Você bebe? Não bebo, não cheiro, não faço nada. Vou sofrer para parar o cigarro porque é fácil a compulsão de jogar os problemas, se tranqüilizar. Mas a chegada da minha filha me trouxe culpa. “Pô, por que fumei tanto? Por que usei drogas? Por que dormi pouco?” É menos tempo que você vai ter para aquela pessoa. Caiu a ficha de que eu vivi 35 anos pra esse ser que tá chegando. E junto vem a felicidade de ser um cara legal pra recebê-la. Entro em pânico de pensar que minha mulher carrega uma pessoa na barriga. “Caralho, tem um alien dentro de você, que se mexe. Não é um monte de merda que tá no seu intestino. É uma pessoa, que coça a cabeça na sua barriga.” Cara, é surreal. Minha mulher fala: “O pior é que tem que sair” [risos].

Lulu Santos chama o garçom e reclama do cigarro que Milhem acaba de acender.

O Lulu Santos reclamou para o garçom que você está fumando. Vamos lá fora. Eu gosto tanto desse cara, brother, que não vou nem mandar ele tomar no cu. O show dele é foda. Ele rebola como ninguém. Queria rebolar igual a ele [risos]. Mas, se eu não estivesse bem, ia mandar ele tomar no cu. Sou impulsivo, é um dos meus maiores erros. Sempre tenho razão e perco com a maneira como me coloco. Sou muito grosso, violento com as palavras. Por exemplo, a invasão dos caras que vendem coisas no farol. Tudo bem, essa porra desse mercado livre de vender coisa no farol, um bando de babaca sem força na vida. Porque existem muitas dificuldades, mas não pode ter tanta gente passando a mesma coisa. Se eu tô bem, eu até dou R$ 1. Se eu não tô muito bem, falo: “Ô, brigado, amigo”. Agora, se eu tô mal, eu falo: “Enfia esse espanador no seu cu” [risos].

Como foi sua infância? Meus pais achavam que eu era rebelde. Mas uma criança com 12 anos não pode ser rebelde, era excesso de criatividade. Eu não gostava de ir pra escola e usei droga na adolescência. Mas meu caráter é limpo porque tive uma educação sensacional dos meus pais. Meu pai vendia cachorro-quente na Cardeal Arcoverde [zona oeste de São Paulo], agora abri um bar para ele [em São Paulo, Cortás (espetos e pastéis), com “s”, como era o nome do Milhem antes de ele cansar de corrigir a imprensa]. E está dando certo! [Comemora, levantando os braços como quem vibra por um gol no futebol.] Minha mãe tinha uma lojinha, sacou? E os dois eram muito ausentes, trabalhavam pra caramba. Meu avô é da roça. Todos os meus personagens têm meu avô, é um cara que eu fui entender depois de anos. Já apanhei dele porque fui dar um beijo no seu rosto. Minha mãe tem essa repulsa, não consegue te abraçar plenamente. Eu nunca... nossa, eu nunca deitei no colo da minha mãe. Mas falo isso sem problemas, aprendi a entender o amor dela. Meus pais se separaram quando eu tinha 11 anos. Foi meu pai que me levou numa igreja na Mooca para fazer um encontro de jovens. Aí fui, rebeldão, com 12 anos [risos]. Um dia o [ator e produtor] Walmor Chagas me viu fazendo uma peça de teatro lá e eu topei fazer O Santo Milagroso, dirigida por ele. Depois morei na Itália por quatro anos. O teatro me curou, canalizou essa energia.

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