Acima, de azul, Laila, a amiga dos jacarés, Brigitte, Suelen, Krisna, Tita e Marina

Depois de suspender os móveis da sua casa de barro, João – que não é o pássaro – pousa na beira do rio até que a maré suba. É o terceiro dia de lua nova, e ele sabe que, junto com ela, outra visita pontual chega às cinco e meia da manhã. Visita até então não muito bem-vinda. Devastadora e espalhafatosa demais para a estrutura de sua morada. Do outro lado da margem – onde sua vista de 65 anos não pode mais alcançar – estão oito garotas, surfistas de diferentes partes do país, esperando a mesma visita que seu João: a pororoca. Em Arari, no Maranhão, não tem mar nem areia branca, mas onda de água doce. Ela chega de uma a duas vezes ao dia, com hora marcada – principalmente em lua cheia e nova – e é tão aguardada pelas atletas quanto a melhor onda salgada. E seu João, que há três anos vê os campeonatos de surf masculino acontecerem por ali, testemunhou, no início de maio, a estréia do Primeiro Circuito Brasileiro de Surfe Feminino na Pororoca (organizado pela Abraspo – Associação Brasileira de Surfe na Pororoca).
Em três dias é realizada a primeira etapa (as outras duas acontecem até junho no Amapá e no Pará, locais onde a pororoca também ocorre), e a ganhadora leva pra casa R$ 1.500, valor distante dos números apimentados das outras competições nacionais. Para se ter uma idéia, a soma da premiação do SuperSurf feminino chega a R$ 30 mil. E, se não é pelo prêmio, por que essas atletas, que já fizeram grandes surf trips, topam se jogar às cinco da matina num rio marrom pra pegar uma onda de cerca de 2 metros (a pororoca da costa amazônica é uma das maiores do mundo, podendo chegar a 6 metros)? “A pororoca foi uma das experiências mais extremas que já tive no surf, não tem nada igual. É cair na água sem saber o que vai acontecer. Na praia você pode esperar, sentir o balanço do mar. Aqui, ou você vai, ou a pororoca passa. E aí só no outro dia. Da primeira vez me debulhei em lágrimas quando – ainda no barco – ouvi o barulho da pororoca chegando”, diz a campeã brasileira Brigitte Mayer.

Bonde do surf
Com frio na barriga, ou sono mesmo, não tinha amanhecido quando as competidoras embarcaram caladas num microônibus pilotado por um dançarino de tecno-forró. A trilha sonora? Da banda Calypso à Charlie Brown Jr. Quem toca o som da madrugada é Cabelo, o piloto-dançarino e morador local. O destino é o Curral da Igreja, vila de pescadores onde quebra o rio Mearim, que desemboca no mar. É lá que elas vão se dividir em dois barquinhos e esperar literalmente sentadas pela visita que antes era só de João e seus conterrâneos. No Brasil, a onda tem cor de chocolate, arrasta jacarés, troncos e, pouco a pouco, pedaços de terra das populações que vivem à margem, os ribeirinhos. “A onda é um fenômeno associado ao ciclo da lua. Ela acontece em todos os continentes, em maior ou menor grau, exceto na Antártida. Em um determinado momento, a maré, com toda a sua força, sobrepõe a água do rio causando um estrondo. No Brasil, ela pode se estender por até 45 quilômetros”, podendo ser surfada em várias partes do rio, como explica Valdenira Ferreira, doutora em geologia e geofísica marinha pela Universidade Federal do Pará. Em 2007, o longboarder brasileiro Eduardo Bagé surfou uma mesma onda por uma hora e dez minutos na pororoca chamada de Silver Dragon, no rio Qianlang, na China. O também brasileiro Sérgio Laus entrou para o livro dos recordes, o Guinness, depois de passar 33 minutos em cima de uma mesma onda no rio Araguari, no Amapá, em 2005.

Marina Werneck e Gabriela Teixeira, na final do balé da pororoca; ao lado, as surfistas às cinco da matina, na margem do rio Mearim

 
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