Em preparação de Tainá, 2001; o “baiano suave” Wagner Moura vira capitão do Bope em Tropa de Elite;
 


Por quê?
Eu tinha uma intuição de que deveria seguir um caminho de trabalho... Não sei. E não sei também se administraria isso [o trabalho] e outra coisa.

Mas você parece ter uma relação maternal com os atores, de pegar pesado e depois pegar no colo. É, eu tenho. Tenho, inclusive, dois cachorros e dois gatos, adoro [risos]. Moro em uma casa, poderia deixar esses gatos saírem, mas não deixo. Eu falo: “Gente, se eu tivesse um filho, ele seria uma doença”. Eu tenho certas posses, quando amo, amo muito e intensamente. Para uma criança não seria nada sadio. Estou tranqüilíssima, não sinto falta, não me arrependo.

Como foi sua infância? Sou filha única, então, não dividia nada. Preferia brincar comigo mesma do que com outras crianças. E não era solta, era tímida, brava. Comecei a me relacionar com as pessoas fazendo teatro na escola. Foi quando comecei a me abrir. Mas até hoje o que é sério, de verdade, tenho dificuldade de falar.

Você é filha única numa geração em que a maioria das pessoas tem vários irmãos. Como foi sua criação? Meu pai era engenheiro civil, de São Paulo, se apaixonou pela minha mãe, que é de Aracaju, e casou, impulsivo. Eu sou parecida. A gente mudava de cidade a cada três anos porque ele fazia a rede de água e esgoto dos lugares. Nasci em Maceió, mas morei em Recife, Salvador, Brasília, Rio Grande do Norte... E vim para São Paulo aos 14 anos. Por isso também eu não fazia vínculo com outras crianças. Era superapegada ao meu pai, tive uma criação muito Simone de Beauvoir, livre, inteligente. Lembro que uma vez ele chegou em casa numa hora em que eu não esperava e eu estava com o cigarro na mão. Fumo desde os 16 anos. Aí apertei aqui [aperta o polegar no indicador por baixo da mesa] pra ele não perceber. Ele falou: “Eu vou pegar sua mãe, já volto. Aproveite, no banheiro eu tenho uma pomada, ponha no dedo, quando eu chegar a gente conversa” [risos]. Ele faleceu aos 47 anos, eu estava indo estudar cinema na Itália, mas com isso mudou tudo. E acho que aqui é meu lugar mesmo, é onde faço meu cinema.

E sua mãe? Dona de casa, nordestina fortíssima, violentíssima. Reichenbach [o cineasta Carlos Reichenbach] que fala: “Sua mãe tem mais energia que você”. Ela tem uma força, é jovem. Moramos longe desde os meus 23 anos. Um dia falei: “Vou embora”. Ela deixou meu quarto intacto por seis anos, até perceber que eu não voltaria.

Você tem medo de envelhecer? Não, nem de morrer. Só tenho medo de ficar de cama, alguém tendo que cuidar de mim. Meu único pavor é de ficar imobilizada! Todo mundo fala para mim: “O que é que você tem para a velhice?”. Ai, gente! Quando a gente for, não leva nada. Eu fiz um acordo com Ele de acabar com 70 e poucos. Faço tudo aqui e Ele vai me dar alguma coisa [risos]. Eu trabalho para Ele, porque trabalhar a alma das pessoas não é só para si mesmo, você está transformando as pessoas.

Como você virou preparadora de elenco? Eu fiz comunicação visual no Mackenzie. E o Beto Silveira [professor de teatro e preparador de atores como Ana Paula Arósio e Fabio Assunção] foi dar aula na faculdade, ele era assistente do Eugênio Kusnet [ator e professor russo de destaque no teatro brasileiro, que deu aula para as gerações dos anos 60 e 70]. E me encantei com teatro. Acabei virando aluna do Kusnet. Eu tinha um namorado músico que trabalhava na Febem. Ele me levou para lá para dar aula de teatro quando eu tinha 22 anos. O Hector [Babenco] resolveu fazer Pixote, foi atrás das pessoas que trabalhavam com teatro na Febem e me escolheu.

 
 
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