistas também acabam virando celebridades. Como você evita isso? Sou celebridade na feira, no açougue. Tem gente que aparece muito, que faz qualquer coisa pela marca. Eu acho isso uma roubada. O dia em que a Blue Man acabar, não vou ser o David que era da Blue Man. Vou ser a mesma pessoa. Vou continuar sendo o David Azulay, filho da dona Sol, irmão do Simão [criador da Yes Brazil]. Não sou de badalar, sou ruim pra sair de casa. Detesto freqüentar evento.

E você tem amigos no mundo da moda? Não. Meus amigos são pobres. Tenho muito amigo de infância, outros da praia. Não sou amigo do Oskar [Metsavaht, dono da Osklen] nem do Napoleão [Fonyat, proprietário da Sandpiper]. São meus colegas de trabalho, mas não vou ligar e chamá-los para sair. Nunca fui chamado para nada nem convidei nenhum deles para nada. Admiro alguns, mas não são meus amigos.

Hoje muitas marcas estão sendo vendidas. Você venderia a Blue Man? Olha, minha empresa tem 36 anos. Desde quando ela tem 30, quero vender. E nunca me procuraram. Acho que é porque a minha empresa é saudável e os investidores preferem comprar dívidas, que é o que eles sabem administrar.

Mas por que você quer vender? Quero vender porque tenho um plano. Minha filha está com 16 anos. Imagina deixar uma empresa desse tamanho na mão da menina. Há dois meses comprei a parte do sócio do meu irmão da Yes Brazil para os meus três sobrinhos [Tomas, Rafael e Sol hoje trabalham na Blue Man]. Vou dar o start nos negócios, acho muito difícil para essa geração administrar uma empresa. Eles tiveram tudo na mão, não têm a gana que a gente tinha. O Simão, por exemplo, era um criador, não tinha o menor jeito de administrador. Mas era louco para vender, inclusive para sustentar o luxo dele, porque era um cara que gostava de comprar coisas boas.

E vocês eram filhos de uma família de classe média? Classe média baixa. Meu pai era corretor de seguros e minha mãe, costureira e bordadeira. Ela influenciou a gente demais. O Simão era cheio de idéia, chegava e falava: “Vamos pintar Congas!”. Minha mãe supervisionava e eu roubava o que sobrava e vendia. Eu tinha uns 16 anos e o Simão, uns 19. Na época da cacharrel ele criava uns bordados, fazia com a minha mãe a peça piloto e a gente vendia nas lojas. Minha mãe depois coordenava a produção com as bordadeiras.

Sua mãe continua participando dos seus negócios? A minha mãe hoje gosta de colocar açúcar em tudo. Isso é uma superstição antiga dela [risos]. Coloca açúcar na passarela, na fábrica, vai nas lojas e sai colocando açúcar na mão das vendedoras. Elas adoram a minha mãe e às vezes falam: “Pelo amor de Deus, fala para a dona Sol passar aqui e colocar açúcar!”.

 

 
 
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