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Tpm tem sua própria versão de Fahrenheit 451, o filme do Truffaut em que um grupamento de bombeiros às avessas toca fogo em livros. Sim, 451 graus na escala Fahrenheit – ou Celsius 233, na versão de um tradutor trapalhão – é a temperatura de combustão do papel. A história acontece num futuro cinzento, com trocadilho, em que livros estão proibidos por um governo ditatorial. Ler, afinal, é muito perigoso. Entre um parágrafo e outro, aiaiaiai, alguém pode, caracas, ter uma idéia.
Claro que não se estimula mais tocar fogo em livros – com exceção daquela infeliz decisão judicial sobre o destino dos 11 mil volumes da biografia não autorizada do Roberto Carlos. A inquisição e a Alemanha dos anos 30 se encarregaram de queimar o filme (oops!... I did it again; foi o último trocadilho, juro) dessa prática. É portanto na contramão da história que a seção “Queimando o Livro”, logo ali no Badulaque, aciona quase todo mês seu incinerador simbólico. Mas pelo motivo oposto ao que se costuma evocar ao lado de fogueiras: aqui, queima-se para pensar livremente.
Ei, se você chegou agora, seja bem-vinda e fique logo sabendo que 1) Essa piromania editorial é dirigida única e exclusivamente a títulos de auto-ajuda. 2) Especialmente, àqueles cometidos com o intuito, deliberado ou não, de anular qualquer coisa parecida com um pensamento. 3) Mais especificamente, aos livros que têm na alça de mira das estratégias de marketing o tal público feminino, também conhecido como você, leitora. 4) Que, aliás, se trata de um mercado grande o bastante para merecer a seção especial “Mulheres”, dentro da categoria “Auto-ajuda e Desenvolvimento Humano”, no site da principal empresa de comércio eletrônico do país.
Como não dá para achar normal a existência de milhares de títulos dedicados a imbecilizar a mulher, está lá na página 36 a reportagem “Quer ler um antidepressivo?”. Carol Sganzerla e Denise Gallo analisam como, diabos, ainda se insiste em dizer para uma mulher como ela deve se comportar – nos relacionamentos, no trabalho, na família, na vida. Em geral, costuma ser fácil identificar – e evitar – esses livros. De qualquer jeito, é bom ficar esperta. Os tais manuais práticos para a mulher moderna estão ficando mais e mais sutis.
Ou o filme Sex and the City – com todas aquelas regrinhas sobre como se vestir, aonde ir, o que beber e como gozar – não acaba parecendo uma espécie de Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas num salto Jimmy Choo?
Fernando Luna, diretor editorial
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| Livros na fogueira em cena de Fahrenheit 451, de Truffau |
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| “Uma das produtoras de cinema mais influentes do mundo”, Andrea Barata Ribeiro leu o roteiro desta edição da Tpm e recheou-a com toques preciosos |
Em 2007, Andrea Barata Ribeiro foi entrevistada
das Páginas Vermelhas e diagnosticada
pela Tpm com um quadro geral
de excesso de intensidade. Sócia da O2 Filmes
e responsável pela parte estratégica
da empresa, uma das maiores produtoras
de publicidade e cinema da América Latina,
ela simplesmente não conseguia se
desligar. Foi eleita uma das “50 produtoras
de cinema mais influentes do mundo”
pela revista Variety em 2005 e desenterrou
o cinema nacional com Cidade de Deus –
foi ela quem avisou Meirelles que o livro
renderia um bom roteiro. Na época da entrevista,
ela já tinha no currículo também
filmes de peso como Domésticas e Cidade
dos Homens e séries como Antônia e Filhos
do Carnaval. Trabalhava dez horas
por dia, lia roteiros, fazia ginástica e ainda
arrumava tempo para sentar no chão e
brincar com as duas filhas pequenas.
Muita coisa aconteceu de lá para cá:
novos lançamentos, projetos, idéias – mas pouco mudou na sua
rotina. O tempo ainda é curto para os mais de 50 assuntos com
que lida por dia, e a impaciência ainda é grande com pessoas vagarosas.
Perfeccionista, rápida e atenta, aos 43 anos ela continua
participando ativamente do cinema nacional e, agora, mais do
que nunca, internacional. Em 2007, a adaptação do livro Ensaio
sobre a Cegueira, do escritor português José Saramago, era um
projeto com o sócio Fernando Meirelles. Este ano, o filme Blindness
foi uma das estrelas do Festival de Cannes. Acostumada a
comparecer aos grandes eventos de cinema pelo menos cinco
vezes por ano, Andrea conta aqui os bastidores da premiação. A
visão de quem esteve por trás de um dos filmes mais badalados
da temporada e algumas fotos exclusivas do evento você confere
na página 104. É dela também a indicação de Chris Rieira, responsável
pelo departamento de roteiros da O2, para começar a seção
Amiga-da-amiga desta edição (pág. 30). Do trabalho, Andrea ainda
indicou a produtora Bel Berlinck, que foi para o Xingu pesquisar
um novo projeto e contou tudo o que fez em 24 horas (pág. 99). De
recomendações de fotógrafos a nomes para as Páginas Vermelhas,
Andrea palpitou em tudo. As sugestões foram tão legais que
vão além desta edição e, em breve, estarão em nossas páginas.
Esta é outra característica de Andrea: o que faz dá certo. |
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