Pé de barro
Elas têm entre 17 e 40 anos e no primeiro encontro com o rio não estão nem aí para os pés sujos de barro. Com o céu alaranjado nas costas – anunciando o dia de sol –, uma platéia de cerca de 100 pessoas, formada por locais, já está a postos para assistir às cariocas Brigitte Mayer e Gabriela Teixeira, à paulista Suelen Naraisa, à catarinense Marina Werneck, à cearense Tita Tavares, à paraibana Diana Cristina, à potiguar Krisna Souza e a Lorena Vieira, surfista maranhense, amadora e convidada do evento. No barco, Gabriela, vice-campeã do Petrobras de Surf Feminino 2007, se emociona ao contar que veio para o Estado não só pelo campeonato, mas para procurar a família de seu pai já falecido. “Vim pra surfar a pororoca, mas se tiver coragem, quero encontrar a minha avó paterna, que nunca conheci.”
Pegando jacaré
Depois de meia hora de espera eis que lá vem ela, devagar, espumante, abraçando o rio de ponta a ponta. “A pororoca é mais pesada e densa do que a onda do mar. Tem que sentir para que lado ela está indo, fazer as manobras com calma, como um balé”, ensina Tita Tavares, tricampeã brasileira. “É preciso estar em total harmonia com a natureza para conseguir surfar a pororoca. O que vale não é só a técnica, mas a integração com o rio”, diz Laila Werneck, surfista de bodyboard e organizadora dos principais eventos de surf feminino do país. Ano passado, numa prévia do campeonato, o Desafio Encontro das Águas, Laila ficou conhecida por, literalmente, pegar um jacaré. Explica-se: a força da água era tanta que ela foi arremessada para a margem, junto com o bicho. “Ele estava com mais medo da pororoca do que eu, acho que por isso não me atacou.” Laila é famosa nas ruas da cidade por causa do feito.
Pescadores e famílias locais já incorporaram o símbolo de hang loose, apontam as atletas pelo nome e pedem autógrafos. A onda, antes temida pelo povo, virou sinônimo de festa. Durante o evento, o show da banda de reggae maranhense Tribo de Jah fez sucesso na praça principal e um DJ de música eletrônica não deixou a cidade dormir. Num palco montado atrás de uma igreja católica – próxima a outra evangélica –, o prefeito Leão Santos Neto, do PSDB, abre o show dando boas-vindas às novas estrelas locais, as surfistas da pororoca. “Antes não tinha nada por aqui, a gente só ficava na beira do rio esperando a onda”, diz Antônio, 60, ribeirinho do Mearim. “Agora, mesmo ainda levando nosso chão e nossas canoas, a pororoca traz festa e animação pro povo.” É certo que, com ou sem festa, a casa de pau-a-pique de Antônio continua não tendo lá muita coisa: não chega água encanada ou luz elétrica. E todos os dias – assim como João – ele e a família tiram os móveis do chão e dormem em redes, enquanto o rio – sem cerimônia e bem debaixo deles – vai preenchendo os cômodos.
De casa, Antônio e a família também acompanharam Gabriela, aquela que veio procurar a avó, vencer o campeonato. Gabi não encontrou a matriarca, mas chorou de felicidade. “Meu coração parece que vai sair de dentro, e então eu choro. Um choro que vem como a pororoca: surge do nada, de repente”, sem mar nem areia branca. |