e Milhem é um homem bonito, há controvérsias. Mas é tão homem que isso não vem ao caso. “Eu sou um puta cara charmoso. Sou grande, tenho voz grossa, corpo bonito, nariz imperfeito, um olhar diferente”, diz o próprio, tirando as palavras da minha boca. Apesar de interpretar um bombeiro mulherengo na sua quinta novela na Record, Chamas da Vida, Milhem não tem barriga de tanquinho nem falsa modéstia. “Me acho foda”, dispara enquanto ri, come macarrão e bate na mesa. Com esse mesmo jeitão, esse descendente de italianos e árabes conta que parou de usar saia porque ficou famoso, que dormiria abraçadinho com um amigo e que queria saber rebolar como o Lulu Santos. Sua presença de 1,80 metro silencia as pessoas ao redor. Praticamente gritando no restaurante paulistano em que conversou com esta repórter, ele solta: “Sou um cara observador. Prefiro ouvir a dar minha opinião”. E fala sem parar pelas duas horas seguintes. A impressão é que, a qualquer momento, ele pode tanto te dar um abraço afetuoso – “o que me move é o amor” – como sair na porrada com alguém da mesa ao lado.
O ator paulistano que chamou a atenção ao interpretar um travesti na peça O Melhor do Homem, de Ulysses Cruz, nos anos 90, hoje é um dos mais requisitados do cinema brasileiro. Fez sucesso como o Peixeira, de Carandiru, mas estourou com o “02”, de Tropa de Elite. Com 11 peças e 20 longas na bagagem, ele está em sete filmes que serão lançados até o ano que vem: Nome Próprio, de Murilo Salles, Nossa Vida não Cabe num Opala, de Reinaldo Pinheiro, Encarnação do Demônio, de José Mojica Marins (o Zé do Caixão), Meu Mundo em Perigo e Se Nada Mais Der Certo, de José Eduardo Belmonte, Plastic City, do diretor chinês Yu Lik-Wai, e Augustas, de Francisco César Filho.
Milhem brinca que escolheu a profissão para acordar tarde, não estudar e “comer” todo mundo. Hoje, é mais amigo de quem faz o trabalho braçal (técnicos e motoristas) do que dos atores da TV. Entendeu o que é limite com uma síndrome do pânico depois de 13 anos sem férias e sabe de cor Racionais MC's e Fernando Pessoa. Ele é tão homem que vira menino quando fala de mulher. E não precisa de perguntas para dar respostas – como você confere a seguir.

Milhem. Quantas vezes passou uma gostosa na rua e um homem não pensou: “Se estivesse num beco escuro, eu comia muito ela”? A gente não faz, o Maníaco do Parque faz. É muito tênue a diferença entre sanidade e loucura. Se você for entender a cabeça dele, vai achar humanidade. E é isso que faço com os personagens: humanizo. As pessoas me param na rua e me abraçam por causa do Peixeira. O cara matou 35. Se eu não tivesse descoberto o lado humano dele, ninguém ia querer me levar pra casa. Em Se Nada Mais Der Certo, do José Eduardo Belmonte, faço um travesti. Se está certo o que eu fiz, não sei. Mas, se eu fosse travesti, seria daquele jeito.

Milhem dá uma garfada no macarrão e mastiga deixando o tomate à mostra.

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