Como foi essa primeira experiência? Enlouqueci com Pixote. Me apaixonei. A gente não tinha câmera pra ensaiar, hoje já começo com a câmera. No dia da primeira filmagem eu engasguei e o Fernando [Fernando Ramos da Silva, que interpreta o Pixote no filme] também. O Hector falou: “Te dou cinco minutos pra resolver”. Ele deve ter imaginado “apostei e errei”. Daí eu ensaiei com o garoto e aconteceu. Depois, fiquei dez anos sem fazer cinema. Dei aula, fiz cursos, alguns espetáculos como atriz, mas queria voltar pro cinema. E tinha certeza de que em algum momento eu ia voltar. Tenho uma diferença dessa juventude de hoje que faz cinco testes e não passa e fala que não serve.
Sua segunda preparação também foi em um filme do Hector Babenco... Em Brincando nos Campos do Senhor. Ele perguntou: “Você conhece índio?”. Eu nunca tinha visto um índio. E ele: “Então vai pra Amazônia”. Fiquei dois meses em aldeias. Na hora que cheguei, os índios estavam se preparando para fazer uma viagem para uma lagoa sagrada. E fui junto com eles mata adentro. No primeiro dia já fiquei inteira mordida de mosquito. Eu chorava, gritava, eles riam. Entrei em pânico, fui no meio da mata, xinguei o Hector. Aí peguei umas folhas de bananeira e montei minha cama no chão, como eles faziam. E, para tentar fazer amizade, ofereci minha comida. Eles comeram tudo. Só sobrou um pedaço de rapadura [risos]. E dali pra frente tive que comer o que eles comiam: macaco, porco do mato, não tinha jeito!
Durante as preparações, você não pode reagir espontaneamente? Imagina, eu reajo. Grito, choro. Às vezes digo: “Não agüento mais. Vai pra casa, isso está me deixando louca, você não está me dando nada”. Sou honesta. Eu só não posso, por exemplo, trabalhando a morte, entrar num surto por causa da minha morte. Tenho o outro pra segurar. Por isso gosto da minha solidão. Vou pra casa e dou meus surtos, choro, tomo vinho.
Que ator você gostaria de preparar? O Selton [Mello] é um menino que eu gostaria de me aproximar mais, entender melhor aquele universo. Rodrigo Santoro, Caio Blat, que tem uma loucura que deve ser gostosa de trabalhar. E a Ana Paula Arósio, uma menina que tem alguma coisa que dá vontade de puxar.
Ouvi dizer que durante a preparação de Cidade Baixa você colocou o Lázaro Ramos e o Wagner Moura para dançar valsa. Isso aconteceu? Foi assim: os dois são como irmãos e, no filme, um aponta a arma para o outro. Como eu ia chegar nisso? O Lázaro até brincou com o meu assistente: “Ela tá pensando que vai fazer o Wagner brigar, tá muito enganada”. Eu coloquei os dois dançando valsa, depois se separavam e aí era briga mesmo. Iam falando coisas sem sentido [faz som de gritaria, de briga]. Aí vêm coisas de verdade, de mentira, vem o que vier, porque a valsa é muito cansativa. Mas no fim acho que isso até aproximou os dois.
E a história de que o Wagner Moura deu um soco que quebrou o nariz do Storani, ex-capitão do Bope que participou da preparação do Tropa de Elite? Ele deu um soco, mas não quebrou o nariz [risos]. O Wagner é totalmente baiano, suave. Tinha acabado de ter nenê, estava superpaizão. Eu não conseguia trazer dele a sombra do Bope. Pedi para o Storani fazer um exercício de ordem que eu sempre uso. A pessoa fica falando: “Senta, levanta, pega água pra mim...”. Até a hora que a outra fala: “Não vou fazer porra nenhuma”. Ou ela faz o dia inteiro se for submissa. E o Storani fez isso com o Wagner, que estava obedecendo a tudo [risos]. Ele começou a ficar bravo e a falar coisas para o Wagner fazer que o deixaram fora do eixo. O Wagner estava abaixado. De repente, levantou, bateu com a mão na testa do Storiani e começou a sangrar. O Storani falou: “É isso, camarada, tá vendo o sangue? É isso mesmo, bicho”. O capitão Nascimento nasceu ali. Logo depois, eu chamo o Milhem [Cortaz]. E o Wagner começa a dar ordem para ele. E aí ele vai levando o Milhem até que ele, pessoa e não personagem, desiste. Por isso ele fez o papel do que pede para sair.
