De pé, à dir., Mãe Stella com Mãe Senhora (sentada, à dir.), a ialorixá do Ilê Opô Afonjá nos anos 50. Ao lado de Jorge Amado: “A gente tinha formas diferentes de pensar a religião”.
 


Dizem que a senhora é uma das poucas a dominar o ioruba...
Quem disser que conhece a fundo o ioruba está mentindo. Mas eu falo ioruba, sim. Aprendi com Mãe Aninha a valorizar a cultura africana. Não teria sentido eu falar francês e inglês e ioruba não. Aliás, foi-se a época em que as mães-de-santo ficavam confinadas em terreiros, isoladas do mundo. É preciso viajar, aprofundar os estudos, saber o que está acontecendo.

Costuma navegar na internet? Não chego a tanto [risos].

Mas lê os principais jornais? Sim, sempre quando tenho tempo. E livros também.

Quais são seus escritores preferidos? Jorge Amado e Érico Veríssimo. Mas gosto também de romances policiais. Gostava muito de ler Agatha Christie.

Quando a senhora tomou posse como ialorixá em 1976, o terreiro sofria algum tipo de perseguição de políticos ou da polícia? Não. Eles sempre me respeitaram. Quem administra o Afonjá é Oxóssi, o guerreiro, o grande provedor. Estamos bem protegidos.

A senhora nunca pediu audiência para algum político influente da Bahia? Não.

Como era sua relação com Antonio Carlos Magalhães? Sempre cordial, de muito respeito. Nós não éramos apaixonados. Até porque não sou apaixonada por ninguém.

Dentro do Afonjá, funciona uma escola da rede pública, em convênio com a prefeitura. A senhora vetou ali o ensino de qualquer religião. Por quê?
Esse negócio de querer ensinar religião nas escolas não passa de uma grande bobagem. Eu poderia aproveitar o fato de a escola funcionar no Afonjá para ensinar candomblé. Mas não vou fazer isso. Religião não se impõe. Estamos abertos a alunos e professores de todas as religiões, mas não aceitamos o sincretismo, que enfraquece os dois lados. Mãe Aninha, uma estudiosa da cultura africana, também não admitia a mistura. Não misturava São Jorge com Oxóssi.

Existia rivalidade entre a senhora e dona Mãe Menininha do Gantois? Como era a sua relação com ela? Não, não havia rivalidade. A gente se respeitava muito. E havia amizade também. Quando a Mãe Senhora [sucessora de Mãe Aninha no Afonjá] morreu [em 1967], Mãe Menininha veio até aqui prestar solidariedade e carinho.

Qual é a sua lembrança de Jorge Amado, que, apesar de ateu declarado, era obá de Xangô (uma espécie de título honorário, concedido aos amigos da casa) no Afonjá? Fomos muito amigos. De toda a família. Jorge era especial, uma figura doce e muito simples. Simples de verdade. Sempre dormia aqui em casa nas celebrações a Xangô. Não dispensava um bom cafezinho.

 
 
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