Fátima no colo do pai e ao lado da mãe: “Sou filha única e sempre preferi brincar comigo mesma”; aos 3 anos, em apresentação na escola; e na primeira comunhão
   
 

Dizem que ela deu uma martelada no garoto que teria que escolher, em Cidade de Deus, se preferia levar um tiro na mão ou no pé, para ele chorar com realidade. Contam que elencos saem feridos das preparações. E também que ela faz pessoas chorarem e falarem sem pensar. Mas isso é especulação, já que muitos garantem que o que acontece com não-atores (sua especialidade) e veteranos antes de gravações de filmes como Central do Brasil (1998), O Céu de Suely (2006) e o premiado Tropa de Elite (2007) é segredo. Fátima Toledo, primeira preparadora de elenco do Brasil (profissional responsável por fazer o ator incorporar o personagem), é o tipo de pessoa sobre a qual muita gente tem opinião. Especialmente quem nunca trabalhou com ela.
O ator Celso Frateschi (ex-secretário de Cultura de São Paulo) é um deles. Sobre as técnicas da preparadora, declarou à revista Veja, em 2007: “Preparação é um trabalho de pesquisa sério, essa coisa de sadomasoquismo é mais que ridícula. É deplorável”. De perto, Fátima, uma alagoana de 53 anos, cabelo curto e voz rouca – ela fuma sem parar –, tem cerca de 1,50 metro de altura, sorri facilmente e responde a qualquer pergunta sem cara feia. Praticante de hatha ioga e musculação, transparece a força nos braços e nas declarações diretas. Ela recebeu a reportagem da Tpm na escola que leva seu nome e que foi fundada há 12 anos, em São Paulo.

Sem fazer cena
Fátima criou seu polêmico método em 1979 quando era atriz e dava aulas de teatro na então Febem, ao estrear no cinema com o filme Pixote – A Lei do Mais Fraco (de Hector Babenco), em que assina como assistente de direção. “Nem nós entendíamos o que era preparação”, confessa. Apesar disso, em três meses, ela transformou menores infratores em estrelas de cinema.
Sua técnica – que, sim, gera choro e hematomas – é usada até hoje para despertar nos atores sensações sinceras usadas nos personagens. Fátima propõe exercícios como obedecer a ordens um dia inteiro e dizer repetidas vezes coisas que ama, que odeia e das quais sente medo. Só observando a reação dos atores, saca se são submissos, arrogantes, fortes, frágeis.
Foram dez anos entre o sucesso de Pixote e Brincando nos Campos do Senhor, também de Babenco. Sua própria preparação para o longa foi viver com índios – personagens da história –, dormindo em folha de bananeira e comendo porco do mato. Hoje, 35 filmes depois, Fátima prepara o elenco do curta O Príncipe Encantado, de Sérgio Machado, e, em 2009, estréia na direção do longa Sobre a Verdade. Neste, o preparador de elenco é um dos cinco assistentes que ela forma para continuarem o método.
A seguir, você conhece Fátima Toledo, uma profissional que sabe que um garoto nascido na periferia do Rio de Janeiro que dorme ao som de tiroteio não precisa de martelo para chorar por medo da morte. Uma mulher que ganha a vida desmascarando as emoções dos outros, mas evita falar das suas. E mesmo assim, ao contrário do que dizem, não tem nada a esconder.

 
   
 
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