O sincretismo era tema recorrente na literatura de Jorge Amado. Nunca discutiram sobre isso? Não, seria muito injusto da minha parte. Jorge, com seus livros, ajudou a popularizar o candomblé. Esse é o seu legado. A gente tinha formas diferentes de pensar a religião, mas isso jamais diminuiu minha admiração por tudo que ele fez pela cultura africana.
Segundo levantamento do IBGE, de 1980 a 1991, os cultos afro-brasileiros perderam cerca de 30 mil adeptos. Outra pesquisa aponta que, nos anos 90, 16% dos adeptos das igrejas pentecostais migraram dos terreiros. É difícil disputar fiéis com os evangélicos? Nós não disputamos fiéis com ninguém. Digo de novo: religião não se impõe. E não precisamos desqualificar a outra religião para promover a nossa. Não somos iguais a eles, ainda bem.
Recentemente, o prefeito de Salvador, João Henrique, evangélico, autorizou a derrubada do terreiro Oyá Onipó Neto. O que a senhora achou disso? Ele derrubou o Oyá Onipó e nós reagimos [representantes de diversos terreiros de candomblé e do movimento negro lideraram uma passeata em direção à prefeitura, exigindo um pedido de desculpas formal de João Henrique]. Ele pediu desculpas e se comprometeu a reconstruir o terreiro e regularizar os outros. Não há uma perseguição direta do prefeito ao Afonjá. E nem terá. Ele sabe que somos fortes.
Mãe Aninha, sempre polêmica, provocou um escândalo no começo do século passado, sobretudo entre os católicos, ao afirmar, categoricamente, que Jesus Cristo era negro. A senhora concorda? Você quer que eu entre na polêmica, né? Não, não vou entrar. Não vamos ganhar nada fazendo esse tipo de provocação aos católicos. Quando Mãe Aninha fez essa afirmação, ela, muito culta, se baseava em fatos puramente históricos. Os pais de Jesus, fugindo da perseguição do rei Herodes, levaram Jesus para o Egito. Egito é um país africano... Mas, na verdade, isso não tem tanta importância assim.
Qual a sua opinião sobre o sistema de cotas para negros nas universidades brasileiras? Você deixou para o fim as perguntas mais polêmicas, né? Ah, meu filho, não quero comprar briga com os movimentos negros da Bahia. Estou com 83 anos, não tenho mais disposição para a polêmica.
Vou insistir: a senhora é contra o sistema de cotas ou a favor dele... Sou contra. Ele apenas reforça o preconceito com os negros. Vão sempre dizer: “Aquele ali conseguiu de ajuda para entrar em uma universidade porque não tem capacidade de competir com a gente”. Eu tenho aqui na escola pública do Afonjá alunos brancos e negros. E vejo que todos têm as mesmas chances de ingressar numa universidade.
Caetano Veloso prefere ver Gilberto Gil, que foi iniciado pela senhora, longe da política. E a senhora? Gosto de Gil como pessoa, não me importa a posição. Ele é um homem iluminado e de hábitos simples. Mesmo depois de se tornar ministro, continuou próximo de sua gente. Está bom, meu filho? Podemos terminar?
O Vaticano é contra o uso de preservativos e prega que a fidelidade no casamento, a castidade e a abstinência são as melhores maneiras de impedir a propagação da Aids. Qual a sua opinião? A minha resposta será pessoal – não vou dizer qual é a posição como líder religiosa. Proibir o uso de preservativo é algo perigoso. E não concordo com a defesa da castidade. Num encontro mais íntimo é natural que tenha sexo, desde que se respeite o corpo.
E sua opinião sobre o aborto? Sou contra.
Por tradição, as sucessões nos terreiros são marcadas por disputas internas. O do Opô Afonjá vai fugir à regra? Confusão sempre há. Estou preparada e tranqüila. Consegui, ao longo desses anos, formar uma ótima equipe, à altura das tradições do Afonjá. Vamos ver como será a sucessão. Os búzios vão decidir. Mas peço todos os dias a Xangô para que a próxima ialorixá seja ainda melhor do que eu fui.
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