O método funciona sem você? Estou trabalhando para isso e acredito que vá funcionar. Eu preciso que ele fique quando eu for. Porque, se não ficar, não teve o menor sentido, não o fiz pra mim.
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Criadora e criaturas
Atores e cineasta que se aventuraram no método de Fátima Toledo contam o que acontece antes de irem para o set
“Fátima é uma louca que criou uma escola de interpretação para cinema quando não se fazia cinema no Brasil. Uma bruxa visionária, que tem a missão de trazer as pessoas para perto delas mesmas. Isso já gerou choro, briga, abandono e a incompreensão do trabalho. Para o ator é fácil se esconder atrás dos personagens, com Fátima o personagem é o ator (e eu gosto mais assim).”
Wagner Moura, o capitão Nascimento de Tropa de Elite
“Foi uma experiência difícil porque sou preguiçosa e bati de frente com a Fátima. Tenho um problema no joelho e, por ter que ficar agachada em exercícios que levam à exaustão física, eu chorava. A Fátima brigava: “Chore, mas fique de pé, não desabe”. Depois adaptou exercícios para o meu joelho e consegui os resultados que gostaríamos. O medo foi na hora de gravar: “Será que consigo fazer sem a Fátima?”. Aí vi que ela me ajudou a construir uma segurança em mim mesma. Desde então, respeito mais quem eu sou, meu tempo, acredito no meu trabalho.”
Hermila Guedes, a Hermila de O Céu de Suely
“Nunca é fácil trabalhar com a Fátima, mas foi com ela que fiz a melhor cena da minha vida [como Rosane de Tropa de Elite, ao levar um tapa na cara de Wagner Moura]. Só me preocupo com não-atores porque acredito que essas pessoas precisam de um acompanhamento depois. Tem até o caso do Pixote [vivido por Fernando Ramos da Silva, que, depois do sucesso do filme, participou da novela O Amor é Nosso, da Globo, mas acabou voltando às drogas e ao crime. Em 1987, aos 19 anos, foi assassinado pela polícia]. Eu tenho estrutura, faço análise há 15 anos. Mas, na primeira vez que o Wagner me deu o tapa, fiquei com raiva. A Fátima descobriu um caminho que me deixava mal. Minha resposta, quando mando o capitão Nascimento falar baixo ‘porque seu filho está dormindo’ partiu da reação espontânea. No roteiro a personagem era submissa. Fiquei uma semana sem olhar na cara do Wagner.”
Maria Ribeiro, a Rosane de Tropa de Elite
“Eu não era ator e a preparação de Tropa de Elite foi intensa, forte e sensível. Como no filme contraceno muito com o Caio Junqueira, comemos o pão que o diabo amassou e a dificuldade nos trouxe companheirismo e amizade. Eu não era obrigado a fazer tudo o que mandavam, tive que entender onde era meu limite emocional e físico. O trabalho da Fátima é maravilhoso, mas tive que ter a consciência de que não é a única linguagem dramatúrgica. Por isso, me profissionalizei e estou estudando para evoluir como ator.”
André Ramiro, o André Matias de Tropa de Elite
“Apesar de ser duro e sofrido com choro e hematomas, quase todos os atores que passam pelo processo se sentem extremamente gratificados com o que descobrem em si mesmos. Ela tem poder, não é à toa que é chamada de bruxa.”
Fernando Meirelles, diretor de Cidade de Deus |
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